Os livros contêm um ensaio fotográfico com cães e gatos, para harmonizar com o sentimento dos textos (Rosane Lima/ Divulgação) Muito antes dos pets de hoje em dia, havia os animais de estimação. Antes de ambos, existia a Literatura. Seja o nome que se dê, grandes escritores sempre dedicaram páginas, e até livros, aos cães e gatos de seu afeto. Essa relação antiga chega agora às prateleiras em duas antologias, Histórias Brasileiras de Cães (165 páginas) e Histórias Brasileiras de Gatos (125 páginas), ambas pela Editora Maralto (R\$ 59,90, cada, à venda no site). Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! As duas obras reúnem um time de primeira da Literatura nacional. Há contos, crônicas ou passagens de livros mencionando os animais de Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Domingos Pellegrini, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Raul Pompeia, Ricardo Ramos, Ricardo Ramos Filho, Graciliano Ramos, Rubem Braga, Zélia Gattai, Cora Rónai, Otto Lara Resende, Ferreira Gullar, entre outros. A organização das antologias foi feita por Rogério Ramos, neto do escritor Graciliano Ramos (que está no volume dos cães com uma passagem sobre a cadela Baleia, do romance Vidas Secas). (Rosane Lima/ Divulgação) Rogério sempre sonhou em criar diversas coletâneas dedicadas exclusivamente aos animais. Começou reunindo textos sobre cães, depois voltou sua atenção aos gatos, mas seus planos iam muito além, imaginava coletâneas sobre cavalos, pássaros e tantos outros seres que povoavam seu afeto. Perda Durante a realização das obras, Rogério ficou doente e morreu antes de concluir o processo, no final de 2024. Seu irmão, Ricardo, assumiu os últimos detalhes. “Meu irmão foi uma vocação perdida”, recorda Ricardo, “estudou Letras, foi editor, mas deveria ter sido veterinário. Adorava bichos. Desde os dinossauros, sabia tudo sobre eles. Em casa, quando éramos pequenos, trazia passarinhos (várias gaiolas), montou um grande aquário, cachorro, porquinho-da-índia, gato, papagaio, periquito, tartaruga. Talvez desejasse fazer de nossa residência um zoológico. Meus pais, desconfiados, permitiam”. As obras contam com um ensaio fotográfico em preto e branco de Rosane Lima. A fotógrafa buscou retratar a essência dos animais por meio de registros espontâneos e sensíveis. “Estudei os textos e só depois busquei imagens e animais que pudessem dialogar com eles”, explica. “Tenho amigos tutores de gatos e cães, e tratei de visitá-los. Os encontros foram longos, marcados por muita conversa e observação. Era essencial identificar, nos animais visitados, o sentimento evocado em cada texto. Os bichos retratados já me eram familiares, assim como o vínculo que cada um tinha com seu tutor”. Rogério: apaixonado por bichos (Divulgação) Homenagem Com apenas dois anos de diferença entre eles, para Ricardo, seguir com o projeto foi uma forma de homenagear o irmão, cuja perda deixou um vazio em sua vida. “Ele era tão importante para mim, que, aos 71 anos de idade, tatuei no braço um verso de Drummond que representa minha dor: ‘A ausência é um estar em mim’”. Trechos “Mila é mais sóbria, mais sólida e sábia. Na noite em que meu pai morreu, vim em casa tomar banho, fazer a barba, trocar de roupa, preparar-me para o dia que me aguardava. Sempre que coloco a chave na fechadura, por menos ruído que faça, ela se coloca atrás da porta e espera. Pula em cima de mim, seu hálito aquece meu pescoço, seus olhos procuram os meus e ela me lê, sabe como estou, como foi meu dia e como está a vida. Naquela noite não pulou, nem olhou meus olhos. Cabeça baixa, rabo entre as pernas, ela sabia. Eu não avisara a ninguém, mas a ela nada precisava dizer. Encostou-se aos meus joelhos, cúmplice e solidária. E ela, que do mundo lá fora esperava um pai, do mundo lá fora recolheu um órfão”. Carlos Heitor Cony “Durante o dia, assim como os vampiros, Iracema ficava sumida, chegava com a noite. Eu então abria a fresta da janela e ela entrava silenciosa. Limpa. Nunca perguntei pelos seus negócios lá fora, eu a recebia simplesmente, Entra! (...) A bela gata aceitava em parte o convite: andava um pouco pela sala, roçando o focinho pesquisador nos móveis, fixava-se mais em algum objeto e depois de verificar que tudo ficava sem novidades, assim como na véspera, infiltrava-se por entre minhas pernas ruminando coisas na língua dos gatos, era um afago? Em seguida, ia se deitar não no meu peito, mas na almofada preferida, e ali ficava na sua posição de esfinge, as patas dianteiras recolhidas sob o peito, os olhos luminosos. Aquela simples presença me acalmava, ia tudo bem, é claro, meu namorado me amava e eu tinha boas notas nas provas”. Lygia Fagundes Teles