Em Senhora do Destino, de 2005, Gottsha viveu Crescilda Duarte, uma das funcionárias da loja de Maria do Carmo (Susana Vieira) (Globo/Divulgação) Trinta anos passam rápido. Quem diria: parece ter sido ontem que Sandra Maria Braga Gottlieb transformou-se em Gottsha. Mas, aos 56 anos, sem perder a jovialidade, a cantora, atriz e dubladora celebra o passado de olho no futuro. No momento, ela acaba de figurar na novela das nove da Globo, Três Graças; formata um show que celebra as três décadas do álbum No One to Answer, marco inicial da carreira; e prepara o retorno aos palcos com o musical Mamma Mia!, em junho, na Capital. “Este ano eu pedi trabalho”, solta uma gargalhada. “Sou hiperativa, multifacetada, gosto de estar ocupada. Minha mente está sempre em movimento, planejando coisas novas”. Esse caráter multifacetado começou mesmo com a música. Ainda bebê, segundo conta, Gottsha assobiou antes mesmo de falar. Talvez pela aura musical que a envolvia: embora filha de pais com carreiras técnicas (o pai, administrador de empresas; a mãe aposentou-se na IBM), sua casa tinha ritmo e melodia. “Lembro do meu pai colocando vinis nas pick ups e brincando de ser DJ. E quando saía com minha mãe, a cada vez era uma fita cassete diferente no carro”. “Você é uma cantora!” Apesar de tantos indícios, Gottsha não queria ser cantora: desde cedo, sonhava em ser atriz. Para isso, a primeira vereda natural é o teatro. Ainda pré-adolescente, no tradicional Colégio Andrews, no Rio de Janeiro, matava aulas para assistir ao curso de Miguel Falabella, destinado aos alunos maiores. “Me escondia embaixo das cadeiras do teatro da escola para assistir às aulas”. Enfim, chegou sua vez (ou melhor, sua idade). Ao ficar frente a frente com Falabella, ouviu: “você só vai fazer aula se souber cantar”. Bastou Gottsha abrir a boca para Falabella manifestar-se: “Mas, mulher, você é uma cantora!”. Assim, aos 14 anos, Gottsha estreou nos palcos no musical Happy Ending, dirigido por Miguel Falabella, e virou cantora de vez. Começou a se apresentar em bares, em concursos ‘banda contra banda’. “Eram disputas em boates, as vencedoras gravavam um pau de sebo (álbum com vários artistas; os que se sobressaíam, fechavam contratos individuais)”, explica. “Nunca gravei nada: estava na onda o punk rock na época, não tinha a ver comigo, mas eu me enfiava no meio deles, fazia meu trabalho”. Eurodance No início dos anos 90, Gottsha já tinha desenvolvido vários trabalhos e procurado todas as gravadoras, sem sucesso. “Pensei: ‘onde estou errando? Acho que a música não é minha praia”. Em meio ao desânimo de Gottsha, nessa mesma época cresceu um tsunami nas pistas de dança: música dance com batida forte, originada na Alemanha, espalhou-se por Holanda, Bélgica e a Itália, antes de ganhar o mundo. Era a febre da chamada Eurodance. Um DJ, então produtor de Gottsha, sugeriu: por que você não grava em inglês? Ela topou. Começou a garimpar canções até esbarrar em No One to Answer. “Acho que encontrei: quero gravar essa’, eu disse”. O mesmo DJ levou a música para o programa que tinha de madrugada na Rádio RPC, do Rio. Em uma semana, a música caiu na programação geral da emissora. As outras rádios começaram a se interessar, mas só a RPC tinha a canção. Resultado: as outras emissoras piratearam a música, que de repente já estava no Brasil todo. “Começou uma confusão, ninguém sabia o que estava acontecendo, nem quem ou quê era Gottsha”. Choveram gravadoras. Venceu a Spotlight, especializada em dance music. A ordem: fazer um álbum urgente. Nasceu No One to Answer, um sucesso em 50 países. “Eu era muito jovem, não estava entendendo o tamanho do trabalho. Só fazia o que a gravadora mandava: shows, programas, Xuxa, Jô Soares, Silvia Poppovic. Assim era minha vida”. Os musicais e a maturidade Como a própria Gottsha diz, o que vem rápido demais, também vai rápido demais. Ainda em 1997, ao mesmo tempo em que o mercado fonográfico no País viu o faturamento encolher por causa da pirataria, a onda da eurodance se dissolveu em espuma. Mas eis que dobrando a esquina surgiram dois então jovens diretores, ansiosos por construir carreira em musicais. Claudio Botelho e o santista Charles Möeller procuravam cantoras, e não atrizes, para estrelar o seu espetáculo. Gottsha era exatamente o que procuravam. E lá estava ela em As Malvadas, de 1997. “Ganhou de cara o Prêmio Sharp. Nunca mais parei de fazer musicais”. Nesses 30 anos de carreira, foram 24 espetáculos nos palcos, afora os trabalhos na tevê, como nas novelas Ti Ti Ti (2011) e Senhora do Destino (2004), e nas séries, destaque para Chiquinha Gonzaga (1999). Também há espaço para a dublagem: a voz brasileira de Roz, em Monstros S.A., de Bulda, em Frozen I e II, por exemplo, são dela. Emoção e reflexão Mas é nos musicais que está em seu elemento. É onde materializa a atriz dos sonhos e se entrega à cantora que a vida lhe fez. “Fazer musical é das coisas mais difíceis, é onde aprendi a ser artista. Porque não adianta ser boa cantora ou boa atriz: tem que ser boa maratonista, estar em dia com a saúde, para estar plena no palco”. Das tantas personagens vividas – e cantadas – no palco, uma foi especialmente desafiadora para Gottsha: uma Madre Superiora, de A Noviça Rebelde, em 2017, também da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. “Fiquei em pânico. Não frequento (a igreja), mas sou católica. Ser madre superiora é uma responsabilidade muito grande, porque estava ali representando Deus de certa maneira”. Sagrado é o tempo. Em 30 anos, mundos nascem, mundos morrem. Na música, se a tecnologia, especialmente a IA, não dá as cartas, ao menos monopoliza o debate. Mas e a essência? “Infelizmente, sinto que a música deu uma empobrecida. Talvez a tecnologia de hoje até atrapalhe um pouco a verdade da música. Está tudo muito plástico. A gente precisa de mais amor, mais alegria, mais energia”. Gottsha é a voz que surge direto dos anos 90. Sem a nostalgia que descarta o novo, mas a que separa o joio do trigo. Retrato da maturidade, de quem viveu muito e respirou a arte durante 30 anos. “Foi uma época em que eu, a gente, foi muito feliz – e sabia que era”. O nome Quando, e como, Sandra virou Gottsha? O nome surgiu para batizar um trio, que além dela tinha um tecladista e um saxofonista. Um padrinho da cantora sugeriu: ‘por que não Gotcha, do inglês I got you (te peguei)?’. “Ele dizia que era minha cara, isso de pegar, pegar o público”. Sandra gostou da presença forte, da sonoridade, mas a ideia evoluiu. “Lembrei do meu sobrenome, Gottlieb. Em alemão, Gott é Deus e Lieb é amor. Pensei: ‘meu nome é Sandra, vou colocar o S e o A, as duas primeiras letras, e acrescento o H”. Então nasceu Gottsha, em 1992. Uma persona diferente da Sandra. “Ela é tímida, bastante simples. A Gottsha é esse alter ego, uma capa de proteção, carrega uma ousadia que a Sandra não teria”.