Renato Russo, a melhor voz do rock dos anos 80, segundo Emilio (foto maior), e o guitarrista Dado Villas-Boas: gravações duraram cinco meses (Maurício Valladares/Divulgação) Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Não foi só imaginação, como muita coisa aconteceu. E José Emilio Rondeau estava lá: ele foi o produtor do primeiro álbum da Legião Urbana, que completa 40 anos este ano. Emilio acaba de lançar um livro de memórias sobre as gravações. Jornalista, Emilio já passou por revistas e jornais de alcance nacional, escrevendo sobre cultura, especialmente música. Também flertou com o cinema, tendo dirigido o filme 1972 (2006). Já a aventura na produção musical começou por acaso: em 1983, com o então recém amigo Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. Você é jornalista, de repente virou produtor musical? Veio de maneira natural. Acompanhava muito o cenário musical, especialmente do rock. Gostava de estudar o se fazia no estúdio, como se gravava; lia entrevistas de engenheiros produtores, artistas. Depois, comparava o que falavam com o disco. Fui ganhando informação, de como era feito. No fundo, ficou a vontade: se um dia houver a oportunidade, me interessa meter a mão na massa. Como surgiu a concretização dessa vontade? Eu tinha ido a São Paulo, conheci o Marcelo Nova, que era radialista em Salvador. A gente estava no mesmo ônibus fretado pela EMI para jornalistas e radialistas irem assistir ao show do Queen, no Morumbi, em 1981. Sentamos por acaso um ao lado do outro, ele contou da banda que estava montando, a Camisa de Vênus. Nos tornamos amigos, trocamos cartas. Até ele falar que a banda estava pronta e eles iriam gravar um disco. Não lembro se fui eu que me ofereci ou se ele me chamou para produzir. Era uma produção independente? Sim. Eles estavam fazendo para a RGE, que era um braço da Som Livre. Então, a gente tinha liberdade absoluta de fazer no estúdio. Os dias gravando foram muito divertidos, porque era a primeira vez pra eles e pra mim. A gente foi aprendendo na prática, conhecendo as ferramentas, as possibilidades e limitações de cada um e de cada coisa. O disco ficou com a cara do que foi aquele tempo: um álbum punk feito por semi-amadores tentando ser profissionais. Como a Legião Urbana chegou a você? Foi um percurso muito diferente. Como se eu tivesse entrado no meio de um filme. A Legião Urbana, quando eu ouvi a fita demo com aquelas 13 músicas, já tinha uma carreira de palco, havia canções em rádio no Rio de Janeiro. Mas eu não sabia de nada disso. Ouvir a fita, pra mim, foi uma descoberta sensacional. Como você teve contato com essa fita? Trabalhava comigo o Tom Leão, um assistente nosso, que tinha no Rio um fanzine chamado Na Cidade, coisa bem de mimeógrafo. Ele era super antenado nas novidades, trazia novas bandas de rock de todo o País. Ele trouxe essa fita. Naquele momento, eu já tinha um relacionamento com a EMI-Odeon, por ser um jornalista envolvido na cobertura de artistas, especialmente da parte internacional. E o diretor internacional era o Jorge Davidson, que havia acabado de ser alçado à direção artística, graças a duas grandes contratações: a Blitz e Os Paralamas do Sucesso. Contratou a Legião aconselhado pelos Paralamas. O Herbert Viana entregou a mesma fita que eu tinha ouvido e disse ‘vocês têm que contratar esses caras, eles são sensacionais’. Eu, sabendo que o Jorge havia contratado a Legião, fui bater na porta dele: ‘olha, eu não tenho credencial como produtor de grande experiência, mas tenho um pequeno crédito com o Camisa de Vênus. Eu quero produzir esse disco’. Quando você chegou, o álbum já estava em produção, não? Um monte de coisa já havia ocorrido entre eles e a gravadora que eu desconhecia. Houve problemas com dois produtores, o Marcelo Sussekind, um craque, que havia produzido o segundo disco dos Paralamas, e o Rick Ferreira, outro craque, que havia trabalhado com Erasmo Carlos e Raul Seixas. Ou seja, tinham grandes credenciais na produção de rock. Eles trabalharam em 1983, mas não houve liga. Quando eu cheguei, havia essa tensão: o que vai acontecer agora, nessa terceira tentativa de gravar Legião Urbana? Quando você chegou, com esse pano de fundo, como foi recebido pela banda? Eles estavam com a guarda alta. Mas no decorrer do trabalho, tudo foi se acertando, porque nós falávamos a mesma língua: éramos quase da mesma geração. O Marcelo e o Rick eram um pouco mais velhos. A música que formou a Legião era também a que eu tinha ouvido, de uma forma que Marcelo e Rick não haviam tido contato. Acho que essa foi a minha facilidade de trabalhar com eles, porque eu não tinha o conhecimento técnico, nem era músico, como o Marcelo e o Rick, mas eu sacava de música. Passei a vida estudando discos fundamentais na formação deles e outros, que não eram da formação, mas faziam sentido na sonoridade. Quais eram esses discos e influências? Nossos pontos de convergência eram Gang of Four, Clash, The Cure. Mas vieram outras camadas, que num primeiro momento você não imaginaria relação com a Legião. Renato (Russo) e Dado (Villas-Boas) eram loucos por Beatles, e você nem pensaria em falar disso com eles. No entanto, tem Beatles no disco: Será inclui logo no começou um fraseado de guitarra dobrado com piano, que é o que Os Beatles faziam no início da carreira. Quais foram os desafios que a produção? Foram cinco meses de gravação. Você coloca juntas durante cinco meses pessoas com convicções fortes, desejos artísticos plenos, com aquela marra da juventude que todos tínhamos, embora eu fosse um pouco mais velho, haverá momentos de êxtase e de tensão. Esses momentos ocorriam, mas acabavam sendo contornados, porque todo mundo queria fazer o melhor disco possível. Alguma situação mais aguda? Um episódio, que inclusive está no livro, foi durante a gravação de Ainda É Cedo. Era madrugada, todo mundo exausto. A bateria não estava indo bem. Eu pedia para o Bonfá alguma coisa de que não me lembro, e segundo a Fernanda Villas-Boas (mulher do Dado) lembrou, ele teria dito: ‘eu toco bem quando eu quero’. Dei tchau e fui embora. Tive uma atitude tão intempestiva quanto a dele, isso foi errado também. O Renato foi no estacionamento falar comigo. Chovia muito. ‘Não, por favor, vamos retomar, passar por cima disso’. Falei: ‘se você garantir que tudo vai ocorrer com mais foco, eu volto amanhã’. Ele voltou para o estúdio e o Renato teria dito pro Bonfá: ‘como você diz uma coisa dessas?’. E qual a resposta do Bonfá? ‘Mas eu toco bem quando quero...’ (risos). Foi a única vez que houve algo mais grave. Mas havia divergências. Por exemplo, em Será. Para mim, essa canção era o mesmo que Born To Run, de Bruce Springsteen, um hino de libertação, e eu via a sonoridade de uma na outra. Então propus usar o glockenspiel, um instrumento similar ao xilofone, utilizado em Born To Run. Eles ‘tá maluco?’. No fim das contas, aceitou-se o instrumento, tocado por Renato. A ideia era tocar três notas no refrão. Mas ele foi além: fecha a música solando no glockenspiel, o que foi inesperado. No título do livro está ‘genialidade’. Como era essa genialidade na Legião, tendo assistido tudo por dentro? Vou dar uns exemplos. Fomos fazer os vocais de Será. São duas as vozes. O Renato chegou, fez a primeira, imediatamente fez a segunda voz completamente diferente, complementares, emocionantes, perfeitas. Essa é uma característica da Legião: além de ter uma música visceral, de letras de grande peso, tinha um grande cantor. O Renato era a melhor voz do rock brasileiro. Quarenta anos depois do álbum e do rock dos anos 80. onde você foi enquadraria a Legião nesse contexto? Havia uma leva de artistas de rock no Brasil, especialmente no Rio, que era um rock leve, com senso de humor. Um rock que também é muito pop, radiofônico. O que veio com a Legião foi diferente. As canções falavam com a juventude, que precisava de alguém que ajudasse a dar um leme no tempo de mudança do País. Você diria que o rock dos anos 80, o BRock, foi o último movimento musical no País? Passados 40 anos, a gente tem uma variedade de artistas que são consequência desse momento. Black Pantera, Carne Doce, Cigarras, Tagua Tagua: só existem porque houve Titãs, Paralamas, Plebe Rude, Legião. Fazer um disco e distribuí-lo ficou mais fácil e barato. Porém é mais difícil de se fazer notar sem a onipresença da indústria. Como você vê isso? No final de 83, quando a Legião desistiu do disco porque não tava dando certo, o Mayrton Bahia (produtor musical), chamou eles e deu uma master class de indústria. ‘Isso aqui não é uma entidade filantrópica. É uma empresa para fazer dinheiro. Existe nessa indústria o artista de curto, o de médio e o de longo prazos. Os de curto prazo são os que dão mais retorno. É com esse dinheiro que se pode financiar o artista de médio e de longo prazos, como vocês’. A gravadora tinha uma força muito grande nos meios de comunicação. Se você quer Roberto Carlos, você vai ter que colocar fulano de tal. Esse suporte ajudava o artista. Hoje, para você se fazer ouvir, é mais difícil. No entanto. nos festivais como Lollapalooza, lá no meio tem um ou dois artistas que você ou eu nunca ouvimos, mas que todo mundo está cantando as músicas. Existem muitos nichos e artistas que funcionam bem neles. Como você vê a Inteligência Artificial na música? A IA é muito sedutora e muito traiçoeira e, hoje em dia, inevitável. Na parte artística, ela pode ser usada como assistente. Pode ajudar a trazer soluções diferentes numa letra, num som que você queira criar diferente. Mas sou completamente apavorado quando se parte para criar coisas que não existem. Como ver Frank Sinatra cantando Metallica. Há muitas vantagens no uso. Agora, torná-la o começo e o fim de tudo, é um erro tremendo. Por que não enveredou de vez pelo ramo da produção? Recebi um convite para ser correspondente nos Estados Unidos e fiquei focado nisso por 20 anos. (Reprodução) O livro Será! – Crises, Genialidade e um Som Poderoso: Os Bastidores da Gravação do Primeiro Disco da Legião Urbana Contados por seu Produtor Autor: José Emilio Rondeau Editora: Máquina de Livros Páginas: 112 Preços: R\$ 65,00 (impresso) e R\$ 39,00 (e-book) (Reprodução) O álbum Lançado em 2 de janeiro de 1985, o álbum Legião Urbana é composto por 13 canções, algumas delas clássicos do repertório da banda: Será; A Dança; Petróleo do Futuro; Ainda É Cedo; Perdidos no Espaço; Geração Coca-Cola; O Reggae; Baader-Meinhof Blues; Soldados; Teorema; Por enquanto.