As músicas são: Cantorar, Manioc Sound, Marginal, Morena, Lá na Areia, 500 Anos, Birosca, Maria das Flores, Nata das Harmonias e Birosca (instrumental). Na capa, uma imagem do interior de uma opy, centro espiritual nas aldeias Mbyá-Guarani. A foto é de Werá Mirim. Samba Calungueiro já está nas plataformas digitais. (Reprodução) Pode-se descrever processos, enumerar intenções, apontar modelos, mas a boa arte nem sempre se sabe de onde vem: acontece por milagre. Eis aí o Samba Calungueiro para provar. Primeiro álbum do grupo Pau a Pique em seus 44 anos de estrada, terá show de lançamento sábado, na Casa Crescer e Brilhar (Rua Dom Duarte da Costa, 340, Jóquei Clube, São Vicente), com entrada franca. “A composição é muito séria. Grande parte da inspiração vem da poesia. Outros 20%, de um lugar que ninguém sabe onde é. A música vem. Eu não sei de onde. De repente, está ali”, resume Antonio do Pinho, um dos fundadores do Pau a Pique, naquele distante 1981, durante a 1a Feira de Literatura Independente de Santos, realizada pela lendária revista Picaré. Seja de onde for que venha, a música está aí: são dez canções no álbum, todas sambas ‘calungueiros’ – de calunga, palavra de origem africana que em uma das acepções é associada ao mar, à imensidão, ao sagrado, à ancestralidade. “É um som diferente, um samba diferente, com mais influência indígena e europeia. É um samba ‘amalgamado’, como diz o Jorge Mautner (cantor e compositor), sobre juntar as influências”. Menestréis caiçaras Gravado no estúdio El Sonido, em Santos, com recursos do Governo Federal pela Lei Aldir Blanc, via Prefeitura de São Vicente, Samba Calungueiro tem um clima musical que remete à arte dos menestréis medievais, mas com os pés fincados na areia caiçara. Para isso, o Pau a Pique – que além de Pinho ao violão, nesta quarta-feira (4) tem ainda Grillo no pandeiro, Manu na escaleta e voz e Dionísio da Jureia no triângulo – recebeu outros quatro músicos para incrementar os arranjos do álbum. Assim, juntaram-se ao grupo Fabinho Rodrigues no baixo, Zé do Cavaco no cavaquinho, Luan Pablo no teclado e sopros, Guaciara Alves no tamborim, Sandro Bueno no cajón e pandeiro e Werá Mirim no ravé, espécie de violino com três cordas. Resultou um som delicado, cetim harmônico para versos como os de Lá na Areia: “Monte letra cala/Fronte flor não medra/Mesmo o pé na vala/ Coração não pedra/ Lá na areia/ O azul do mar/ Como fosse o mundo/ Um imenso balcão/ Eu, o marginal/ Imagine, só!/ Como fosse tudo/ Imaginação/ Fora do real/ E uma vez só. Sonho desde os 10 anos Antes de Samba Calungueiro, o Pau a Pique só tinha registro gravado em coletâneas de festivais e no EP Psicofonia Caiçara, de 2015. Mas a música se impõe além de qualquer registro. Nascido Antonio Miguel Alves, no Macuco, em Santos, em 1956, a música era um sonho desde os 10 anos. Tanto que o apelido ‘do Pinho’ é por causa do violão. “Andava com ele pra cima e pra baixo. Quando estava sem, perguntavam: ‘cadê o pinho?”. Some-se à música a vida caiçara, o gosto de mar, a veia profunda da simplicidade, seja na sabedoria dos povos originários ou na cadência da natureza, Antonio do Pinho seguirá sonhando. Já pensa em novos editais, para trazer à luz outro álbum, que já tem até nome: Samba Macuqueiro, um retorno à infância, aos sons do bairro onde nasceu. “A gente não faz música para agradar. Faz do coração”.