Ele adora ser apresentado como ‘filho de Elis Regina’. Mas o empresário e produtor musical João Marcello Bôscoli, 55 anos, tem a própria ‘voz’: como ele mesmo enumera, faz 56 programas de rádio por mês, em quatro emissoras diferentes. Também apresenta, na TV Cultura, a série O Novo Sempre Vem, destacando artistas que movimentam a cena da nova MPB brasileira. Além disso, ainda está à frente do selo Trama, que também realiza um trabalho de lançar artistas da música brasileira. “Vivo dos meus projetinhos (risos). Meu dia é sempre muito cheio, na música, sempre”. Entre os ‘projetinhos’ está o trabalho de atualização musical do acervo de sua mãe, Elis Regina. Mês passado foi relançado o álbum Elis 73; no dia 10 de maio, é a vez do single O Corsário, com participação do percussionista Paulinho da Costa. Elis apresentou a canção em 1976, em um especial de tevê, mas ela nunca foi lançada. O single atual é o pontapé inicial de um álbum inédito da cantora, produzido pelo filho. Nesta entrevista, João Marcello fala sobre os novos horizontes da música, o trabalho como produtor e, claro, revela um pouco da personalidade de sua mãe fora dos holofotes. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Você foi ‘coagido’ pela genética para ser músico? A maior parte dos filhos de artistas que conheço seguiram outras carreiras. Mas, ainda assim, a música tem impacto para eles, porque a música tem impacto na vida das pessoas. Uma casa que tem instrumentos ou audição permanente, independente se alguém vai seguir ou não a música, haverá um impacto positivo, seja para arquiteto, advogado... Como diria Shakespeare, não dá para confiar em uma pessoa cujo coração não está aberto para a música. Como decidiu seguir esse caminho? Sempre quis ser produtor musical. Primeiro, com uma visão infantil, de ver o nome nos discos: produzido por Quncy Jones, Mazzola, Guto Graça Mello. Me perguntava: quem é essa pessoa que tem o nome escrito na contracapa? Fui investigando, e para ser produtor, era necessário passar por todas as etapas da cadeia. Você começou tocando bateria... Sim, foi meu primeiro instrumento. Algumas pessoas começam tocando piano. Mas poderia ser flauta doce, o importante é a criança ter algum instrumento à disposição para se expressar. Eu tinha tudo isso em casa: a Elis ensaiava em casa, na Cantareira, onde ficava o estúdio de ensaio. Terminava o ensaio, os instrumentos ficavam lá, à disposição, e a bateria foi o que eu gostei bastante. Mas depois precisei estudar o piano, para conseguir a interface do mundo musical com o mundo computacional (para ser produtor). O que define um bom produtor? E uma provocação: como alguém pode saber mais da música do que o próprio artista? O produtor tem duas funções básicas: combinar todo o processo criativo, desde a escolha do microfone, do estúdio, do engenheiro de som, das composições, e cuidar da parte burocrática, agenda, pagamentos. Esses são os alicerces do que você tem que entregar como produtor. Mas tem produtores que vem do ramo da engenharia de som, outros são arranjadores, como o George Martin; tem produtores gurus, que cuidam da atmosfera. Para cada produção, você tem um tipo de produtor. Então é muito difícil fazer uma lista de coisas práticas que um produtor deve fazer, porque depende muito do artista: a cada um, há um produtor. Agora, por que o artista precisa do produtor? Por exemplo, o Djavan. Ele poderia se produzir, mas ele frequentemente trabalha com alguém. Se ele tem lá 40 músicas, ele talvez não tenha a melhor visão, justamente porque fez essas canções. E o produtor opina, não determina o que o artista faz. O produtor vai estudar a carreira do artista, ajudá-lo a tirar o melhor de si. Foi o que aconteceu com Michael Jackson e Quincy Jones. A CBS não queria o Quincy, mas o Michael bancou. O presidente (da gravadora) falou: ‘se não der certo, você tá fora’. O Michael não era bobo, já conhecia o trabalho pop dele, enquanto o pessoal da gravadora estava vendo só os trabalhos de jazz (Quincy Jones produziu o álbum Thriller, de 1983, que se tornou o mais vendido da história, com quase 70 milhões de cópias). Recentemente, César Camargo Mariano afirmou ser um desrespeito a nova versão do álbum Elis 73, que você produziu, por modificar o original. Como você vê isso? Toda opinião é livre, não é sujeita à censura. O que acontece é que não há uma razão legal, um amparo patrimonial para ele falar o que disse ou pedir uma explicação à Universal (gravadora). O álbum é da Elis e da Universal. O produtor não é ele, é o Mazzola (Marco). A coordenação artística não é dele, é do Roberto Menescal. O César fez arranjos de músicas, e não de todas. Se o que ele está pedindo fosse correto, ninguém mais faria nenhuma remasterização de nenhum álbum. O fato dele ter sido casado com Elis naquele momento é circunstancial. Ele não é herdeiro dela. Legalmente, somos nós três (além de João, Maria Rita e Pedro Mariano). Resolvemos fazer isso, é o quinto álbum que fazemos e a gente não vai parar. Como você vê o panorama da música hoje no mundo? Empobreceu? A gente precisa lembrar que a música que a gente ouviu quando começou a sair e a se relacionar tende a nos acompanhar pela vida. Sempre vai soar bem o que a gente ouvia nesse período, seja melhor ou pior, isso é subjetivo. Dito isso, acho que a música é uma espécie de reportagem de seu tempo. Ela não dá em árvore, nem vem de outro planeta: nasce das pessoas, na sociedade em que estão vivendo, comendo, lendo, nos dispositivos de tela ao nosso redor, que têm um impacto no público ouvinte. Esse impacto das telas é positivo ou negativo? Acho que é mais negativo. A gente vê os resultados de pesquisa sobre os impactos do digital no cérebro. Na música, a revolução digital faz muita coisa acontecer. No Brasil, são 150 mil músicas por dia que sobem (nas plataformas), são 15 mil álbuns. Não dá pra gente falar que tá tudo ruim. Mas existe a parada de sucessos... a digitalização trouxe uma fragmentação que nunca mais permitirá a imagem completa. A tecnologia barateou e simplificou o acesso à gravação – daí essa avalanche de lançamentos e muitos desaparecem. Nesse sentido, a curadoria que a indústria realizava era positiva? Se por um lado era mais difícil lançar um álbum, pois tudo era mais criterioso, por outro lado o jogo era para pouca gente. Se eu tomasse um não de seis, sete gravadoras, eu tinha que mudar de ramo. Dificilmente, eu seria artista, porque a gravadora dominava toda a cadeia. Hoje, não, todo mundo tem chance. Eu prefiro olhar pelos dois lados. Mas uma coisa é um fato: a disputa por atenção, hoje, nossa senhora... aí, você pergunta: com qual público eu quero conversar? Aquele que escute uma música inteira. Eu não vou conseguir captar a atenção da pessoa em cinco segundos. Eu preciso de dois, três minutos. Se você não tem esse tempo, não adianta: não vai rolar. O conceito de álbum, com começo, meio e fim, ficou obsoleto? Talvez, do ponto de vista do público. Mas o álbum sempre vai existir, porque ele é importante para o artista. Você não constrói uma carreira lançando 20 singles em três anos. A inteligência artificial, na música, é boa, ruim ou as duas coisas? O assunto é tão amplo quanto falar de energia elétrica hoje em dia... não existe mais software em estúdio que não tenha IA. No que eu uso? Em restauração. Se eu pego o microfone da Elis, eu consigo eliminar vazamento de baixo, bateria, porque ela cantou ao vivo dentro de um estúdio. Mas não é como dar um comando: ‘faça a voz da Elis ficar sem ruído’. São oito, nove, dez softwares utilizados, durante meses. No seu livro Elis e Eu: 11 Anos, Seis Meses e 19 Dias com Minha Mãe, você apresenta o ser humano além da artista. O que você pode dizer da mãe Elis? O que eu entendo, é que a Elis tirava muita energia da atividade doméstica. Um fã publicou outro dia uma notícia da época, que ela lavava e costurava a roupa do pessoal de O Falso Brilhante (show de 1976). Ela não precisava disso, mas gostava. Como gostava de fazer tricô, de cozinhar, de cuidar das plantas. Ela levava os filhos para a turnê durante as férias escolares... se a pessoa faz isso sem atrapalhar a carreira, é porque não era um sacrifício, era o natural dela. Por que você se refere a ela como ‘Elis’ e não como ‘mãe’? É simples. A minha mãe contém Elis. A Elis Regina é de cada pessoa que escuta, posta, vê o vídeo. Estou trabalhando pra ela, sou fã dela. Quem vai à feira é minha mãe; mas quem para a feira, é Elis Regina. Foi na feira que eu descobri existir essa face pública da minha mãe. Mas no palco ela não cozinha, não costura, não me leva na escola. Como foi e é ser filho de Elis Regina? Adoro ser filho dela. Quando sai meu nome, e infelizmente sai muito, sem o nome dela, eu não gosto. Eu adoro ‘João Marcello Bôscoli, filho de Elis Regina. É como se morasse numa cidade, alguém apontasse e dissesse: ‘esse é o João, filho da dona Elis, da casa quatro’.