"Tenho um filho de 22 que vivenciou pouco isso, de jogar bola na rua. A molecada não sabe o que é isso, não há mais espaço. As cidades deixaram de funcionar para as pessoas” (Vanessa Rodrigues/AT) Maio de 1984. Quando retornava de São Caetano, onde estudava música na Fundação das Artes, Marcos Canduta não conseguiu frear a tempo e destroçou o seu Passat 1981 embaixo de um caminhão na Via Anchieta. Canduta e o amigo José Simonian, que o acompanhava também nos estudos, saíram ilesos. Estrago consumado, sem seguro, o que fazer? Estóico, Canduta respirou fundo e mandou consertar o carro. Mas em vez de retornar com ele às curvas da estrada de Santos, vendeu-o. “Fiquei um ano a pé”, sorri. “Mas valeu, pois comprei um violão”. Aos 23 anos, e já respirando música até pelos poros, a troca fazia todo sentido. Até porque não era um violão qualquer, mas um exemplar assinado pelo violonista e luthier Sergio Rebello Abreu. Mas para chegar ao violão de grife, lá se foram algumas etapas, das quais Canduta mal se deu conta enquanto se desenrolavam diante de si: pois em vez de escolher a música, acabou sendo escolhido por ela. Se a vida é feita de escolhas, elas partem de algum lugar. Neste caso, do Macuco, na então Rua Viúva Soares, atual Bezerra de Menezes. Mais velho, com outro irmão e uma irmã, Canduta cresceu “na rua, jogando bola e botão”. “Era a rua mais larga das casas populares, na bacia. Nas outras, mal entrava carro, na nossa passava o ônibus 61, que fazia BNH-Morros”, recorda. A mãe era dona de casa. O pai, alagoano, era motorista, primeiro de ambulância, depois de caminhão – “trabalhava no Moinho Santista, às vezes eu ia com ele no caminhão: sei que o trigo caía ali e ele levava para algum lugar, mas eu era muito pequeno pra lembrar”. Por fim, o pai foi dirigir táxi. A vida atrás do volante era dura, às vezes até para a família. “Lembro de momentos em que havia só arroz, feijão e ovo, ou uma lata de sardinha”, conta. “Mas não se passava fome, tínhamos onde morar e nenhum filho ficou sem estudar.” Bendito estudo: teria um papel importante na música de Canduta. “Quero tocar isso aí” Quando eram bem pequenos, Canduta e o irmão ganharam da avó um cavaquinho. “Mas a gente brincava de ‘el cabongue’”, sorri. A quem não sabe (ou esqueceu): el cabongue era um personagem de desenho animado cuja proeza era arrebentar um violão na cabeça dos malfeitores. A música entrava em casa pelo acordeon da mãe, de vez em quando, e desde sempre pelo rádio. “Ficava ligado o dia inteiro”. Foi pelas ondas do rádio que lhe chegou a maré do rock. Um dos artistas preferidos: Alice Cooper. Quando o cantor se apresentou no Anhembi, em São Paulo, e no Canecão, no Rio, em 1974, foi a glória. Teve até gente da rua que foi assistir. E Canduta? “Eu era menor e duro”. O violão foi se achegando. Primeiro, o irmão, um ano mais novo, ganhou um violão do pai e começou a ter aulas no Teatro Municipal, com o mítico maestro Antônio Manzione. Já Canduta, chegou a cogitar tocar bateria. “Mas é muito caro. E o pai e a mãe precisam ser malucos para dar uma bateria ao filho”. Mas não para dar outro violão ao irmão menor, um violão bonito, com tampo de madeira vermelha, ao mesmo tempo que na rua a molecada começava a se interessar por música. Era inevitável: “chegou um dia que eu disse: ‘quero tocar isso aí’”. Após estudar na UME Auxiliadora da Instrução, na Praça Rubens Ferreira Martins, Canduta foi para o curso técnico de edificações na futura Etec Aristóteles Ferreira, na Avenida Epitácio Pessoa, nos fundos da Escolástica Rosa. A melhor coisa do curso foi conhecer o colega Francisco Jorge de Oliveira, que já tocava guitarra, uma ‘supercelison’, cunhada por um luthier santista chamado Célio. “Começamos a levar violão pra escola. No intervalo, a gente saía para tocar na praia e às vezes nem voltava”, sorri. Nessa época, os dois frequentavam uma turma que se reunia na esquina da Avenida Rodrigues Alves com Rua Pérsio de Queiroz para tocar. “Fizemos ali o nosso clube da esquina”, sorri. Certa vez, um dos integrantes chegou esbaforido: tinha visto no Gonzaga a revistinha com a cifra de Stairway to Heaven, clássico do Led Zeppelin que todo aficcionado por violão queria aprender. “Foi um tal de puxar moedinha do bolso... e correu todo mundo pra comprar a revista e xerocar”. Por essa época, também ganhou os primeiros trocados com música. “Tocamos um mês em uma quermesse na Vila Edna, em Guarujá”. O tempo passa rápido, Canduta se formou no curso técnico. Era hora de deixar o violão um pouco de lado e entregar currículo. “Rodei Cubatão inteira. Passou um mês, dois, três, quatro... nada de trabalho”. A solução acabou sendo caseira: como ele tinha acabado de tirar a carta de motorista, o avô materno o convidou para ajudar nos carretos que fazia em sua Kombi. Meses depois, cansado, o avô deixou a Kombi para o neto e foi curtir a aposentadoria. “As pessoas que tinham quitanda, vendinha, iam de madrugada ao Mercado Municipal comprar mercadoria, eu pegava e levava”. Nesse tempo, começou também a tocar em um bar que formou metade dos músicos santistas de sua geração: o Carranca, na Avenida Epitácio Pessoa. Tocava nas noites de terça, quarta, quinta, sexta. De manhã cedo, já estava no Mercado. Sexta era pior: a noitada musical se estendia, ia direto do bar para o carreto. “Dormi no volante duas vezes. Chegou uma hora que disse: ‘não quero mais isso, quero tocar”. A família tomou um susto, mas assimilou. O irmão, então com 17 anos, herdou a Kombi. “Ele passou um ano fazendo carreto sem carta de motorista”. Por inteiro A música o dominou de vez. Com Zélus Machado, Rosy Padron e Celia Fernanda, montou o grupo Peito Rasgado. Participou de muitos dos tantos festivais de música autoral que havia pela região no início da década de 1980. Já com Simonian e Alfredo Gonzalez montou um trio para tocar na noite. Os amigos músicos foram lhe apresentando Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Novos Baianos, Elis Regina. O rock foi aos poucos cedendo espaço à MPB. “Até que me caíram nas mãos dois discos: Milton Nascimento - O Milagre dos Peixes Ao Vivo e Meus Caros Amigos, do Chico Buarque. Piraram minha cabeça, foi a ruptura. ‘Eu quero fazer isso!’”. Com esse novo mundo à vista, sentiu a necessidade de estudar. “Quando comecei a tocar Chico, Milton na noite, falei: ‘opa! já não dá pra ir mais só na orelhada’. Pega uma música como Wave (Tom Jobim): muda de tom a cada dois ou três compassos”. Quando bateu o carro já estava a pleno vapor em teoria, harmonia, regência, contraponto. Queria mais: foi estudar violão erudito. “Como todo autodidata, cheguei com a mão torta. Para estudar, eu desentortava tudo; para tocar à noite, entortava de novo”, risos. Mas qual a necessidade de estudar violão erudito, quando o que se deseja, e faz, é abraçar a MPB? “Eu queria um som mais limpo, mais alto, a projeção sonora é diferente. Você aprende a tirar o som do instrumento”, explica. A exigência técnica para tocar erudito também é muito maior. “Você vai aprender: essa música é triste? Essa música é alegre? É assustadora? O que essa música está dizendo? Qual o sentimento que eu tenho que colocar na ponta do meu dedo? Quando você cai no erudito, entra nesse tipo de conjectura. No popular, tudo isso será expressado pela letra”. Pelo desejo de improvisar, incorporou o jazz à MPB. Mais estudos. E sobretudo audição. “Se eu estou envolvido em algo, escuto o dia inteiro”. Talento? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Canduta acredita que teve algumas facilidades, como um bom ouvido. Mas o que é muito fácil, às vezes atrapalha. “Como tinha vontade de tocar, ter facilidade muitas vezes me fez estudar menos do que deveria. Poderia tocar melhor”. Modéstia: Canduta é um dos melhores violonistas da Baixada Santista. Está tudo em seu trabalho. São quatro álbuns, três com o Choro de Bolso, duo com a flautista Débora Gozzoli, que completou 25 anos ano passado – dois desses álbuns com participação do amigo e parceiro Julinho Bittencourt. Tem ainda Canções de Amor Caiçara, em parceria com o escritor Manoel Herzog. Desse álbum participam Zeca Baleiro, Chico Buarque, Viviane Davóglio, João Maria, Filhos da Tradição e Carlos Careqa. “Se tem algo de que tenho orgulho e alegria, é que nunca toquei o que não gosto só pra ganhar dinheiro”. Agora, o projeto em andamento é um songbook. Ele torce o nariz: “Não gosto dessa palavra. Pra quê transformar tudo em inglês?”. Canduta prefere livro de canções. Assim será: com 31, das centenas que compôs ao longo de quase 50 anos de música. Nada é obra do acaso A música, sendo tudo: mesmo assim, ainda há muito mais. Marcelo, por exemplo: hoje com 22 anos, estuda Educação Física em São Paulo. ‘Educado’ no futebol pelo pai, é santista roxo. Com o pai, também aprendeu violão. “Eu costumava acordar oito horas, fazer o café, ler o jornal... de repente, chegou aquele ser que acordava todo dia às seis horas... até hoje, eu acordo às seis da manhã. E ele, agora, só levanta meio-dia”. Ao amor, sempre cabe a razão: mas se a música é seu ganha-pão, e por ela estudou tanto, também não pode ser só isso. É o que aprendeu após frequentar o Espiritismo por muitos anos. Deus não é vingativo, invejoso, chantagista. Deus é, apenas. “Tanta coisa funciona tão certinho pra ser obra do acaso”. No palco, aprendeu que o violão, e a música, não é só construída na busca paciente do dedilhado preciso. Canduta lembra de muitas apresentações com o coração em paz, em dias alegres, mas errando notas e acordes. Mesmo assim, ao final, as pessoas o cumprimentavam. “Nossa, que som demais! Vou sair daqui de alma lavada!”. Em outras ocasiões menos alegres, alheio, triste, tocava de forma impecável, mas ninguém se aproximava. “Música não é a técnica que se tem, não é o instrumento que se tem: música é o que você está sentindo. É isso que chega nas pessoas: o teu sentimento”.