(Reprodução) Vinha voando no meu carro quando vi pela frente... na verdade, já se vê pelo retrovisor da história. Mas a quem era adolescente na época, parece que foi ontem o dia 22 de agosto de 1965. Às 16 horas daquele domingo, Roberto Carlos apareceu na tevê brasileira pela primeira vez, ladeado por Erasmo Carlos e Wanderléa, no palco do Teatro Record. Estava oficialmente no ar o Jovem Guarda, que seria não só um novo programa adolescente, mas também uma revolução na música e nos costumes do País nos anos 60. E pensar que o Jovem Guarda só nasceu para tapar um buraco na programação: a transmissão ao vivo dos jogos de futebol foi proibida e a TV Record resolveu apostar no público jovem. Sessenta anos depois, a aposta está mais do que paga: o Brasil ganhou um ícone cultural, que deve reverberar muito além destas seis décadas. Para entender a febre, eis seis álbuns que resumem a essência do movimento: a sua música. (Reprodução) Roberto Carlos, Jovem Guarda 1965 (CBS, atual Sony Music) Lançado em novembro daquele ano, no título o álbum surfava no sucesso do programa. A canção que abre o disco, Quero que Vá Tudo pro Inferno, dele e de Erasmo, da noite para o dia estava em todas as rádios, cantada de norte a sul do Brasil, e catapultou Roberto Carlos ao estrelato definitivo. A canção causou polêmica com setores conservadores, que torceram o nariz para aquele jovem mandando tudo para o inferno por causa de um amor. O disco inauguraria uma tradição: a partir de 1966, Roberto lançaria apenas um disco, sempre no final do ano. Mais duas canções emblemáticas da época estão neste álbum: Lobo Mau, versão de Hamilton Di Giorgio para The Wanderer (Dion DiMucci), e Mexerico da Candinha. Outros destaques musicais são o acompanhamento das gravações, feito pelo grupo The Youngsters, e os inconfundíveis arranjos de órgão Hammond, de Lafayette. (Reprodução) Roberto Carlos em Ritmo de Aventura 1967 (CBS, atual Sony Music) Sétimo disco do cantor, homônimo ao filme lançado em 1968, mostrava uma evolução e refino na escolha de arranjos, com naipes de metal, piano, gaita e até cravo (tocado também por Lafayette). Já era o Rei flertando ainda que timidamente com os ritmos da black music norte-americana. O disco também foi o último lançado por Roberto no comando do Jovem Guarda: em janeiro do ano seguinte, ele se desligaria do programa. Como já era de praxe, o álbum foi um sucesso absoluto e tem clássicos que frequentam o repertório do Rei até hoje: Eu Sou Terrível, Como É Grande o Meu Amor por Você, Por Isso Corro Demais, Quando e De que Vale Tudo Isso. (Reprodução) Erasmo Carlos, A Pescaria 1965 (RGE, extinta em 2000) Álbum de estreia do Tremendão, traz dois clássicos do período, o hino Festa de Arromba, a música-descrição perfeita da Jovem Guarda, e Minha de Fama de Mau, ambas assinadas por ele e Roberto. O disco foi a sequência natural do compacto lançado por Erasmo em 1964, com Terror dos Namorados e Jacaré. O compacto fez história: certo dia, Lafayette estava no estúdio para gravar o piano nas canções quando descobriu num canto um velho órgão Hammond e começou a brincar com ele. Erasmo chegou, achou o som espetacular e o incluiu na gravação. A partir daí, virou marca estética dos discos jovens da época incluir o Hammond em seus arranjos. (Reprodução) Ronnie Von 1966 (Polydor) Ronnie Von não participou do programa apresentado por Roberto, Erasmo e Wanderléa, mas o grande sucesso que alcançou a partir de 1966 lhe rendeu o apelido de Príncipe da Jovem Guarda. Este primeiro álbum, lançado no fim do ano, tem arranjos belíssimos para versões em português de alguns sucessos dos Beatles. O disco começa com Meu Bem, versão de Girl, e acaba com Ronnie interpretando em inglês You’ve Got to Hide Your Love Away. O destaque, porém, fica para uma canção original chamada Pequeno Príncipe, composta por Fred Jorge e Tommy Standen, que nos anos 70 ficaria conhecido como Terry Winter. Ronnie Von de 1966 é um álbum que mistura lirismo, rebeldia e romantismo ingênuo, características marcantes dos anos da Jovem Guarda. (Reprodução) Isto é Renato e seus Blue Caps 1965 (CBS, atual Sony Music) Segundo álbum da banda carioca pela gravadora, lançado no fim de 1965, traduz com muita fidelidade a sonoridade da Jovem Guarda. O ritmo da guitarra de Renato Barros e a voz marcante de seu irmão, o baixista Paulo César Barros, colocam este disco em um lugar especial no coração dos que gostam das músicas dos anos 60. O álbum é recheado de excelentes versões de músicas internacionais e composições originais e conseguiu surfar com muita competência naquela atmosfera da beatlemania. Traz, por exemplo, a versão de All My Loving, aqui eternizada como Feche os Olhos. Na época do lançamento, a banda já estava estourada nacionalmente com Menina Linda. Isto é, Renato e seus Blue Caps abriu definitivamente os caminhos para a banda, que ainda faria outros discos de muito sucesso, como o álbum lançado em 1966 com o título Um Embalo com Renato e seus Blue Caps. É um disco dançante e alegre, retrato fiel da Jovem Guarda. (Reprodução) Leno e Lílian 1966 (CBS, atual Sony Music) Impulsionada pelo grande sucesso Pobre Menina, a dupla Leno e Lilian (Gileno Azevedo 1949/2022 e Lílian Knapp 1948/2025) gravou este excelente álbum em 1966. Com acompanhamento das bandas Renato e seus Blue Caps e The Fevers, o disco trouxe ainda outro hit: Devolva-me. Vozes bem encaixadas e uma certa aura de ingenuidade tornam este LP um dos mais legais do período da Jovem Guarda. Quem quiser entender um pouco do universo musical da Jovem Guarda precisa ouvir este disco.