Alejandra foi condenada a mais de 13 anos de prisão (Reprodução) Uma história que parece saída de um roteiro de ficção, mas aconteceu de verdade no México, é o tema do documentário "Meu Próprio Filho", que chega à Netflix nesta quinta-feira (13). A produção acompanha o caso de Eleonor Alejandra Marín Mendoza, uma mulher que passou meses sustentando uma falsa gravidez diante do marido, familiares e amigos. Ao fim da encenação, ela deixou um hospital com um recém-nascido escondido dentro de uma sacola de presente, episódio que acabou se transformando em um dos casos mais comentados do país nos anos 2000. Dirigido pela cineasta indicada ao Oscar Maite Alberdi, o documentário busca reconstruir os acontecimentos que levaram Alejandra a criar uma gestação fictícia e os desdobramentos que culminaram em sua condenação. Construção da mentira Antes dos acontecimentos que ganharam repercussão nacional, Alejandra havia sofrido três abortos espontâneos. Segundo o médico citado na história, ela também enfrentava pressão do marido, Arturo Calderón Gamiño, e da família dele para ter um filho. Após a terceira perda gestacional, ela decidiu esconder o ocorrido e passou a alimentar uma narrativa que se tornaria cada vez mais complexa. Para convencer as pessoas ao seu redor, Alejandra adotou hábitos que ajudavam a reforçar a aparência de uma gravidez. Ela ganhou peso, frequentou aulas de ioga para gestantes, simulou exames de ultrassom e até organizou um chá de bebê. Em 2008, seu peso aumentou de 54 kg para 89 kg. Na época, ela trabalhava no Hospital Geral do México, no setor de obstetrícia e ginecologia, onde também alterou registros médicos relacionados à suposta gestação. A encenação foi tão detalhada que ela chegou a informar familiares e amigos que o nascimento aconteceria em 17 de junho de 2009. O que chamou a atenção da diretora Para Maite Alberdi, a história vai além de uma tentativa de enganar familiares e conhecidos. Segundo ela, os registros da época indicam que Alejandra parecia acreditar na própria narrativa. "Se você assistir às imagens de arquivo, verá que não se trata de uma mulher gorda, mas sim de uma mulher grávida", explicou ela ao The Guardian. "Então, é como se ela tivesse tido uma gravidez psicológica. Ela queria acreditar, e em algum momento, ela estava vivendo essa mentira." É justamente essa dimensão psicológica que se tornou um dos principais focos do documentário. Em vez de construir um suspense sobre quem cometeu o crime, a produção procura compreender como uma mentira sustentada durante tantos meses se tornou tão real para a própria protagonista. Filme conta o caso real de Eleonor Alejandra Marín Mendoza, que passou meses sustentando uma falsa gravidez (Netflix/Divulgação) O encontro que mudou o rumo da história Durante esse período, Alejandra afirmou ter conhecido uma mulher grávida chamada Mayra Navarro. Segundo seu relato, as duas se encontraram durante uma consulta médica e Mayra teria manifestado o desejo de não ficar com o bebê. Ao jornal local El Siglo de Torreon, Alejandra declarou: "Conversamos durante uma consulta. Ela disse que era mãe solteira, que era seu segundo filho, de um pai diferente, e que queria interromper a gravidez." Mayra, porém, negou essa versão e afirmou que só conheceu Alejandra cinco meses depois do nascimento da filha. De acordo com as investigações, Alejandra se apresentou como assistente social dentro do hospital e teve acesso à maternidade onde Mayra estava internada. No dia 17 de junho de 2009, as câmeras de segurança registraram sua entrada no Hospital Geral do México às 11h51. Poucas horas depois, às 14h30, nasceu Katia Valentina, filha de Mayra. Às 18h38, as imagens mostraram Alejandra deixando o hospital com a recém-nascida escondida dentro de uma sacola de presente. Do lado de fora, Arturo aguardava sua saída. Mayra relembrou o que aconteceu em entrevista ao jornal local El Universal: “[Alejandra] estava indo de quarto em quarto fazendo uma pesquisa, mas sempre voltava para o meu quarto. Uma vez, quando fui ao banheiro pegar algumas amostras, voltei, mas a moça tinha ido embora.” Segundo a investigação, Arturo só teria descoberto que a gravidez era falsa quando recebeu o bebê das mãos da esposa. Câmeras de segurança registraram quando, na época, a mulher saiu do hospital com a criança em uma sacola (Reprodução/YouTube) Prisão, condenação e o desfecho do caso Após o desaparecimento da recém-nascida, a polícia iniciou buscas e rastreou ligações feitas para a casa dos pais do casal. Uma dessas pistas levou os investigadores até o Hotel Hollywood, localizado no bairro Agrícola Oriental. Alejandra e Arturo foram encontrados enquanto dormiam e acabaram presos poucas horas após deixarem o hospital. Katia Valentina ainda usava a pulseira de identificação da maternidade quando foi localizada. A bebê foi devolvida à mãe. Em 20 de junho de 2009, o casal foi acusado de privação ilegal da liberdade de um menor. Posteriormente, Alejandra foi condenada a mais de 13 anos de prisão. Já Arturo permaneceu preso por dois anos, mas acabou absolvido em 2011 da acusação de participação no crime cometido pela esposa. Em 2023, Eleanor Mendoza deixou a prisão. Agora, anos depois do caso que chocou o México, a história ganha uma nova versão nas telas com o documentário "Meu Próprio Filho", já disponível na Netflix. Veja o trailer: -trailer youtube (1.525430)