Há sete décadas, Grande Sertão: Veredas era publicado, inaugurando um novo patamar na Literatura Brasileira (Reprodução) Se o sertão é cada um, o bem e o mal estarão sempre à espreita – seja nas expansões da linguagem, nos meandros da filosofia, nas vertigens da poesia. Tão grande, uma das maiores obras literárias já concebidas no Brasil, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, completa 70 anos da primeira publicação. Nela, o sertão é o mundo, e o mundo é dentro de nós – mesmo se a léguas de distância. O bem e o mal? Faces da mesma moeda humana. “Um livro como Grande Sertão é raro. É um romance que tem complexidades por todos os lados: na construção dos personagens, em seu pensamento filosófico, na poesia da linguagem”, resume Milton Hatoum, um dos maiores escritores brasileiros atuais. Aliás, para ele, a linguagem em si acaba sendo um personagem de Grande Sertão. “Manter uma linguagem poética em um romance extenso é muito difícil. Poética no sentido de muito profunda. Há uma dimensão lírica em cada página. Manter isso é difícil”. O diabo, o pacto A gestação de Grande Sertão durou cerca de 10 anos. Envolveu duas viagens de Guimarães Rosa, em 1945 e 1952, ao interior de Minas Gerais, onde a história se desenvolve – e de onde é o próprio Guimarães. Na segunda viagem, acompanhou a condução de uma boiada de 180 cabeças pelo sertão, durante 10 dias. Mas o romance transfigura o interior de Minas, expandindo-o por outras geografias e dimensões. É o caso do pacto com o diabo, em uma encruzilhada, que nunca se tem certeza da concretização: evoca religiões afrobrasileiras e tradições literárias alemãs, do Fausto de Goethe e sua releitura, Dr. Fausto, de Thomas Mann – este, de 1947, era recente à época da confecção de Grande Sertão. “Essa é matriz do pacto em Grande Sertão. Guimarães Rosa leu, não sei se em alemão, porque ele tinha conhecimento da língua, mas certamente já havia tradução desses livros aqui”. Erudição Da Literatura à Filosofia, as leituras de Guimarães são vastas – e se refletem em seu maior livro. “A obra dele tem muito da poesia do Dante (Alighieri, 1265-1321, autor de A Divina Comédia), dos poetas latinos, de Plotino e Platão (filósofos gregos)”, explica Milton. “Ele leu os metafísicos, vários filósofos embasaram Guimarães sobre o amor, a passagem do tempo. Ele era um escritor erudito, daí a complexidade do romance”. Porém, o romance é narrado por um jagunço, Riobaldo, que já fazendeiro conta suas memórias a um senhor misterioso da cidade. Ou seja, o personagem é quase a antítese de uma suposta erudição talhada na cultura europeia. Mas eis a genialidade de Guimarães: a profundidade e a erudição não se revelam em citações, mas nas referências. “Está no fluxo de consciência, na própria narração. Por isso é convincente: não há um narrador culto falando de cima, de um ponto elevado”. Tome-se, por exemplo, o trecho em que Riobaldo explica ao ouvinte: “O senhor espere o meu contado: não convém a gente levantar escândalo de começo. Só aos poucos é que o escuro é claro”. Sabedoria que nenhuma erudição de papagaio apreenderia. Fábrica de ideias Autor de grandes obras modernas, sendo a mais recente Dança de Enganos (2025), o último romance da trilogia O Lugar mais Sombrio, ganhador de diversos prêmios, incluindo o Jabuti, Milton Hatoum leu Grande Sertão pela primeira vez nos seus 20 anos, quando cursava Arquitetura, na USP, no início dos anos 70. “Foi uma viagem incrível, fiquei totalmente deslumbrado e desconcertado”. O respeito se impôs. Milton admite: a literatura de Guimarães não cruza com a sua. “Desde a primeira vez, pensei: é impossível imitar esse escritor; qualquer imitação vira um pastiche”. Mas Guimarães é inspiração. “Ele é uma fábrica de ideias. No Cinzas do Norte (terceiro romance de Milton, 2005), a epígrafe é de Grande Sertão: ‘Eu sou de onde nasci. Sou de outros lugares’. Essa frase me deu muitas ideias”. Grande Sertão chega aos 70 anos e é lembrado por ser um marco da Literatura Brasileira. Como Milton ressalta, é a grande obra da Língua Portuguesa. Mas em um tempo tão apressado, de redes sociais e inteligências artificiais, poderá nascer outro Grande Sertão? Haverá espaço para a Literatura? Milton não tem dúvida: “Enquanto houver humanidade, haverá Literatura. O dia que não houver, significa a falência de todo e qualquer sentimento humano”. ESCRITORES E A OBRA Manoel Herzog Nosso primeiro grande passo é Machado de Assis, mas o Rosa é o primeiro a talvez estabelecer as diretrizes do que é um idioma brasileiro, já passou do português. Ele traz uma nova dicção, uma nova realidade, uma dimensão épica a toda a vivência do homem do sertão. A chave é o sertão (...) A questão da civilização, como é do costume, parte do colonizador, do litoral, onde ela se estabelece. Isso é Machado, ainda europeizado, numa corte no Rio de Janeiro. Começa a tomar forma à medida que isso entra pelas estradas e vai dar nas Gerais. É a mesma coisa da música de Tom Jobim e Villa-Lobos, que vai pegar a estrada e encontrar o Clube da Esquina José Roberto Torero “Li o Grande Sertão já com 40 anos, então ele não influenciou meu jeito de escrever. E ainda bem que o li tarde, porque, se o tivesse lido com 20, provavelmente nem seria escritor. É um livro inalcançável. E por vários motivos. Em primeiro lugar, há a história, que é muito boa, cheia de peripécias e segundas intenções. Há a língua que ele inventa, que é genial. E há o que mais me impressionou, que é a música do texto. Ele consegue um ritmo perfeito. Até quando ele apenas enumera nomes de animais, parece uma poesia, com rimas internas, cadência, átonas e tônicas se enfileirando de um modo que parece uma melodia. Às vezes, eu lia um parágrafo e parava, pensando: caraca, isso é muito bonito!” Flávio Viegas Amoreira “Grande Sertão me impactou profundamente por inventividade sintática, construção erudito-popular de neologismos e prosódias e pela união da ontologia com nossos saberes de Brasil profundo. Deu-me régua e compasso pela possibilidade de pensar o mundo em brasileiro” Maria Valéria Rezende “A minha história com Grande Sertão é longa. Sou filha de mãe mineira e pai santista. Todo ano passávamos quatro meses de férias em Belo Horizonte. Meu avô era antiquário, ele percorria o interior do sertão de Minas em busca de velharias para restaurar. Eu ia com ele muitas vezes. Me acostumei a ouvir a linguagem dos mineiros. Quando eu tinha 14, 15 anos, um ano depois que saiu, meu avô disse: ‘tô com um livro que você vai adorar’. Li e adorei, porque estava acostumada a ouvir a linguagem. O Guimarães não inventou a linguagem, ele escreveu inspirado pelo modo de falar dos sertanejos. Ainda tenho esse exemplar que meu avô me deu. Já li não sei quantas vezes” João Guimarães Rosa nasceu em junho de 1908 (Reprodução/X) O autor João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Foi o primeiro dos seis filhos de um juiz de paz, vereador e comerciante na cidade natal. Formado em Medicina, além de escritor, também foi diplomata. Nessa função, serviu em Hamburgo, entre 1938 e 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Ele e a segunda esposa, Aracy de Carvalho, ajudaram muitos judeus que fugiam do nazismo a entrarem ilegalmente no Brasil. Autodidata, começou criança a estudar vários idiomas. Além do português, dominava espanhol, francês, inglês, italiano, alemão e esperanto. Também lia vários outros, incluindo latim, grego e tupi. Seu primeiro livro foi Magma (1936), de poemas. Dez anos depois, surgiu Sagarana, um clássico dos contos. Mais dez anos, um grande ano: Corpo de Baile, com três novelas, e Grande Sertão: Veredas. Seu último livro publicado em vida foi Tutaméia - Terceiras Estórias (1967). Em 1963, foi aprovado por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras (ABL), mas adiou a cerimônia de posse por quatro anos, temendo ser arrebatado por forte emoção. Quatro anos depois, em 16 de novembro de 1967, ao enfim assumir a cadeira na ABL, no Rio, proferiu no discurso: “A gente morre é para provar que viveu”. Morreu três dias depois, em 19 de novembro, vítima de um infarto.