Multimídia, desenhista, designer e cartunista: Guto é referência nas artes plásticas brasileiras (Sílvio Luiz/AT) Criar é como respirar ou comer: para Guto Lacaz, não existem humanos artistas, mas artistas humanos. Ou seja, a arte é uma parte intrínseca da espécie. Como o braço ou a perna. “Quando alguém se veste para ir ao trabalho, coloca uma calça azul, uma camisa amarela, está fazendo opções estéticas, está criando, sem saber. A diferença é que existem pessoas com isso mais latente, que se tornam profissionais”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ilustrador, designer, desenhista, cartunista, cenógrafo e artista plástico, que está em cartaz na Pinacoteca Benedicto Calixto, com a mostra Ondadada (veja ao lado), Lacaz é conhecido como um artista multimídia, pela ampla abrangência de seus meios de criação. “É um termo que apareceu nos anos 80 com a chegada do vídeo, e alguns artistas começaram a mesclar trabalhos”, explica. Porém, nada que seja novidade. Para Guto, o ser humano é multimídia desde os tempos das cavernas. “Ele fazia lança, grafite na caverna, cunhava objetos diferentes, em linguagens diversas”. Sendo assim, o artista plástico, em sua maioria, também é multimídia: há pintores que desenvolvem instalações, escultores que realizam performances, ceramistas que pintam... enfim, as mídias muitas vezes se cruzam nos trabalhos de um mesmo artista. O acaso: um concurso Prestes a completar 77 anos – nasceu em 20 de setembro de 1948 –, Guto já tem quase 50 anos de uma carreira nas artes que começou quase por acaso. “Virei artista por um acidente de percurso”, enfatiza, sorrindo. A história tem início em um concurso de artes plásticas, em 1978, quatro anos depois de formado em Arquitetura. Guto resolveu inscrever umas peças prontas, que criara sem muito compromisso – “quando dava na telha”. Foram 14 obras inscritas. Não pela quantidade, mas pela qualidade, ganhou um prêmio e abriu a Guto as portas de um novo mundo. “Fiquei deslumbrado. Pensei ‘quero ser artista’, mas nunca tinha mirado isso”. Mergulhou de cabeça: foi complementar a formação, estudou gravura, aquarela e outras vertentes da arte, “tapar os buracos que eu tinha”, como descreve, bem-humorado. Mas não só: desde essa ‘revelação’, fico ligado “25 horas por dia” tentando extrair da realidade ideias ou situações que possam ser transformadas em obras. A sua arte A formações de Guto – além da superior em Arquitetura, também tem o grau técnico em eletrônica –, são fundamentais à arte de Guto. Pode-se dizer até que são a sua base, especialmente a eletrônica. Enquanto a Arquitetura está presente nos croquis e maquetes que desenvolve para suas intervenções urbanas, a eletrônica é a alma das peças cinéticas (com movimento), exemplares com engrenagens, e até motor, os “objetos inusitados”, como se referia a suas criações quando jovem. “Fazia objetos com motor desde o ginásio, do técnico em eletrônica”. Mas qual é o limite entre tecnologia e arte? Quando uma termina e a outra começa? “Há isso muito forte, de achar que tal coisa é arte, tal coisa não é. Não existe essa fronteira: tudo é obra de arte. Não há nada que o ser humano tenha encostado o dedo que não o seja”, acredita. Os significados, sim, irão mudar, de acordo com a experiência pessoal de cada um – é como Guto vê a sua arte: obras em aberto. “É para ser contemplada e conversada: cada pessoa fará relações com sua vida, suas histórias. E toda leitura estará correta”. Dentre as inúmeras aplicações da arte, como ser um registro de época, uma provocação e até um bem de capital, uma mais fundamental se destaca. “É um espelho para o ser humano se enxergar. Pegue a História da Humanidade: sem a História da Arte, ela não existe”. A mostra A exposição Ondadada cobre toda a carreira e a criação de Guto Lacaz. Estão lá desde cartoons até obras cinéticas, como a famosa Biciclótica, com a qual o visitante pode – e deve – interagir ativamente para obter o efeito necessário da arte. Aliás, somente pela força do visitante é que isso ocorre de fato. A mostra está em cartaz na Pinacoteca Benedicto Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15, Boqueirão, Santos), de terça a domingo, das 9 às 18 horas, até 7 de setembro. A entrada é franca. A Biciclótica, famosa obra interativa, convida o visitante a explorá-la, para melhor decifrá-la (Sílvio Luiz/AT)