Ricardo e o caderno que foi recebendo os poemas ao longo dos anos: marco inicial do gosto pela criação (Sílvio Luiz/AT) Às vezes a poesia vai além da palavra. Com vida própria, ela escolhe alguém: os versos viram gente. Essa é a história de Ricardo Avelino, 48 anos, que acaba de lançar a 2ª edição do livro Coração de um Poeta. Mineiro de Raul Soares, criado em Coronel Fabrício, muito cedo a vida lhe trouxe uma provação: aos dois anos, contraiu a encefalite viral que lhe moldou o corpo, mas que jamais poderá definir-lhe a alma. “Ficava muito recluso, no quarto, em cima da cama. A cabeça trabalhava. O coração ia além do universo”. O coração ainda desconhecia que seu destino estaria em um simples caderno escolar. Duas ocorrências contribuíram para a descoberta. A primeira foi o pedido de auxílio de uma sobrinha para elaborar uma carta de amor para a mãe e seu namorado – uma espécie de mimo aos pombinhos. Ricardo topou – e gostou da experiência de criar. Mas a segunda ocorrência foi a mais contundente. “Ouvia o programa de uma radialista em Coronel Fabrício”, recorda. “Uma voz linda. Marília o nome dela”. Foi paixão à primeira ‘ouvida’. Era 1999. Um amigo era diretor da rádio, de programação gospel (Ricardo é evangélico, frequenta a Igreja Batista). Certo dia, pediu: “Me leva no programa?”. Teve início não só uma bela amizade, mas a história de uma inspiração. Por Marília, Ricardo estreou em poesia. “Ela lia tudo. Achava lindo”. Elaborava tudo na cabeça, em duas ou três semanas. Depois, quando recebia visitas, ditava os versos para que fossem eternizados no caderno. Marília passou, o caderno e a poesia estão aí até hoje. “Me sinto muito bem escrevendo”. Aliás, foi do caderno que, em 2023, a jornalista e gestora de projetos culturais Ana Paula Christo Mendes retirou os versos e a ideia para o livro Coração de um Poeta. “Conheci o Ricardo na Igreja. Quando ele me mostrou o caderno, não podia simplesmente devolvê-lo: quis honrar o sonho dele de se tornar escritor”. O caderno transformou-se em um símbolo de amor e perseverança. Hoje, Ricardo escreve direto no computador, por um sistema em que os comandos na tela respondem ao seu olhar. Ricardo mora em Santos há seis anos, na casa da irmã Cátia Valéria – ele tem quatro irmãos no total. A princípio, mudaram-se ele e a mãe. Passado algum tempo, a mãe desejou voltar para a sua terra natal. Ricardo não quis: como um quebra-cabeça, os pedacinhos de sua vida já estavam se juntando em Santos. Mas para que tudo se encaixe, é preciso tirar duas questões do caminho: acessibilidade, a falta; e o preconceito, a presença (ainda). “Uma vez, em Minas, estava esperando o ônibus com minha mãe”, recorda Ricardo. “Uma senhora passou e perguntou onde estávamos indo. Minha mãe respondeu: para a escola”. A mulher ficou indignada, pois alguém como Ricardo, para ela, tinha que ficar em casa. “Isso me irritou demais”. Irritou tanto, que minutos depois, quando a mulher passou de novo e perguntou: “Ainda estão esperando o ônibus?”, Ricardo retrucou: “Não, estamos esperando o navio”. No ônibus, mas já em Santos, Ricardo encontrou a falta de acessibilidade: não foram poucas as vezes que o sistema para cadeirantes deixou de funcionar. Como resolver o impasse? Esperar outro veículo ou pegar carro particular. “Pegamos para ir ao Teatro Municipal, cobraram R\$ 120,00”. Detalhe: a família mora na Rua Nove de Julho, no Marapé, a pouco mais de dois quilômetros do teatro. Acessibilidade passa também por oportunidade. O desejo de Ricardo é conseguir um carro adaptado para suprir não só a sua necessidade de locomoção, como a de outras pessoas em situação similar, como um carro por aplicativo PcD, mas por um preço justo – seria o seu trabalho, o seu ganha-pão. Esse é um sonho. Outro sonho é fazer faculdade de Letras. A vida pulsa em Ricardo, e seja como for, o que ele quer é trabalhar, sustentar-se. “Gostaria demais de ter uma oportunidade”. Por enquanto, passa os dias no computador, criando sua poesia, estudando espanhol e jogando xadrez. Até já participou de torneios online. Ganhou? “Experiência. Que é o melhor troféu que existe”, sorri. Para comprar Quem quiser comprar a segunda edição do livro Coração de um Poeta, de Ricardo Avelino, pode entrar em contato pelo WhatsApp (13) 99152-4758. Também são impressos livros personalizados, com logo de empresas, por exemplo. Ricardo também está na internet: @ricardoavelinopoeta (Instagram) e no site.