Obra de Marcio tem 60 textos com lembranças da sua trajetória (Divulgação) Guimarães Rosa. Moacyr Scliar. Pedro Nava. António Lobo Antunes. É vasta a lista de médicos escritores – ou será de escritores médicos? Mas de onde vem essa estreita relação entre Literatura e Medicina? “Talvez seja pela intensidade dos estudos, da realização de relatórios, dentro de uma forte vivência de conflitos humanos, como a iminência da morte”, analisa Marcio Aurélio Soares – ele mesmo mais um representante dessa longa estirpe. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sanitarista e endocrinologista, Marcio acaba de publicar Minha Biblioteca Sou Eu (Editora Patuá, R\$ 60,00, no site), com 60 crônicas, muitas delas publicadas em A Tribuna. “Durante a minha vida, é a terceira biblioteca que eu monto. Sabe como é: os casamentos vão se desfazendo, os livros e discos vão junto...”, sorri. Os casamentos foram três. O último durou 12 anos. Até uma bateria – “enorme”, segundo diz – acabou dispersa. Os livros foram doados à biblioteca comunitária ligada à Paróquia São João Batista, no Morro Nova Cintra. “Depois recomprei os livros que fazem parte da minha vida, que eu já tinha lido”. Quais são alguns desses livros? O afeto da adolescência, Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva – “marcou meu início de vida de leitor” –; Dom Casmurro e o eterno mistério de Capitu, de Machado de Assis; A Cidadela, de A.J. Cronin, que traça um panorama das condições de trabalho dos médicos no início do século 20; e as peripécias da família Buendía, em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez são alguns dos exemplos. Mas a biblioteca que é ele mesmo, estampada nas suas crônicas, vai além dos livros, ganha outra dimensão – uma que só cabe dentro do peito. “É o meu mundo, das vivências, das contações de histórias dos outros... sou reflexo do que é a minha biblioteca”. Médico desde sempre Como Marcio diz, sua “vida está estável”. Aposentado, tem hoje todo o tempo do mundo para a Literatura. Já tem na gaveta um livro de contos, que deve vir à luz ano que vem; também está por terminar um romance. Já é autor de outros livros de crônica e um de divulgação científica. Porém, o escritor nunca se sobrepôs ao doutor. “Sempre quis ser médico. Minha mãe guardou uma redação minha, com nove anos, em que eu dizia isso”. Mas também quis ser jornalista. “Jornalista de saúde”, enfatiza. Chegou a cogitar o retorno aos bancos escolares, mas a correria do dia a dia... “Meus filhos eram pequenos, tinha que trabalhar muito, muito plantão”. O jornalismo ficou de lado. Mas a Literatura, jamais: paixão que nasceu na infância. “Meu pai, apesar de não ser intelectual, era sargento do Exército, depois tenente, especialmente aos domingos, dava um texto pra mim e para o meu irmão ler e contar pra ele. Só depois podíamos ir brincar”. Eram tempos felizes, em meio à Enciclopédia Barsa, às coleções Tesouros da Juventude, de Monteiro Lobato e do Reader’s Digest. “Tudo o que a gente escreve é mentira e é verdade. O escritor tem a liberdade de escrever sem compromisso com a verdade – ou com a mentira. Nem tudo na ficção é inventado: tem uma parte do autor ali. Na crônica, você comenta o dia a dia, que permeia as suas experiências”.