Bruno tem dois filhos e duas netas. Roberto Carlos é seu padrinho de casamento (Arquivo Pessoal e Reprodução) Uma tarde, em meados de 1964, Bruno Pasqual estava tomando um café na Avenida São João, na Capital, quando reparou em um rapaz do outro lado da rua na luta para fazer um fusquinha pegar. Músico por paixão, mecânico por profissão, Bruno resolveu ajudar o rapaz, tão jovem quanto ele próprio. Aproximou-se, percebeu que ele estava afogando o motor. Deu as diretrizes, ensinou, o carro pegou. O rapaz agradeceu, disse que estava indo a Sorocaba fazer um show. Preocupado com o carro, perguntou se Bruno podia ir junto. Ele foi. O rapaz cantou, acompanhado apenas por um violão. Ao final, perguntou o que Bruno tinha achado. “Eu gostei, mas disse que ele poderia adotar o que estavam fazendo nos Estados Unidos: uma banda com guitarra, baixo e bateria”. O rapaz, então, perguntou: “e onde eu vou arrumar um baixista?”. Bruno rebateu: “Está falando com um”. O rapaz do fusca era Roberto Carlos e o resto é história. Bruno no baixo, Dedé na bateria e o próprio Roberto na guitarra, formaram o RC3, a primeira banda do Rei, ainda antes do programa Jovem Guarda, na TV Record. “Eu tinha reconhecido ele, já tinha visto no programa do Antônio Aguillar (Ritmos da Juventude, na antiga TV Excelsior)”, confessa Bruno, que atualmente, aos 81 anos, tem uma casa em Praia Grande, onde viveu por vários anos. Saída pela esquerda Bruno nasceu e cresceu no Bairro Ipiranga, na Capital. A música estava no ar, nos chamados regionais, com músicos mais velhos que se apresentavam em clubes e até nas ruas. Mas o rock já conquistava as mentes e corações dos jovens. Nesse embalo, Bruno começou a treinar baixo. Com os amigos, formou a banda Os Corsários, depois Danger. “A gente fazia muito baile aos domingos, nas matinês dos clubes”. Mas foi com Roberto Carlos que viveu situações inusitadas. Em Ribeirão Preto, voltando de carro para o hotel após o show, foram xingados por uma penca de rapazes em outro carro. “O secretário do Roberto, que estava dirigindo, quis tirar satisfação. Foi atrás, fechamos eles”. Só que não perceberam onde estavam: na porta da faculdade em que os rapazes estudavam. “Os caras fizeram fila pra bater na gente”, recorda. “E o secretário? Se trancou no carro com o vidro fechado!”, ri. Já no programa Jovem Guarda o ritmo era de aventura. Todo domingo, o RC3 encerrava o programa, entre aplausos e gritos histéricos da plateia de adolescentes. Então começava a saga: como sair do Teatro Record. A fuga se dava por um buraco feito na parede, aberto direto em um bar, com saída em frente ao Cemitério da Consolação. “Não tinha ninguém encarnado para perturbar”, brinca. A doença O RC3 virou RC7 (com adesão de outra guitarra, teclado e metais), os shows cresceram, vieram mais viagens; Bruno, de repente, se viu no cinema, no filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de 1967. Veio a antológica temporada de shows no Canecão, em 1970, que marcou a reviravolta na carreira e no status do Rei, de cantor de jovens a intérprete maduro. Tudo ia bem para Bruno, até ter o destino transformado por uma otosclerose, a perda de audição a partir da formação anormal de osso esponjoso no vestíbulo da orelha. Ficou dois anos afastado da música. Quando se recuperou, encontrou um outro Roberto em seu caminho: o Leal. “Foi fabuloso. Ele entrou na minha vida e na minha história”. Bruno estava no álbum Carimbó Português, de 1977, com muitos sucessos, como Bate o Pé. Quatro anos depois, a ostoclerose retornou, mas no outro ouvido. Afastou Bruno da música de novo, mas não o músico de si. “Continuo compondo até hoje. De vez em quando, me reúno com meu irmão e amigos e tocamos”. -bruno pasqual-ok (1.488531) Também continuou trabalhando com e pela música: junto com a esposa, fundou a Brumar Show, empresa de promoção de espetáculos. Começou vendendo shows do próprio Roberto Leal, de Roberto Carlos, The Platters, Ray Conniff e até do Tim Maia. “O pessoal gostava de contratar o Tim comigo, porque diziam que, comigo, ele ia cantar. Mas eles não sabiam o que eu fazia pra botar ele no palco”, dá uma gargalhada. Bruno tem dois filhos e duas netas. Roberto Carlos é seu padrinho de casamento. No ano passado, levou a família para conhecer o Rei no camarim, após um show. Sobre o amigo, diz ser um sujeito brincalhão. “Ele é um cara bem alegre, está sempre brincando. Mas eu tô reservando pra contar mais histórias no meu livro”, sorri.