A próxima fornada será Os Coelhos e as Tartarugas, em fase de pré-venda por doações (Vanessa Rodrigues/AT) Escola Lourdes Ortiz, Santos, 1976. Classe da sexta série do então primeiro grau. Maria das Graças, a professora de Português, pediu aos alunos que fizessem uma redação para o Dia das Mães. Aos 12 anos, as vergonhas da pré-adolescência em ebulição, o menino Torero pensou: “não vou falar que amo minha mãe, não tenho coragem”. Resolveu inventar. Mas o quê? A solução: que a mãe havia morrido e o filho escrevia uma carta para depositar em seu túmulo. “Fiz o texto bem triste, que acabava assim: ‘minha mãe, imortal, mas morta’”. Na semana seguinte, a professora retornou as redações corrigidas. “Ela disse: ‘olha, muito bom o seu texto, mas meus pêsames pela sua mãe’”. Torero foi pego desprevenido. Pensava que a professora conhecesse a mãe. Viu-se em um dilema: contar a verdade e ver a nota nove bater asas ou ficar quietinho? Resolveu contar a verdade, nem tanto por aflições morais, mas pela possibilidade de mãe e professora trombarem na reunião de pais e mestres. “Falei: ‘professora, isso não aconteceu, minha mãe está viva’. ‘Você inventou tudo?’. ‘Sim’”. Quando esperava um sermão, a professora devolveu: “Então a nota é 10”. Foi a glória. De uma tacada só, Torero enganou a professora e tirou 10. “Duas das melhores coisas pra se fazer na escola”, sorri. Se houve nota 10, foi também em humor – uma das marcas da obra do futuro escritor, roteirista e diretor de cinema, nascido em 1963 na Casa de Saúde de Santos, como boa parte de sua geração. Saído da maternidade, o primeiro pouso de Torero foi na Rua Duque de Caixas, perto do Canal 2. Mas a geografia dos afetos logo embaralhou os endereços: um ano depois, os pais se separaram. A mãe e Torero mudaram-se para a casa dos avós maternos, na Rua Nabuco de Araújo. “Convivi com meu pai em festas de aniversário, até uns sete, oito anos”. Um outro afeto começou a surgir: livros. “Em casa tinha livros, mas não infantis. Minha avó era leitora, minha mãe um pouco mais”. A literatura estava até no nome das mil e uma noites da mãe, Litz Ely, homenagem a uma personagem do escritor Malba Tahan. “Tem um conto que ele usa um nome parecido. Quando meu avô foi registrar, eles erraram no cartório”. Um nome quase único para aquela loira de olhos azuis, como descreve Torero, que já despertava olhares de um rapaz que vez ou outra estava em visita à irmã, na casa em frente à dos avós. O nome dele era Dirceu Soares da Silva, dono da Ideal Pneus, que até hoje existe na Avenida Pedro Lessa. “Ele foi muito esperto. Primeiro, me levava pra comprar doce e dava presentes para a minha avó”. Flores de presente? “Não, linguiça, o que era muito melhor. Conquistou minha mãe”. Litz e Dirceu se casaram. Torero ganhou um novo pai – decisivo em sua vida, até para inspirar o time de futebol de seu coração. “Ele me levou na Vila na despedida do Pelé. Era mineiro, durão, e ele lá, chorando. E todo mundo chorando em volta”, recorda Torero. “Eu perguntei: ‘por que tá todo mundo chorando?’. ‘Porque ele vai parar de jogar’. ‘Mas ele é ruim?’. ‘Não, ele é o maior do mundo!’”. Livros, livros e mais livros Dona Litz e seu Dirceu se casaram, Torero mudou da casa dos avós. Na mala, a literatura. Ler era obsessão. Bem criança, costumava se trancar no banheiro por horas com a clássica enciclopédia Conhecer – para desespero do resto da família. Os livros avançaram, à medida que foi crescendo. Aos 12 anos, já se debruçava sobre uma coleção de banca, que o avô, religiosamente, comprava a cada semana. Havia Mark Twain, Charles Dickens, a Odisseia, de Homero, adaptada por Monteiro Lobato. Beleza Negra – Autobiografia de um Cavalo, de Anna Sewell, o impressionou. Onde fosse, Torero estava com um livro na mão: do consultório, à espera do médico, à fila da padaria. “Meus pais tinham um casal de amigos com muitos livros. Quando eles iam visitá-los, eu ia junto só pra ler. Era minha diversão, como o joguinho no celular hoje em dia”. A diversão começou a ficar séria na escolha da faculdade: Letras. Era início dos anos 1980. Matriculado na USP, Torero se decepcionou. “A biblioteca era horrível, você não podia mexer nos livros, tinha que pedir a alguém”. Soube que do outro lado do campus, no prédio da Escola de Comunicação e Artes (ECA), a dinâmica era diferente. “Você entrava nos livros. Não precisava colocar de volta no lugar: aliás, você tinha que fazer bagunça”. Nos horários vagos, lá ia ele para a ECA. Foi tanto, que entrou também em Jornalismo. “Tem que praticar para escrever bem, né?”, sorri. Cinema e imprensa Café, almoço, janta. Torero praticamente vivia na USP. O que não era um problema. “Morava numa pensãozinha. Quanto mais tempo ficasse na faculdade, melhor”. Tanto que prestou mais um vestibular: cinema. “Pensei: ‘moleza, é só ver filmes e tal’. Me enganei: das três, foi a que mais eu tinha que me esforçar”. Começou a trabalhar no jornal Folha de S.Paulo. Em pouco tempo por lá, foi assistente da secretaria de redação – “um cargo decente, lembro que comprei uma gravata de crochê” – e depois repórter esportivo. Cobria o São Paulo, dos Menudos do Morumbi. “Numa pauta doida, pedi ao Silas e ao Müller para tirar uma foto de fralda”, ri. “Era outro tempo: você tinha acesso total aos treinos, aos jogadores”. Mas os longos dias na redação – que viravam noites – o ritmo frenético, o fechamento intenso e a cobrança brutal lhe mostraram um pouco de si: “Não tenho alma para o jornalismo diário, não combina com minha personalidade”. Foi do Oiapoque ao Chuí do jornalismo: acabou no Guia Quatro Rodas, publicação anual, com viagens, boa comida e todo tempo do mundo. Também foi assessor na Prefeitura de São Paulo, no governo de Luiza Erundina, e em Santos, no de David Capistrano. Tudo isso até nascer O Chalaça. “Talvez a gente escreva por dois motivos: pra vencer a morte, o que nunca dá certo, e ser amado", diz Torero. (Vanessa Rodrigues/AT) Conselheiro espirituoso Torero queria escrever um livro sobre a Independência do Brasil. Seria contada pelo próprio dom Pedro? Não era bem isso... foi ao lembrar de Sherlock Holmes, cujas peripécias eram relatadas pelo amigo, o Dr. Watson, que teve a certeza: era esse o caminho. “Sabia que existia o chalaça por causa do filme Independência ou Morte, com o Tarcísio Meira. Meu avô me levou pra estreia, em 1972, no Praia Palace”. Chalaça era o apelido de Francisco Gomes da Silva, político secundário e confidente de dom Pedro. O Chalaça original nunca foi tão popular quanto o livro de estreia de Torero: venceu o Prêmio Nascente, da USP. Depois, publicado pela Companhia das Letras, figurou nas páginas de cultura dos maiores jornais do País. Aos 30 anos, Torero era convidado para programas literários, entrevistas, incluindo Jô Soares. Em 1995, O Chalaça foi eleito o Livro do Ano do Prêmio Jabuti. “Ficou três semanas no topo dos mais vendidos, à frente de Paulo Coelho. Essa foi minha glória. Depois, voltou tudo ao normal”, sorri. Torero nunca mais voltou ao jornalismo diário. Começou a emplacar roteiros para filmes. O curta Amor, por exemplo, abocanhou os principais prêmios do Festival de Gramado, ainda em 1994. Vieram outros livros, Terra Papagalli, Os Vermes, Xadrez, Truco e Outras Guerras. Hoje, são mais de 60, para todos os públicos, muitos escritos com o amigo e parceiro Marcus Aurelius Pimenta. “Tive muita sorte no lançamento do Chalaça. Não havia nenhum livro concorrente. Se tivesse, o destaque seria menor, nem teria ganhado prêmio”. Sorte, destino, seja o nome que se dê, Torero jamais poderia imaginar que um dia estaria na cerimônia do Oscar. E por pouco não esteve mesmo. “Quando fui entrar em Los Angeles, o cara da imigração perguntou o que eu ia fazer. O outro roteirista respondeu: ‘turismo’. Pensei: é minha chance na vida, vou esnobar: ‘vim pro Oscar!’”. Alerta: a fila parou, carregaram Torero para a salinha da polícia. Sem um convite formal comprovando o argumento, convencê-los de que melancia não é azeitona levou horas. Trocavam os policiais – um mexicano, um negro, uma japonesa –, mas faziam as mesmas perguntas. Até se lembrar: “Meu smoking!”. Abriu a mala, mostrou: deixaram-no entrar. Mas o curta Uma História de Futebol, roteirizado por ele, acabou perdendo para o alemão Quero Ser.... Foi na 73ª edição do Oscar, em 2001. “Serviram uns canapés e uns vinhos na entrada”. A cerimônia foi apresentada por Steve Martin, um pontinho branco no palco do Kodak Theater (atual Dolby Theater): Torero ficou na penúltima fila da última galeria. Após a decepção da derrota, Torero se dirigiu ao foyer pensando em afogar as mágoas naquele delicioso vinho californiano. “Mas estavam cobrando! De graça, só na entrada”. Padaria de livros O ex-presidente Jair Bolsonaro não faz ideia, mas inspirou ao menos uma editora no Brasil: a Padaria de Livros. Quando começou o governo, Torero iniciou uma série de textos nas redes sociais intitulada Diário do Bolso. A rigor, era um diário bem-humorado das peripécias de Bolsonaro. Deu tão certo que logo já havia 40 mil seguidores e os pedidos por livro. Nenhuma editora se disporia a publicar. Torero fez um financiamento coletivo. Publicou um, dois, três, quatro volumes. De quebra, deu o pontapé inicial na editora. “Tinha uns livros infantis rejeitados, O Amor É Animal, que conta como são os casais entre os animais. E O Pequeno Plebeu, que ninguém queria, porque mexia com O Pequeno Príncipe”. Hoje, não falta lenha na brasa da Padaria. A próxima fornada será Os Coelhos e as Tartarugas, em fase de pré-venda por doações. Como ele diz, a editora “é a minha mesa”. A mesma mesa em que cria suas histórias. Do outro lado dessa mesa está Maria Rita Barbi, a parceira da vida, que dá o ponto na massa da editora. “Ela tinha um blog, Quebrando o Salto. Li um texto dela sobre futebol e sexo. ‘Bacana o seu texto’, escrevi. Ela respondeu. Conversamos. Fomos tomar um café”. À época, Torero estava escrevendo O Evangelho Segundo Barrabás. Como não é bom de cantada, leu para Rita o que seria o futuro livro. Ela ouviu. Bom sinal. Segundo Torero, o Evangelho foi um fracasso, vendeu apenas 3 mil exemplares. Mas é seu livro mais importante: Rita e ele se casaram. Logo viria Matias, hoje com 12 anos. Ao lado da mãe e dos três irmãos, dois por parte de mãe, um por parte de pai, Rita e Matias são o que há de mais importante. São a verdade boa, em um mundo de verdades ruins. Magia que página alguma, de livro nenhum, consegue alcançar.