[[legacy_image_282062]] A sexta edição da Brasil FurFest, realizada no último fim de semana, confirmou Santos como a capital nacional dos furries. A comunidade, que reúne pessoas que se expressam vestindo roupas que representam animais com características humanas, vive um boom. O número de participantes praticamente dobrou entre 2019 e a edição atual, que reuniu quase mil pessoas num hotel de luxo no Bairro Aparecida. “Os furries se identificam com mascotes e personagens de animações, como os da Disney. Os animais humanizados fazem parte do cotidiano desde a antiguidade”, explica o presidente da FurFest, um santista que prefere se identificar pelo nome furry de Danny Lauderdale. Os furries encontram nessas roupas de animais antropomórficos (que andam e falam como humanos) uma maneira de se expressar, seja por meio de desenhos, danças ou a fursuit, o traje de pelúcia. Com inúmeros fãs pelo mundo, a comunidade furry teve início nos anos 80, em convenções de ficção científica. Danny conta que Santos foi escolhida para receber o festival porque os organizadores são da Cidade. “Aqui é um ponto estratégico, por ser próximo de São Paulo, que possui uma grande quantidade de furries. Além disso, é financeiramente viável para comportar a estrutura do evento”. [[legacy_image_282063]] AumentoEm 2016, o festival teve 160 participantes. Já em 2019, último antes da pandemia, atraiu 570. Este ano, o número foi de pelo menos 900. As restrições impostas à sociedade pela pandemia acabaram fazendo com que mais pessoas conhecessem o mundo furry e frequentassem as festas mais recentes, diz o presidente da FurFest. Por conta desse aumento, o evento, que era realizado em um hotel de porte médio, passou para um cinco estrelas, com mais capacidade. Danny explica que o furfandom, o universo de fãs dos furries, permite criar a fursona, que é a representação de um personagem pelo modo específico de se vestir. “É impossível generalizar a comunidade, já que os sentimentos podem flutuar, desde os mais superficiais até os mais profundos. Existem inúmeros tipos de pessoas, desde aquelas que gostam somente da criação até aquelas que acham que são o personagem”. AcolhedoresPara o presidente da Furfest, os furries são “acolhedores”. “Possuímos muitas pessoas neurodivergentes e LGBTQIA+. Quem você é acaba não importando, mas sim o que está sendo passado por meio do personagem. Por exemplo, uma pessoa que se identifica como transexual pode ter uma fursona do gênero oposto, sem preocupações com julgamentos”. Essa relação foi mostrada em um documentário intitulado O Fandom, obra da cineasta norte-americana Ash Kreis, mais conhecida como Ash Coyote. “Falando de uma maneira geral, grande parte do fandom é LGBTQIA+. Acho que é uma daquelas situações em que as pessoas que não se sentem aceitas encontram um lugar onde podem ser elas mesmas. Afinal, se você é um animal, pode ser qualquer coisa”, explica Ash, que foi a atração internacional do evento, no sábado. A ideia do documentário, que tem mais de um milhão de visualizações, surgiu a partir da percepção de que a história dos furries nunca havia sido contada ou registrada. Daí o convite para que ela participasse, este ano. “A FurFest do Brasil é bem única. Frequento convenções furry desde 2003 e nunca vi uma como essa. É uma experiência fantástica. A localização é única, por ser na praia. O Brasil tem uma energia difícil de descrever. É uma felicidade vibrante e calorosa”, comenta Ash. [[legacy_image_282064]] FamososAlém de estrangeiros e pessoas de várias partes do Brasil, o evento atraiu ainda celebridades da internet. Rodrigo Magal e Gabriel Totoro, apresentadores do podcast Broxada Sinistra, estiveram presentes. “Sempre quis usar uma fursuit, então aproveitei e vim para a cobertura do evento”, revela Totoro, que também é conhecido pela participação no canal humorístico Porta dos Fundos. Vestido com criação própria, uma fursuit de capivara chamada Totó, ele brinca que escolheu o animal por ser uma boa representação do Brasil, e diz que sentiu falta de mais animais nacionais. “Acho o evento muito legal. Todo mundo tem o direito de ser feliz da forma que quiser. Também descobri que é muito bom abraçar um furry”. Jogos, dança e bazares estimulam interaçõesNa Brasil Furfest, as interações entre os participantes incluem jogos, RPG, baladas, competições de dança, bazares e desfile de fursuits, entre outras atividades. O objetivo é sempre aproximar os furries e fortalecer a comunidade, segundo os organizadores. O estudante de Engenharia Ambiental potiguar Scout Zaitsef, de 20 anos, que também se identifica apenas pelo nome de sua fursona, frequenta a FurFest desde os 15 anos. “Via bastante os vídeos estrangeiros. Inicialmente, achava que eram somente pessoas que se vestiam de animais, e não me envolvi tanto. Depois que assisti a vídeos de youtubers brasileiros, senti o interesse ser despertado”. Scout Zaitsev conta que a confecção de sua primeira fursuit foi trabalhosa, já que ele mesmo criou o modelo. “A fursuit é feita de pelúcia, espuma, EVA e tinta, além de ser costurada”. Desde 2019, ele utiliza uma fursuit de lobo, também autoral. Para o jovem do Rio Grande do Norte, no mundo furry existe a possibilidade de se ter uma “segunda vida”. “Me serve muito como fuga dos problemas do cotidiano. Quase nunca me divirto e separar um período no ano para vir à Brasil FurFest é muito bom”. Já o carioca de 22 anos que se identifica pela fursona Kuma é vendedor de artes furry e diz que o interesse começou durante a infância, por meio de animações da Disney que trazem animais falantes. “A comunidade furry significa parte da minha personalidade, algo muito natural. Trabalho com isso. Sempre gostei muito de desenhar e consumir esse tipo de conteúdo. É um mundo muito grande”. Kuma se tornou um furry durante o primeiro relacionamento, há nove anos. “Minha antiga namorada me contou que tinha uma fursona, e isso gerou curiosidade, me fez querer ter a minha também”. Vestindo uma fursuit de bode, Kuma diz que a cabeça da personagem já foi refeita algumas vezes. “Quem confeccionou, lá atrás, foi um fursuit maker (alguém que confecciona trajes de pelúcia) em início de carreira. Paguei R\$ 800, um preço abaixo do convencional”, lembra. Também há a preocupação com animais de verdade na Brasil Furfest. O bazar realizado na festa contou com a participação da ONG SOS Vida Pet. Este ano, os organizadores colocaram como obrigatoriedade a doação de um quilo de ração junto com o ingresso, segundo a voluntária Daniela Dinamarco. Foi realizado, ainda, um leilão de itens do mundo furry e arrecadações independentes. Todo o dinheiro é revertido para a causa animal. “Os furries são generosos e doam bastante. Eles abraçaram a causa animal. Nós sobrevivemos por conta deles”, diz outra voluntária da ONG, Fernanda Martins. Veja alguns termos-Furry: em tradução literal, peludo. Membro da comunidade furry (plural: furries)-Fandom: fan + kingdom. Universo de fãs-Fursona: fur + persona. Persona furry, personagem furry-Fursuit: fur - pelo, pelúcia + suit. Traje (roupa de pelúcia)-Fursuit maker: maker - artesão. Alguém que elabora roupas de pelúcia *Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - UniSantos sob supervisão do professor Eduardo Cavalcanti e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes