Grosseiro, inconveniente e sem noção, Joselito está longe de ser um exemplo de sujeito centrado. Fora das câmeras, porém, o personagem de Hermes e Renato dá lugar a Adriano Silva, ator, humorista e músico de 46 anos que frequenta a academia, pedala pela orla de Santos e divide a rotina entre a Baixada Santista e os compromissos profissionais em São Paulo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Há cerca de dois anos e meio, a Cidade se tornou seu lar. A mudança foi motivada pelo relacionamento amoroso e pela proximidade com a Capital, mas também pelo desejo de “desacelerar” após cerca de 25 anos vivendo em São Paulo. “Depois de 25 anos morando na loucura de São Paulo, eu queria dar uma baixada no ritmo de vida, ter qualidade de vida também”, explicou para A Tribuna. Com a possibilidade de trabalhar remotamente e a necessidade de comparecer presencialmente à Capital com menos frequência, a mudança reuniu o útil ao agradável. Nascido no Rio de Janeiro, em 1979, Adriano mudou-se para Petrópolis aos 10 anos, onde conheceu os integrantes do grupo. Nos anos 2000, foi para São Paulo por causa do trabalho na MTV, emissora que consolidou a trajetória de Hermes e Renato e levou seus personagens a uma geração de telespectadores. Em Santos, encontrou o equilíbrio entre a vida pessoal e a carreira. A escolha pela Cidade também foi influenciada pelo relacionamento com a namorada, a radialista Ceci Zaros, de 41 anos, que nasceu e mora no município. Sobre a rotina, o humorista costuma organizar os compromissos pela manhã e treinar entre 11h e 13h. Depois, volta para casa, almoça e retoma o trabalho com roteiros e reuniões. Quando precisa ir à Capital, reorganiza a agenda, que também muda em função dos compromissos com o Massacration, banda de heavy metal da qual participa e fez turnês nacionais e internacionais nos últimos anos. “Já faz um bom tempo que resolvi priorizar muito a minha saúde, principalmente os cuidados mentais, que passam pela minha atividade física”. A adaptação à nova rotina no litoral de São Paulo foi tranquila para. Depois de vivenciar diferentes épocas do ano no município, do verão à baixa temporada, Adriano diz se identificar com o estilo de vida local. “É uma qualidade de vida muito parecida com o que eu sempre vivi. Natureza e praia, então acho que isso facilita bastante para mim estar aqui”. Entre seus lugares preferidos estão a orla e a praia, que despertam lembranças do Rio de Janeiro. A gastronomia também conquistou espaço, especialmente os frutos do mar. Entre os amigos que fez na região está o chef Dário Costa, ligado aos restaurantes Paru e Madê. A origem de Joselito Por trás do jeito inconveniente e das atitudes sem noção de Joselito, existe uma inspiração real. Segundo Adriano, o personagem nasceu de um conhecido do grupo: o cunhado de Fausto Fanti, que namorava a irmã do humorista e era mais velho que os amigos. A diferença de idade e de força física fazia com que, durante as brincadeiras, o homem exagerasse nos gestos e acabasse dando tapas mais fortes nos rapazes. Foi desse comportamento que surgiu a associação com a falta de noção. “Ele era meio desproporcional de força, assim, nas brincadeiras com a gente. A gente era moleque menor, ele era mais velho”, relembra Adriano, ao explicar que o grupo passou a brincar com a ideia de que o homem não tinha noção da própria força. A inspiração saiu do convívio para as gravações caseiras. Durante a produção de uma sátira de programa de auditório, ainda na época das fitas VHS, Fausto sugeriu que Adriano imitasse o conhecido. O humorista vestiu uma camisa xadrez semelhante à usada por ele e reproduziu seus trejeitos. A experiência deu certo e ajudou a criar um dos personagens mais lembrados do grupo. O figurino também atravessou o tempo: durante entrevista para A Tribuna, Adriano mostrou uma camisa de flanela xadrez vermelha e azul, com mais de 25 anos, marcada por furos, rasgos e sinais de uso, que foi utilizada repetidamente nas gravações. Personagem Joselito ficou marcado pelo figurino: uma camisa de flanela xadrez vermelha e azul como também o jeito sem noção e escrachado (Alexsander Ferraz/AT) Da brincadeira à televisão A história de Hermes e Renato começou nos anos 1990, em Petrópolis, quando amigos passaram a registrar situações absurdas em fitas VHS durante férias, viagens e encontros. Os vídeos circulavam entre parentes e conhecidos, sem a pretensão de se transformar em trabalho profissional. “Eram coisas que a gente filmava entre a gente, que serviam de brincadeira. Era diversão mesmo, parte da nossa brincadeira”, relembra. A virada aconteceu quando uma das fitas chegou à MTV, abrindo caminho para a profissionalização do projeto. Entre 2000 e 2010, Hermes e Renato marcou época na emissora com humor escrachado, personagens satíricos e esquetes que conquistavam o público. A formação reuniu Fausto Fanti, criador de Renato e um dos principais roteiristas, que morreu em 2014; Marco Antônio Alves, intérprete de Hermes; e Adriano, que ganhou notoriedade como Joselito. Felipe Torres ficou conhecido como Boça, enquanto Bruno Sutter deu vida a Detonator, à frente da banda cômica Massacration. Outro nome marcante foi Gil Brother, o Away de Petrópolis, que morreu em 2023 e participou de diversos quadros clássicos. Depois da primeira fase na MTV, o grupo teve uma breve passagem pela Record, no programa Legendários, apresentado por Marcos Mion. Na época, os humoristas adotaram o nome Banana Mecânica. Em 2014, retornaram à MTV, mas pouco depois emissora encerrou suas operações no Brasil naquele período. A mudança no cenário televisivo, somada à migração do público para a internet e as plataformas de streaming e à queda na audiência e no faturamento da TV por assinatura, exigiu novos caminhos. Nesse intervalo, o grupo também gravou pílulas para um projeto no canal FX, que previa uma nova produção com os humoristas. A partir de 2015, Hermes e Renato concentrou suas atividades no YouTube, onde mantém um canal com quase 700 mil inscritos. Antes disso, o grupo também percorreu o Brasil com uma peça teatral durante quatro anos. Atualmente, os integrantes seguem na estrada com os shows do Massacration. O grupo Hermes e Renato reunia Fausto Fanti (Renato), Marco Antônio Alves (Hermes), Adriano Silva (Joselito), Felipe Torres (Boça) e Bruno Sutter (Detonator). (Arquivo MTV) O humor muda, mas o escracho continua Ao longo de décadas, o grupo acompanhou as transformações na maneira de produzir e consumir humor. Para Adriano, as mudanças fazem parte de um processo natural, que atingiu diferentes gerações de humoristas e programas de televisão. Ele cita nomes como Chico Anysio e Jô Soares, além de produções como Casseta & Planeta e TV Pirata, como exemplos de artistas e programas que atravessaram diferentes períodos da cultura brasileira. “Eu acho que, no geral, as coisas mudaram. Muitas coisas mudaram, e isso é uma ordem natural da vida. As coisas evoluem, mudam opiniões, e o que pode ser falado no nosso caso, em questão do humor, também passa por essa transformação”, avalia. O ator encara as mudanças com naturalidade e acredita que o grupo encontrou maneiras de continuar trabalhando com o humor escrachado que o tornou conhecido. “A gente sempre soube fazer com o escracho e de um jeito divertido. Para a gente, é tranquilo. A gente consegue surfar a onda, seja ela grande ou pequena, porque sabe fazer”, afirma. A adaptação também passa pelos formatos. Atualmente, além do YouTube, o grupo investe em vídeos mais curtos para o Instagram e trabalha em novos projetos, entre eles um documentário em formato de falso documentário, mantendo a aposta em situações absurdas e personagens caricatos. A perda de Fausto Fanti Se as mudanças na televisão exigiram reinvenção, a morte de Fausto Fanti, em 2014, representou um dos momentos mais difíceis da história do grupo. Integrante e amigo de infância, ele estava envolvido em um novo projeto no canal FX, do grupo Fox. Um episódio-piloto já havia sido gravado quando os humoristas foram surpreendidos pela perda. Naquele momento, a continuidade profissional ficou em segundo plano. Antes de pensar no futuro do grupo, os integrantes precisaram lidar com a morte de alguém que fazia parte de suas vidas desde a infância, quando as gravações ainda aconteciam no quintal da casa de Fausto. “Perdemos o nosso capitão do barco, o cara onde a nossa história toda começou, no quintal da casa dele. A gente era criança, tinha 10 anos de idade, e era amigo de infância”, recorda Adriano. Depois de um período, os integrantes decidiram concluir a temporada do FX. Para isso, aproveitaram as imagens de Fausto registradas no piloto e as incorporaram à edição dos episódios, preservando a participação do amigo ao longo da produção. A decisão também representou uma maneira de manter viva a história construída desde a infância. Para Adriano, continuar significava reconhecer a importância daquela trajetória e de quem esteve presente desde o começo. “Uma semente foi plantada no fundo da casa dele. A gente percebeu que precisava continuar essa história”, afirma.