Um Dia, Um Rio é um livro infantojuvenil ilustrado por André Neves (Reprodução) Falar de um livro que é o meu preferido da literatura brasileira contemporânea é difícil, principalmente porque admiro o autor, Leo Cunha, como escritor e professor. Essa obra não é nova – ao contrário, vai completar 10 anos em 2026 ganhando uma reedição especial. Mas como eu ainda não tinha falado dela nesta coluna, vou aproveitar o momento para relembrar a todos que, neste ano, infelizmente, completa-se uma década do desastre ambiental de Mariana, em Minas Gerais, que matou 19 pessoas e o próprio Rio Doce. Um Dia, Um Rio, um livro infantojuvenil ilustrado por André Neves, é uma verdadeira obra-prima não só pela linguagem poética com que Leo Cunha conta a história, mas pela importância do tema. A vida desse rio, que vira um personagem, pode ser a história de qualquer outro, em qualquer lugar: é uma obra tocante e que precisa ser contada. A obra é um lamento, um grito de socorro tardio de um rio indefeso que não tem como reagir ao ser invadido pela lama da mineração, que destrói suas águas e as vidas que abriga. A fala doce e amargurada de quem perdeu sua vocação, e por isso lamenta sua sina como se cantasse uma triste modinha de viola, recorda o tempo em que alimentava de vida seu leito, suas margens e as regiões por onde passava. A sensibilidade desses dois grandes artistas da palavra e da imagem, numa edição bem cuidada da editora Pulo do Gato, fez nascer um clássico da literatura infantil brasileira. Para mim, ao lado da árvore generosa de Shel Silverstein, exemplos da ecoafetividade, uma nova corrente ambientalista, que nasce da possibilidade de falar sobre a preservação ambiental com as crianças, por intermédio da afetividade. Lançado em 2016, a obra venceu o Prêmio Jabuti em 2017. Recentemente, em 2023, ganhou uma versão adaptada para o teatro pelo Grupo 59, vencendo o prêmio APCA e, fique atento, a peça continua em cartaz até hoje. O livro é dividido em três momentos: o rio antes do desastre e a relação com as pessoas no entorno; o momento do rompimento da barragem; e o pós-desastre. Existem várias camadas de leitura, podendo ser apreciado por crianças e adultos. Um alerta: é muito provável você se emocionar e chorar ao ler – mas essa lágrima se faz necessária. Serviço: Um dia, Um Rio. Autor: Leo Cunha. Ilustrações: André Neves. Editora Pulo do Gato. 32 páginas. R\$ 58,00