(AdobeStock) Eis as férias de julho. É certo que fazem a alegria das crianças – por isso são mais conhecidas por ‘férias escolares’. Mas qualquer coisa vale como pretexto, a qualquer um, para ler os clássicos – até mesmo as férias alheias ou das crianças. Importante é reconhecer e acolher essas obras da literatura universal como espelhos onde nos vemos mais nitidamente; ou como pontes para nós mesmos, pelas quais alcançamos lugares não raro desconhecidos. “O que de cara chama a atenção sobre o clássico é a atemporalidade, que só é conferida pelo deslocamento do presente. (A obra) tem um tempo de maturação e supera qualquer datação”, analisa o livreiro José Luiz Tahan. Ele cita Dom Quixote como o exemplo de clássico que mais lhe chega à frente da Realejo Livros e Edições. O escritor Manoel Herzog concorda com Tahan – tanto a Dom Quixote – “funda o romance contemporâneo” – quanto à característica atemporal do clássico. “Até pode estar vinculado a um movimento de época, mas vai ficar. Um clássico por excelência não é contemporânea, está acima do tempo, é lida e compreendida por qualquer humanidade”. Relembre abaixo alguns clássicos universais – também como absolutas dicas de leitura: não passe pela vida sem conhecê-los! Algumas obras eternas As Aventuras do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (1605 e 1615), de Miguel de Cervantes De tanto ler romances de cavalaria, famosos na Europa medieval, o fidalgo Dom Quixote crê ser ele mesmo um cavaleiro que precisa sair pelo mundo enfrentando desagravos e impondo a justiça. Convence seu vizinho, Sancho Pança, prometendo-lhe o governo de uma ilha, a acompanhá-lo como escudeiro. No olhar ingênuo e endoidecido de Dom Quixote, moinhos de vento viram gigantes, e uma taberna fétida, com seus ocupantes, transforma-se em castelo e magos do mal. Uma sátira que toca fundo por descrever tão bem o caráter dos sonhos e dos desejos humanos, tão frágeis. Editora Nova Fronteira, R\$ 264,90, em www.novafronteira.com.br. Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa Embora haja quem o rotule de romance experimental modernista, a obra rejeita nomenclaturas: é um livro que transforma o sertão das “Geraes” na própria saga do ser humano na face da Terra, ao contar a história do jagunço Riobaldo — aliás, ele próprio narra sua história — e sua relação dúbia com Diadorim. Em uma linguagem que emula a do sertanejo, não como cópia, mas como matriz para universalizar os sentidos desse coração localizado, transformando-o no coração humano, com todas as suas nuances. É um dos marcos da literatura brasileira, que há muito expandiu as fronteiras das letras do País para outras paragens. Companhia das Letras, R\$ 144,90, em www.companhiadasletras.com.br. Cem Anos de Solidão (1967), de Gabriel García Márquez Romance do escritor colombiano que já nasceu um clássico, por assentar as bases do que seria conhecido como Realismo Mágico, a nova literatura da América Latina dos anos 1960 e 1970. Uma obra-prima que conta a história de Macondo durante 100 anos, uma cidade fictícia em algum país latino-americano, sob a ótica da família Buendía, cuja saga se confunde com a do próprio continente. O absurdo ganha ares cotidianos, como se a própria vida, nas condições adversas de um continente cheio de mistérios e ainda inexplorado, só pudesse brotar por vias lendárias. De revoluções sem começo ou fim à exploração imperialista, sobreviver é uma dádiva da magia. Editora Record, R\$ 119,90, em www.record.com.br. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis Publicado pela primeira vez como folhetim, entre março e dezembro de 1880, na Revista Brasileira, a obra é um mergulho na vida brasileira do século 19. Tanto na forma quanto no estilo, apresenta inovações de escrita, com inspiração de Laurence Sterne. O livro apresenta Brás Cubas, um homem morto que narra sua vida e, nela, os jogos sociais e a hipocrisia da sociedade carioca da época, passando pela escravidão, o cientificismo e o positivismo em voga. A obra é permeada de ironia, sendo considerada a que inaugura o Realismo no Brasil, mas com matizes e frescor que diferem daqueles dos realistas franceses, como Gustave Flaubert e Émile Zola. Várias editoras e edições, de R\$ 14,90 a R\$ 73,64. A Metamorfose (1915), de Franz Kafka Narrativa curta e concisa, conta a história do caixeiro-viajante Gregor Samsa, que certo dia acorda transformado em um inseto gigante e monstruoso. A obra é uma engenhosa crítica à desumanização capitalista. Gregor, sendo o arrimo da família, passa a ser rejeitado por ela quando perde a capacidade de trabalhar. Ele é então visto como um fardo e algo “nojento”. A premissa fantástica da transformação em um animal grotesco é uma metáfora da alienação imposta pelas condições sociais e da fragilidade dos laços afetivos, que só se mantêm pelo valor da pessoa como alguém produtivo e de utilidade financeira. Companhia das Letras, R\$ 69,90, em www.companhiadasletras.com.br. Os Miseráveis (1862), de Victor Hugo A obra tomou de seu autor vinte anos para ser completada. Narra a história de Jean Valjean, na França do século 19. O enredo começa com Valjean sendo libertado das galés, após cumprir 19 anos de prisão — cinco por roubar um pão para alimentar a irmã e os sete sobrinhos e outros 14 por diversas tentativas de fuga. Envolve-se em um novo roubo, acaba sendo marcado pela bondade de um religioso e muda de vida. Em outra cidade, prospera, torna-se prefeito, mas o inspetor de polícia suspeita de que ele seja o mesmo prisioneiro que conhecera quando trabalhava nas galés. Em mais de mil páginas, desenrola-se a perseguição do inspetor a Valjean, marcada pelas profundas desigualdades da sociedade. Várias editoras, entre R\$ 17,43 e R\$ 123,84.