Guilherme também está prestes a iniciar a turnê 50 Anos-Luz, em que celebra o meio século de carreira (Matheus Tagé/AT/Arquivo) Guilherme Arantes acaba de lançar o álbum Interdimensional, o 27º da carreira. São 15 canções autorais, nenhuma antes ouvida na voz do cantor. Mas há versões de faixas já gravadas por Gal Costa, Alaíde Costa, Boca Livre e Claudete Soares. Guilherme também está prestes a iniciar a turnê 50 Anos-Luz, em que celebra o meio século de carreira (estreia dia 7 de março, no Espaço Unimed, na Capital; passa por Santos, em 30 de maio, no centro de convenções). Guilherme transcende a faceta de cantor, instrumentista e compositor de mão cheia: ele é um dínamo criativo, de verve caleidoscópica. Em uma hora e meia de conversa, discorre, claro, sobre o novo álbum, o momento na vida e na carreira, mas também deixa entrever que, aos 72 anos, não perdeu o maravilhoso assombro diante da vida: experimenta cada dor e delícia de ser humano como se fosse a primeira vez. “Eu finalmente fiz um disco que o Guilherme de 16 anos, à pergunta “quem você sonha ser no futuro?”, teria orgulho em responder: quero ser o que o Guilherme Arantes de hoje construiu, a música que ele fez”. Como Interdimensional dialoga com os álbuns dos anos 70, com essa história de meio século na música? A palavra é aperfeiçoamento, que o tempo permitiu. Fui com minha mulher para Ávila (Espanha), sem prazo para voltar. Já ficamos um período longo por causa da pandemia, que surgiu no caminho, a gente não conseguiu voltar. Esse ano não houve pandemia, houve cirurgia. Operei os quadris, coloquei um stent no coração. Falei: tenho que fazer um retiro para cuidar dessas coisas. Já tinha algumas músicas embrionárias, fiz as coisas livremente, sem o hodômetro da vida. Me deu o relaxamento de tocar por prazer. Esse tempo elástico me fez ficar como se eu tivesse 16 anos: era adolescente, tinha todo o tempo do mundo, me debrucei em meu romantismo. Nesse sentido, Interdimensional olha mais para trás do que para frente? Não me vejo na obrigação de ser contemporâneo. Já usei calça boca de sino, bolsa com franjinha, nos anos 70, passei pelo hippie, dormi no sleeping bag do Gil... mas meu sonho é mais antigo, é do século 19, de outra esfera. Descobriu isso hoje ou o garoto dos anos 70 já sabia? Tinha essa visão lá atrás. Mas à minha volta havia um determinismo, era uma época impositiva, da contracultura. Eu, na verdade, sou um romântico do século 19, é minha identidade. Minha matriz está na filmografia dos anos 70, Visconti, Pasolini, Fellini. Não sou tão contraculturalista como a época mandava, que tinha de ser transgressor, destruir o belo. Eu gostava do barroco, do Romeu e Julieta de Zeffirelli. O disco honra essa matriz. Luar de Prata, em dueto com Mônica Salmaso, é uma música linda sobre o envelhecer... Realmente, é uma música falando do envelhecer, das “danças dolentes dos adolescentes, que nem a saúde ou a idade vão roubar de nós...”. É uma música da minha idade, mas de uma sensibilidade a um mundo de etarismo. É uma música para representar nós, eu, que já estou no terceiro tempo. É a materialização do que eu sinto, para trazer a beleza dessa idade, celebrá-la. Várias músicas falam de buscar sentido ao olhar para trás. “O espelho de Narciso é o retrovisor que olha a estrada sempre indo embora”. Essa aura nostálgica também encerra uma certa transcendência. É uma reflexão sobre o próprio tempo e a vida? Interdimensional é sobre espiritualidade, sobre o tecido tempo-espaço, o renascer dentro de nós. Sobre o princípio criador de tudo, que é o afeto, o amor, o sentimento que existe dentro de nós, onde o universo se recria. Você é religioso? Não sou de igreja, mas a cristandade, o budismo, o sincretismo brasileiro me despertam. Comecei em Ávila, que está em uma região rica de histórias e lendas cristãs, a conversar com a Santa Tereza. Não como devoto, mas como parceiro. Me descobri um parceiro de Deus. Ele não quer ninguém de joelho. Ele quer algo mais do que a crença, anterior a ela: o sentir. Você mencionou o longo tempo que se deu para trabalhar no álbum. Além da parte lúdica, da despreocupação, como favoreceu o resultado? Tem mais profundidade. Você volta, aperfeiçoa um termo, um poema, uma nota. Estou muito satisfeito, porque o que resta curtir é o fazer em si. Porque, pelo produto, as coisas não valem mais nada: o produto é manipulável, clonável, sampleável. Você está falando de inteligência artificial? Também. Em algumas atividades, ela é de uma perspectiva maravilhosa. Por exemplo, na prospecção de sinais de vida inteligente no universo, a IA potencializa a busca. Na oncologia, no pet scan, na busca de células cancerígenas, vai cruzar tudo, ir atrás até da última célula de tumor. E quanto à IA na arte? Eu tenho bem clara essa percepção de que a arte não é o produto, mas o processo. O produto é vulnerável, o processo, não: ele foge dessa vulnerabilidade da repetição, que é do domínio do produto. Um exemplo: Van Gogh. O desenho dele, a pincelada selvagem. Aquilo tem uma formulação plástica clara. A IA pega essa formulação e transforma num plug in. Você pega uma foto sua, passa na IA, aquela foto fica com aspecto de Van Gogh, seria uma visão sua aos olhos do pintor. Mas a IA parte do produto, é um simulacro. O que vale US\$ 100 milhões em Van Gogh é o drama impresso na tinta, de um ser único. A lenda por trás não é clonável. O valor da arte é a realização do artista? Existe uma vida ali. Um dia nublado em que aquilo foi pintado. Uma experiência humana impossível de ser reproduzida. A saga daquele ser, o sentimento, as epifanias diante de cada momento. A minha arte é lendária, analógica e orgânica. Nasci para fazer isso. Era menino, tinha fascínio por Bach, Beethoven, Ray Charles, Jorge Ben, Chico Buarque. Isso fez de mim um ser cuja lenda, a vida real, vale uma fortuna. Como fica essa vida real na rede social? E em relação à arte? Estava na Santa Ifigênia (rua paulistana famosa pelas lojas de instrumentos musicais). O atendente da loja veio falar comigo, disse que há muito tempo tentava tocar minha música, Meu Mundo e Nada Mais, não sabia um acorde. Disse, ‘faz o seguinte, filma, depois posta, eu vou ensinar o acorde’, o outro vendedor veio cantar junto... já passou de um milhão de visualizações. Por que? Não tem mais isso no mundo, a vida verdadeira, de carne e osso, que subverte a torre de marfim do artista feita pelo marketing, que é a arte de construir um pedestal. Vivemos um tempo de supercialidade e solidão? Há uma incultura geral. Uma desatenção, dispersividade contemporâneos: ninguém presta mais atenção em nada, ninguém aprofunda nada. A gente vê uma depauperação da qualidade em muitos aspectos. Mas tem muita coisa em que os processos estão se aprimorando. Eu fiz o disco com várias participações de músicos, mas a gente tem à nossa disposição muitas ferramentas, aprofundo várias coisas, inclusive com a IA. Quando o médico mexe no coração, dentro de você, é como se ele fosse um ser divino. Isso me dá uma emoção muito grande. Existe um descompasso entre evolução tecnológica e moral? É notável e visível. Os fundamentos da governança estão defasados. Há nem 200 anos ainda havia escravagismo no Brasil, a pior diáspora da História da Humanidade, a mais depravada. É recente. Há avanços sociais? Há. Mas também nunca se acumulou tanta quantidade obscena de dinheiro, que resolveria os problemas da humanidade milhares de vezes. Hoje, aos 72 anos de idade, com 50 anos de carreira, o que é o sucesso pra você? É aquele momento em que eu estava ao pôr do sol em Ávila, ao piano, em meu mundo recôndito: eu estou ali, naquele momento insubstituível. Ou o momento em que fiz Amanhã. Lembro claramente das circunstâncias, do caderno em espiral que eu tinha, da letra que eu tinha, meio adolescente ainda. O sucesso está nesses momentos. Nenhum tipo de reconhecimento é igual ao momento em que uma coisa que não existia no mundo sai de você.