[[legacy_image_311659]] “Sentimental eu sou/Eu sou demais/Eu sei que sou assim/Porque assim ela me faz”, Certamente, você já ouviu – pelo menos – esses versos de Sentimental Demais, sucesso na voz de Altemar Dutra, morto há exatos 40 anos, em 9 de novembro de 1983, quando sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) durante apresentação em Nova Iorque, nos Estados Unidos. O mineiro nascido em 6 de outubro de 1940, em Aimorés, teve duas décadas de carreira e canções como a acima, além de tantas outras, que permanecem na memória romântica da música brasileira. Foi casado com a também cantora Martha Mendonça e teve os filhos Deusa Dutra e Altemar Dutra Júnior. E foi com o filho do Trovador das Américas, como era chamado, que A Tribuna conversou para recordar momentos ao lado do pai, além de falar do legado musical deixado a ele, atualmente com quase 29 anos de trajetória artística. O que você lembra do seu pai e, em especial, daqueles últimos momentos com ele? Quando meu pai faleceu, eu tinha 14 anos. E eu não tinha noção da grandeza, da importância que ele tinha na vida das pessoas, do quanto ele representava na família brasileira. Só fui enxergando isso com o tempo. Pouco antes dele viajar para os Estados Unidos, onde morreu, ele comemorou 20 anos de carreira. Isso me marcou muito: de poder estar no Teatro Franco Zampari, em São Paulo, assistindo a uma apresentação dele, muito feliz, com dois tios meus, irmãos de minha mãe, tocando na banda, os guitarristas Dejair e Wilton. Não esqueço. Quais as melhores histórias de quando você acompanhava seu pai, ainda pequeno, em programas de TV e em shows? Eu e minha irmã tivemos a oportunidade de acompanhar muito. Em alguns lugares que não poderia ter criança, a gente ficava no camarim, meio escondido, ou dentro de um carro. Meu pai teve um programa durante muito tempo na Rádio Cacique de Sorocaba. E estávamos sempre. Ele gravava semanalmente e eu ia lá andando pela discoteca, procurando os discos. Foram momentos maravilhosos. Acompanhá-lo foi minha escola, de ver as atitudes do meu pai, a generosidade, a simplicidade dele com aquele talento monstruoso. E sempre pude ver a mesma pessoa. Como eu disse, não sabia da grandeza, mas sabia que era um cara diferenciado, amado pelo povo. [[legacy_image_311660]] Qual música do repertório do seu pai é mais pedida em seus shows? Tem alguma que você gosta em especial, mas não é tão pedida? Sentimental Demais, Que Queres Tu de Mim, Brigas, O Trovador são sempre pedidas. Não podem faltar nunca. Mas Meu Velho sempre deixo para o final porque é muito emotiva, mexe comigo. Mas o lado B de Altemar Dutra, se eu puder dizer assim, é A Partida. Foi uma música que ele não teve muito tempo de trabalhar, gravada pouco antes dele falecer. Acho linda. Sempre que tenho oportunidade, gosto de cantar e já a regravei também. Falando em Sentimental Demais, é um dos destaques entre as composições de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. O Evaldo morreu em 2020. Você tinha contato com ele? Chegou a fazer músicas pra você? O Evaldo era uma pessoa maravilhosa. Tive muito contato com ele, que me presenteou com uma música no primeiro, no quarto e no sexto CD que gravei. Era uma pessoa muito querida. Fizemos shows. Cantamos juntos em Recife, Fortaleza, estive com ele em vários momentos. Uma pessoa muito querida, que representava, para mim, uma figura paterna. Era como se eu estivesse próximo ao meu pai por essa ligação estreita que eles tiveram durante toda a vida. Uma história que impressiona é o fato dele ter gravado a música Vida Roubada, tema de abertura da novela homônima do SBT e que entrou no ar cinco dias depois da morte dele. Como é sua relação com essa canção? Essa música tem essa particularidade. Realmente, ela saiu depois que meu pai tinha falecido. Gosto muito dela. A interpretação do meu pai é maravilhosa, mas nunca cantei. Engraçado, a gente conversando, me chamou a atenção. Nunca cantei em show essa música nem regravei. Ela representa um momento, para mim como filho, de dor, o de perder o pai, mas ao mesmo tempo de renovar, reforçar fé, esperança e de ouvir a voz do meu pai sendo eternizada logo depois de seu falecimento. Seu pai, mesmo depois da morte, continuou sendo um grande vendedor de discos. Como você vê esse legado, 40 anos depois da morte? Veja só que interessante: meu pai agora completa o dobro de tempo de ausência física que ele teve como cantor. Ele só teve 20 anos de carreira. Sempre foi um grande vendedor de LPs e de CDs. Só que, hoje, é um pouco diferente com a tecnologia, mas continua tendo muita aceitação. Eu que trabalho rodando o Brasil fazendo shows, vejo um público também renovado, assim como era o do meu pai. Vai passando de geração para geração. Esse repertório mexe com o emocional das pessoas e perdura. Minha mãe, que vive dentro dessa dificuldade musical no País dos direitos, teve que se readaptar para a era digital, mas meu pai continua um grande vendedor do seu trabalho, da sua obra. Foi muito difícil você vencer na música, em razão da figura muito forte e marcante do seu pai, ou foi mais fácil pelo mesmo motivo? Eu torço muito por todos os filhos de cantores, principalmente. Para que tenham algo para vender, para oferecer, e, ao mesmo tempo, acho tão natural o filho do advogado ser advogado ou do médico ser médico. Acaba sendo fruto do meio e, quando transcorre de forma natural, é bem legal. Não pode ter forçação de barra. Dificuldade a gente sempre teve. Tem muita coisa boa, mas muito preconceito por conta de ser filho. Mas o tempo foi mostrando, fazendo um trabalho sincero, honesto, com muito amor e, nesse próximo ano, faço 29 anos de carreira, graças a Deus vivendo da música, levando essa obra maravilhosa do meu pai e também a minha forma de enxergar a música. Me sinto realizado para poder continuar o legado dos Dutra, com a minha visão e o meu tempo. Não é fácil, mas também não é difícil. Quarenta anos depois da morte de seu pai, qual o legado que você carrega dele, além do fato de ser filho e a musicalidade? Por quê? Em primeiro lugar, é me sentir abençoado, agraciado por Deus por ter um material genético, por ter uma saúde vocal para poder cantar e viver da música no nosso País. A obra que ele deixou é maravilhosa, uma herança que, juntamente com seu público, eu recebi e me sinto muito realizado, muito feliz. Quarenta anos de ausência física do meu pai, 29 anos de minha carreira, então para mim é muita emoção. Não tenho problema algum de citar meu pai. Muito pelo contrário. Ele é meu ídolo, uma referência muito forte para mim, e agradeço nesse tempo todo trazer esse legado. As pessoas entenderam o principal, que é o jeito que eu faço. Nunca vim ao meio artístico para imitar meu pai. E também não vim para renegar meu pai. Vim para fazer do meu jeito, sempre enaltecendo o grande nome que é Altemar Dutra. E eu tenho o privilégio de ter essa chancela de ser Altemar Dutra Júnior.