Sede do Clube do Choro de Santos fica na Rua XV de Novembro, no Centro, onde há ensaios semanais (Reprodução/ Instagram) O choro ganha nova vida ao ecoar pelas ruas do Centro de Santos. Uma nova geração de jovens ajuda a revitalizar o gênero, que há mais de 150 anos faz parte da identidade musical brasileira. Com apresentações ao ar livre, esse movimento de renovação tem como marca principal a reconquista dos espaços públicos. Seja nos ensaios na Rua XV de Novembro, onde fica o Clube do Choro, e em eventos como a Esquerdantina, o choro resiste e une gerações. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “O choro é um espaço de convivência onde a música é o que une as pessoas”, diz a professora e vice-presidente do Clube do Choro de Santos, Cibele Palópoli. Segundo ela, embora a preservação da tradição ajude a manter certos aspectos vivos, também é essencial proporcionar mais abertura e inclusão para os jovens. Essa abertura pode ocorrer de forma familiar, de um modo que transcende as gerações, como é o caso do músico Vinicius Penha, de 19 anos, cujo amor pelo choro surgiu por meio de seu pai. “Sempre fui ligado ao violão por causa do meu pai. Ele toca samba e pagode, e esses estilos têm muita relação com o choro”, conta ele, que frequenta os ensaios do Clube do Choro desde 2024. Ensaios Os ensaios do Clube do Choro acontecem de segunda a sexta-feira, a partir das 18h, em frente à sede do grupo, na Rua XV. Gratuitos e abertos ao público, eles funcionam como uma porta de entrada à experimentação e ao aprendizado coletivo – mesmo para quem nunca teve contato com o gênero. “Me senti à vontade, até para errar. Não me senti pressionada ou com vergonha”, diz a estudante Luiza Gois, de 22 anos, que estava participando de seu primeiro ensaio. Ela, que também faz aulas de flauta transversal, conta que conheceu o Clube do Choro por indicação de seu professor. Miguel Pataro, 22 anos, analista de dados, frequenta os ensaios desde o ano passado. Pataro, que toca violão, conta que viu nos ensaios uma oportunidade para aprimorar o seu desenvolvimento artístico em um estilo que exige grande domínio técnico. “Quem toca choro toca tudo, mas nem todo mundo que toca tudo, toca choro”. O interesse da nova geração pelo choro vai além da questão familiar e a apreciação pelo estilo musical. Para esse público, ele é a porta de entrada para um ambiente onde os participantes se sentem acolhidos e parte de algo maior. “O que mais me faz gostar daqui é o acolhimento. Venho para a roda de choro só para prestigiar e ficar envolvido”, diz Pataro. O discurso é o mesmo até para quem está participando pela primeira vez, como é o caso de Luiza. “Achei um ambiente extremamente receptivo”, comenta ela, afirmando que pretende voltar mais vezes. Segundo a estudante, ao contrário da música pop, que já está difundida por vários meios, o choro ainda precisa de uma “ponte” para chegar até as pessoas. “Ele não chega até você”. Com eventos gratuitos e ao ar livre, Esquerdantina rompe rótulos (Reprodução/ Instagram) Esquerdantina Com o aspecto de uma balada ao ar livre, porém reunindo músicas de choro e samba de protesto, a Esquerdantina é sucesso entre o público jovem. Em sua última edição, no dia 28 de março, o evento registrou mais de 3 mil pessoas no bulevar da Rua XV de Novembro. Em uma época em que o pop, o trap e o funk dominam as playlists com seus ritmos acelerados, o choro vai na contramão dessa tendência. “Hoje, a música de massa não é essa”, aponta Douglas Martins, 64 anos, advogado e um dos fundadores do grupo. “A rapaziada de uns 20 anos, ou até menos, chega na Esquerdantina e toma um choque”. “Se as pessoas tivessem mais acesso, com certeza escutariam mais”, garante o músico Luiz Santana Neto, 22 anos. Sua porta de entrada para o choro foi o próprio pai, Luiz Santana Júnior, violonista de sete cordas e um dos fundadores do grupo. No entanto, para aqueles que não possuem contato com o gênero, ele pode ser considerado distante e ultrapassado. Com apresentações gratuitas e ao ar livre, a acessibilidade da Esquerdantina rompe rótulos e barreiras e vem conquistando a nova geração, especialmente em tempos de crise financeira. “É um espaço democrático porque você não precisa pagar para ouvir música e curtir”, diz a bacharel em Direito Julia Gothard, 24 anos, que esteve na última edição do evento. A banda ganhou a rua no fim da pandemia, quando foi convidada a se apresentar na sede do Clube do Choro de Santos, que fica na Rua XV. Quando não coube mais ninguém no espaço, as pessoas começaram a participar do lado de fora. *Reportagem feita como parte do Projeto Laboratório de Notícias, da UNISANTOS, sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.