O ator Nuno Leal Maia (Vanessa Rodrigues/AT) “Homem que é homem faz como eu: nada, pedala e ainda ajuda a mulher a lavar louça. Né, bem?”. Em 1975, Mexa-se, uma campanha para estimular o esporte entre a população, abriu as portas da TV Globo para Nuno Leal Maia. “Naquela época, todo mundo era meio devagar para o exercício físico. Hoje tem que fazer a campanha ‘Pare-se!’”, sorri. Brincadeiras à parte, o que esse santista nascido na Beneficência Portuguesa mais fez na vida foi mexer-se. A tal ponto que, até ver-se em cima do palco, jamais havia sonhado em ser ator. Mas esta história começa no cinema, em São Vicente. Aos 4 anos, a mãe, Alcídia Leal Maia, já o levava às matinês de domingo do Cine Maracanã para assistir bang bangs ou aos tarzans de Lex Barker. Nos sábados à noite, era o turno do pai, Nelson Machado Maia, nas andanças com o menino no cinema: iam ao Atlântico, em Santos, para ver os filmes do Totó, herói italiano personificado pelo ator Antonio Griffo. Suprema glória: depois da sessão, tinha direito a pizza. O menino foi crescendo e chegou a época de ir ao cinema pelas próprias pernas. Era o tempo das chanchadas da Atlântida. Nem Sansão, Nem Dalila, de 1954, dirigido por Carlos Manga, estrelado por Oscarito, capturou o coração do adolescente de 13 anos. “Vi cinco vezes no Cine Petrópolis (em São Vicente). Eles entravam numa máquina do tempo, achava aquilo maravilhoso, eu ria muito”. De São Vicente para Santos A máquina do tempo de Nuno nos conduz ao final dos anos 50, quando a família se mudou de São Vicente para a esquina das ruas Jorge Tibiriçá e Mário Carpenter, no Gonzaga. “Santos era um sossego. Tinha os bondes, eram o maior charme da Cidade”. A vida se dividia entre estudar no Colégio Santista, tardes de futebol e noitadas no clube de cinema de Maurice Legèard, embrião do atual Cineclube de Santos, à época ainda um tanto informal. “Ele exibia os filmes num bar a cada sábado”, recorda. “Ficávamos trocando ideia sobre cinema até quatro da manhã. Saía torto pra casa”. Nuno se refere a Maurice como genial. “Me obrigou a assistir Oito e Meio (de Federico Fellini). Eu não entendi nada. Ele: ‘tu é burro pra caramba!’”. Preocupado com a “vagabundagem” de Nuno, o pai, despachante aduaneiro, levou o filho para trabalhar consigo. Nuno chegava cedo na sala da Rua Braz Cubas, se desincumbia das tarefas diárias e três da tarde estava liberado. “Sempre gostei de viver. Qualquer coisa que me mantivesse, estava bom”. Saía e ia treinar na “academia do Elias”, o Centro Santista de Halterofilismo, então na Praça Barão do Rio Branco. Também frequentava o judô, na academia de Akira Kurachi, na Praça da República. Tanto treino tinha uma razão. “Me achava muito franzino”. Mexa-se! O palco chegou Após passagem pelo curso de economia na UniSantos – “fui reprovado em Contabilidade” –, Nuno descobriu por amigos uma nova faculdade de Cinema na USP, no embrião do que seria a Escola de Comunicação e Artes. Era 1967. Subiu a Serra para fazer cursinho. Arrumou emprego em banco para se manter, primeiro na Rua Boa Vista, depois no Crédito Real, no Viaduto do Chá. “Era um prédio bonito, pensava: ‘deve ser bom trabalhar aí, com gente passando, vendo a rua’”. Um dia, encontrou um amigo que deu a dica: o Crédito Real faria uma seleção. Nuno foi, passou. “Me jogaram pra trabalhar no porão, não via ninguém”, sorri. A certa altura, surgiu a chance de faturar um extra levantando informações sobre possíveis clientes para o Diners Club. “Pensei, ‘ah, não quero saber de caixa, mais nada, só essas fichas tá bom: faço o que eu quero, na hora que eu quero”. Nuno então passou no curso de Cinema. Logo depois, em História. Decidiu fazer as duas. Entrou o estudo, saiu o trabalho: o banco era inconciliável nessa agenda. Voltou-se para o pai: seo Maia concordou em segurar as pontas do filho por um ano. As coisas iam nessa toada, quando os colegas de turma do Cinema chegaram com a novidade: estavam fazendo testes para um espetáculo no teatro, o Hair. “Todo mundo foi, eu também entrei na onda”. Resultado: alguns amigos passaram, Nuno ficou na reserva. Deu de ombros. Já em 1970, após voltar do Carnaval no Rio de Janeiro, recebeu o recado de um amigo: o diretor Ademar Guerra queria falar com ele. “Cheguei no Teatro Belavista (atual Sérgio Cardoso), o Ademar: ‘quer entrar?’. ‘Quero, mas não tenho experiência, nunca fiz teatro’. ‘Olha ele, segue o que ele fizer, amanhã você entra’”. ‘Ele’, no caso, era Carlos Alberto Riccelli. “É gente finíssima, me acolheu. Devo a ele também minha entrada na tevê”. Para o Rio A temporada paulistana foi até junho. O produtor Altair Lima convidou Nuno para seguir com o espetáculo no Rio. “Não posso, foi um custo entrar na faculdade. O que eu posso fazer é passar as férias de julho lá, depois vocês me substituem”. No meio do mês, a bomba: Antônio Fagundes, que tinha um dos papéis principais, estava deixando o espetáculo. “Estamos precisando de outro para o papel, o Ademar (Guerra, diretor) sugeriu você”. Impasse. Como figurante, Nuno já ganhava mais do que no banco – para alívio de seo Maia. Mas e a faculdade? A solução: um amigo segurou as pontas com a lista de chamada. “Só assistia aula segunda e terça, porque as sessões eram de quarta a domingo. Saía à noite, de ônibus, chegava aqui cedo, tomava café e ia morto pra aula”. O que fazer “Comecei a descobrir que o teatro é fantástico, essa coisa de se comunicar diretamente com o público”. Mesmo assim, Nuno ainda não sabia bem o que queria. À moda de Zeca Pagodinho, foi deixando a vida levar. E a vida o levou para a TV. Certo dia, estava, como diz, “de saco cheio”, desceu do ônibus e foi espairecer no vão do Masp. Queria ficar só. Mas do outro lado, avistou o Carlos Alberto Riccelli. “Não queria ver ninguém, fui sair de fininho, mas ele me flagrou”, sorri. “Pô, queria falar com você! Vai lá na Tupi, estão procurando para uma série”. Nuno foi. A série era Dom Camilo e os Cabeludos. Nuno ganhou o papel do playboy Miguel, filho de Giuseppe Peppone, vivido por Elias Gleizer, que se opunha a Dom Camilo (Otelo Zeloni), e namorado de Cat Pé de Bode (Terezinha Sodré). Não parou mais. Da estreia no cinema, em Elas, de José Roberto Noronha, aos palcos, em A Massagem, primeiro texto de Mauro Rasi, com Stênio Garcia, até outra peça, Greta Garbo, com Raul Cortez, dirigida por Antônio Abujamra, a vida estava encaminhando Nuno por uma estrada sem volta. Que depois o levou para as pornochanchadas. Uma das mais famosas foi O Bem Dotado, O Homem de Itu (1979). “Eram chanchadas, de pornô não tinham nada”, recorda. “Eram filmes descartáveis, produções baratas, a cada duas ou três semanas tinha um, porque havia muitos cinemas no Centro de São Paulo e os trabalhadores gostavam de assistir na hora do almoço”. As produções a toque de caixa foram lhe concedendo uma bagagem invejável. “Eu não sabia nada. Comecei a fazer uma atrás da outra para aprender”. A aplicação valeu a pena: as pornochanchadas o levariam a filmes como A Dama do Lotação (1978), de Neville de Almeida. “No cinema, você tem que saber se posicionar para a câmera. No teatro, é um plano geral, pra você ser compreendido pela plateia lá no fundo, precisa fazer grandes gestos. Quanto mais dramático, amplo, você alcança mais as pessoas”. Na tevê, o trabalho se parece um pouco com o do teatro. “Você está no estúdio, há três, quatro câmeras pegando a mesma cena de ângulos diferentes”. A Globo Após o Mexa-se, mencionado no início deste texto, Nuno emendou o comercial de um lava-louça, o Bril – antes do Bombril e de Carlos Moreno. “Foi um baita sucesso. Então o (Walter) Avancini me convidou para fazer Estúpido Cupido”. Era 1976. Começava uma trajetória que se prolongaria pelas próximas três décadas e que lhe renderia um lugar cativo na memória afetiva do Brasil. Afinal, quem não lembra do Bertazzo, de Vereda Tropical (1984)? Ou o Fábio Coutinho, de A Gata Comeu (1985)? O Gaspar Kundera, de Top Model (1989)? O Padre Garotão, de Vamp (1992)? Hoje em dia, é possível vê-lo nas tardes da TV Tribuna como o Assunção, em História de Amor (1995). Mas o bicheiro Tony Carrado, de Mandala (1987) marcou época e criou estilo. “Eu e o (Carlos Augusto) Strazzer entrávamos na casa e na cena começava a estourar lustre, quebrava tudo. O diretor: ‘falem o que quiserem, não vai ter áudio’”, recorda. “Falei um monte de besteira. Quando fui assistir, estava tudo lá”. Assim nasceram as ‘besteiras’ que caracterizariam o personagem. “Foram sendo incorporadas no texto coisas do tipo ‘depois da tempestade vem a ambulância’, ‘quem com ferro fere, com ferro sara a ferida’. A gente ria no ensaio pra poder fazer depois”. A expressão hoje consagrada ‘melzinho na chupeta’ nasceu da boca de Tony Carrado. Futebol Torcedor convicto do Santos, talvez Luca (personagem de Mário Gomes, jogador de futebol, em Vereda Tropical) daria jeito na equipe. “O nível dele era melhor do que o do time hoje”, risos. Para Nuno, falta trabalho de ator no elenco. “Psicológico, professoral, pra chacoalhar os caras”. Ele sabe do que diz: na tevê, organizou um time de famosos que excursionava pelo Brasil. “Um período, aproveitamos o Carlos Alberto Torres, que era marido da Teresinha Sodré”. sorri. O futebol se aproximou, que Nuno deu trato na bola: foi técnico do São Cristóvão, depois Botafogo-PB, Londrina e Matsubara. “Aí eu disse chega, o presidente vendia os resultados”, risos. Todo mundo deveria fazer Mas o seu gramado eram os palcos e as telas. Só os deixaria para cuidar da mãe, em Santos, quando foi constatado o Alzheimer. Apesar dos dois irmãos – o do meio é nove anos mais novo – afastou-se do seu jogo para ficar perto dela. “Fiquei muito feliz por poder participar de seus últimos anos aqui na Terra”. Ela morreu em 2016, aos 92 anos. Nuno não teve filhos – “elas (as mulheres) não quiseram”, ri. Aos 77 anos, tem em Mônica Camillo, de 49, o amor pleno, “o relacionamento mais forte, vai longe”. Está fora da tevê e dos palcos, mas não da telona. Esta entrevista foi adiada dois meses, porque Nuno estava filmando em Santa Catarina. Mas é no teatro que está a profundidade do ator e do próprio ser. “O teatro ajudou a me conhecer: quem eu sou, onde estou. Todo mundo devia fazer para se conhecer”. Nada mal para quem se deixou levar pela vida, sem saber o rumo. “Você tem que ficar atento. O que você é, desde pequeno já está brotando em você. Eu, por exemplo: por que não saía do cinema?”.