"A MPB sempre foi uma música que não era para todos. Hoje, a gente tem esse sucesso, Djavan, Caetano, Bethânia, Chico lotando estádio... é uma megavitória”, diz o artista (Divulgação) São 30 anos que não cabem em três décadas. Nos mais de 20 álbuns, prêmios, parcerias e sucessos, o tamanho de Jorge Vercillo na MPB já é maior do que o tempo de carreira. A celebração é à altura: pelos palcos do País que acolheu a sua arte desde Encontro das Águas – o primeiro álbum, de 1994 –, marco inicial das comemorações. O show JV30 II: Mais um Final Feliz chega neste sábado (22), às 22 horas, ao centro de convenções de Santos (Praça Gago Coutinho, 29, Ponta da Praia; ingressos entre R\$ 140,00 e R\$ 240,00, à venda em www.ticketmaster.com.br). Nesta entrevista, Jorge fala sobre o início da carreira e as comparações com Djavan, sobre a evolução da música e da tecnologia, defende a Ciência contra o obscurantismo e discorre sobre a possível vida em outros planetas – Jorge é ligado à Ufologia. São 30 anos de carreira. Onde você coloca o marco inicial? Em 1994, quando foi lançado meu primeiro disco, Encontro das Águas, ainda em LP. Naquela época, década de 1990, era muito difícil ter condições de gravar. A gente gravava muitas demos, em fita cassete. Por isso esse é o marco e nós já estamos no terceiro ano de turnê JV30. Comecei a trabalhar com a minha esposa, a Martha Suarez, ainda na pandemia, e a turnê foi um êxito em 2024, seguiu para 2025. Este ano já fizemos mais de 14 sold outs (lotação máxima), em casas de médio e grande portes. Esse álbum foi um ponto de partida, mas também de chegada, na época, ao conseguir gravar. Como foi o caminho até a gravação? Como a música entrou na sua vida até chegar ali? Difícil resumir... fanático pelo Flamengo, eu sonhava em ser jogador de futebol. Quando comecei a ficar adolescente, mesmo jogando futebol, a minha tia (cantora Leda Barbosa, da época áurea da Rádio Nacional) me sugeriu começar aulas de violão, porque ela percebeu que eu estava ouvindo os LPs do meu irmão, do Clube da Esquina, Gonzaguinha, Chico Buarque, Stevie Wonder... fiquei encantado com a MPB da época. Era 1981, 1982, o Gil lançando A Gente Precisa Ver o Luar. Nessa caminhada no violão comecei a descobrir que a música era um grande barato e perguntei para a vida se ela me queria na música ou no futebol. Comecei a tocar, e os festivais, as noites do Rio, onde toquei nove anos, foram meu primeiro sustento, me mostraram que era a música. O futebol continua sendo uma grande higiene mental, a coisa de se permitir ser criança, ser garoto. É muito bom. Prefiro não falar de futebol... (risos) Pois é. Mas todos nós passamos por isso. Até para falar do Brasil... eu faço votos de que a CBF leve mais a sério o futebol brasileiro e dê continuidade. Eu confio no jogador brasileiro, com qualquer time, desde que dê continuidade. Por exemplo, modéstia à parte, esse show, o JV30, está muito bom por quê? Porque demos continuidade. Veio da primeira fase, fizemos modificações. Tudo o que o ser humano dá continuidade, ele vai aprimorando. Se o Carlo Ancelotti ficar na seleção brasileira e seguir o trabalho, será possível criar um padrão de equipe, coisa que hoje não há. Tem jogador bom, mas entrosamento nenhum. Quando você surgiu, muitos críticos o compararam ao Djavan, até de forma pejorativa. Ele teve essa ascendência sobre tua arte? Ouvi muito o Djavan, adoro até hoje. Fui cantar em Brasília, no Na Praia Festival, agora em julho. O Flávio Dino, ministro do STF, foi no camarim depois. Mas, antes, passou no camarim do Caetano. Ele disse para o Caetano, e estou reproduzindo porque saiu na imprensa: ‘Caetano, estava agora vendo o show do Jorge Vercillo, e ele falou de você, que o brasileiro, a nova geração, precisa ouvir muito suas opiniões, as do Chico e as do Gil. Que o povo brasileiro, o jovem, tem muito a ganhar ouvindo vocês’. Por que tô falando isso? Eu nunca fingi: sou um filho da MPB. Tenho influência enorme, não só do Djavan, mas do próprio Caetano, do Gil, Milton. Ano passado, fui ver um show do Djavan e levei um violão da Gibson Chet Atkins para ele, de surpresa, no camarim. ‘Como eu nunca soube agradecer o que você fez por mim, gravando Final Feliz comigo... e você sabe, ali, você deu asa à cobra’, eu disse. Ele respondeu: ‘Jorge, foi uma das melhores coisas que eu fiz naquela época’. Se você estivesse começando hoje a carreira, acha que seria mais fácil ou mais difícil? Seria mais fácil gravar, mas o mercado está muito pulverizado. Apesar das grandes plataformas de streaming terem democratizado a música, a gente não sabe se elas vão conseguir produzir clássicos, como o rádio produziu. É muita gente, e fazendo um som bom. Você lança uma música, se não fizer divulgação, não adianta, é um grão de areia no oceano. Fala-se que a nova geração, sob tanto estímulo, já não teria paciência para ouvir uma música inteira, isso sem falar no conceito de álbum, que praticamente acabou. O que você pensa disso? Você viu a série Som na Faixa, sobre a criação do Spotify? A genialidade dos criadores, a persistência, o lado heroico... mas aí tem o lado de não valorizar o artista. Eles acham que o artista é produtor de conteúdo. O streaming e as gravadoras ganhando uma grana muito boa, o artista nem tanto... mas a gente sempre teve nichos. A MPB sempre foi uma música que não era para todos. Hoje, a gente tem esse sucesso, Djavan, Caetano, Bethânia, Chico lotando estádio... é uma megavitória. A gente entende que as pessoas estão nessa fase de não ter tempo para ouvir, mas também tem muita gente ainda ouvindo. Como o artista deve se colocar nesse processo? Não é só ficar famoso, vender. Ele não faz um disco só de lado A, de hit. Ele sabe a importância do lado B. Tem paciência para crescer na carreira. Você vê artistas que mandavam no mercado nas décadas de 1980 e 1990, depois caíram para um brega e a carreira degringolou. Outros, mantiveram seu caminho, devagar e sempre. O trabalho de Lenine, por exemplo, é genial, vem decolando. O meu mesmo... é o que falei da continuidade. "A inteligência artificial é como um cavalo. Se a gente souber montar, o cavalo nos leva longe" (Divulgação) Qual sua opinião sobre a inteligência artificial na música? Estou lançando mês que vem uma música com o produtor Dani Lopes, Quatro Elementos. É uma música feita com arranjos de inteligência artificial. Estou para lançar uma música com DJ Marlboro, que é do funk pop, em que no clipe minha imagem é de IA. A inteligência artificial é como um cavalo. Se a gente souber montar, o cavalo nos leva longe. Se a sociedade tiver ética, a IA será um instrumento maravilhoso. Você já falou abertamente sobre seu interesse em Ufologia. Como tem visto as liberações dos arquivos sobre o tema nos Estados Unidos? Ainda tem muita coisa mal explicada, mas é um marco. Estamos vivendo um momento marcante na nossa vida. O interessante é justamente um presidente tão louco como o atual dos Estados Unidos (liberar), até para esconder os podres dele ou por ego. Sinal de que até de pessoas e coisas ruins a gente pode colher frutos positivo. Agora, sempre acompanhei Ufologia, mas nunca fui desses loucos que acham que a Terra é plana. Não sou negacionista ou contra a ciência; ou dessas pessoas que proíbem os filhos de tomar vacina. Esse pessoal parece que veio de outro planeta, um planeta perdido. Você chegou a ter experiências ufológicas, não? Tive alguns avistamentos, mas nada muito flagrante. Vi várias bolas de luz na minha casa. Você vê aquilo, te passa uma sensação de tranquilidade. É algo natural, mas que a gente ainda não conhece. Depois que o Hubble e o James Web, os telescópios, trouxeram a informação de que só na Via Láctea há 300 bilhões de estrelas... o universo é cheio de vida. Como seria a relação humana com alguma outra raça cósmica? Primeiro, não fazer algo que fazemos com santos e deuses: adorá-los, cultuá-los. Muito menos demonizá-los. Tratá-los como irmãos, que podem errar e acertar. A humanidade precisa desse equilíbrio. De não achar que o ET vai resolver tudo. Nós é que temos de resolver as nossas questões. Temos que conhecer exatamente o nosso papel no universo. Exato. Acho a palavra ‘Deus’, em português, muito feliz, porque na verdade são vários ‘de eus’, todos à nossa volta, os amigos, inimigos. A partir do momento que o ser humano encarar que ele é Deus no planeta Terra, que ele é regente, que não adianta se eximir da responsabilidade de cuidar do planeta... porque até hoje, o ser humano fez de Deus o mordomo de seus desejos. Qual teu maior sonho? Procuro dimensionar os sonhos pequenos, mas tenho os grandes também. Alegoria é o nome de uma música que eu fiz em homenagem à minha mulher. Tem uma parte assim: “Quem imagina do que seremos capazes/Faremos o reino da vida na Terra/Ou são só delírios de um ingênuo poeta?/(...)/Se nada é impossível em mim ao lhe ver/Que alegoria real do amor é você?”