Produções de audiovisual se multiplicam por Santos nos últimos anos (Divulgação) Celeiro do audiovisual, Santos segue projetando novas vozes e rostos na produção brasileira. Entre tantas novas narrativas e atuações, estão as do ator, diretor e roteirista Matheus Akio, 32 anos, que destaca os financiamentos oferecidos pelo Poder Público como os principais responsáveis por esse cenário favorável do cinema nacional. “Com um edital, é possível competir em igualdade”, defende ele, em referência à estímulos como a Lei Paulo Gustavo (LPG). Aiko é um dos contemplados na região na categoria Primeiras Obras e conta que, assim como ele, colegas encontraram nos editais municipais, estaduais e federais a chance de tirar do papel curtas voltados à cultura local. “As pessoas que trabalham no set precisam se hospedar, comer, se deslocar. Tem costura de figurino, aluguel de locação, logística. Você ativa toda uma indústria, aquece a economia”, explica Matheus, que é formado em Administração com ênfase em Comércio Exterior, mas viu a chance de mudar de carreira diante do novo cenário do audiovisual. A Lei Paulo Gustavo, criada em 2022, em homenagem ao ator que faleceu na pandemia de covid-19, é uma iniciativa federal que direciona recursos do Fundo Nacional de Cultura para fortalecer o setor cultural. Nos municípios, esses recursos são aplicados por meio de editais, chamamentos públicos e outras formas de seleção, como o edital de Primeiras Obras, voltado a artistas iniciantes. O primeiro curta de Matheus, Processo Seletivo, foi aprovado no edital de São Vicente. Com a verba recebida, o diretor e roteirista ressalta que foi possível investir em “tudo o que era necessário para realmente fazer o curta acontecer”, como locação, equipamentos, equipe técnica, atores, alimentação e material gráfico. Ambientado dentro de uma grande empresa, o curta brinca com situações vistas em processos de contratação. “É uma sátira das relações de trabalho, situações inusitadas que acontecem em entrevistas de emprego. Algo meio no estilo The Office”, descreve. Mais projetos Outros projetos contemplados pelo edital de Primeiras Obras da LPG também usam a comédia para tratar de temas sérios. Roteirizado pelo estudante de cinema Bruno Cidrin, 19 anos, e dirigido por ele e pela atriz e produtora audiovisual Luiza Borges, de 20 anos, o curta-metragem A Sete Palmos de Santos utiliza pontos turísticos da cidade santista para falar sobre assuntos como bullying e depressão na adolescência. Na história, os amigos Eric e Gabriel convidam o colega da escola Kauã para uma festa que acaba dando errado. “A gente focou em uma mensagem importante, mas sem todo aquele peso”, afirma Luiza. Para ela, a melhor forma de compreender a seriedade de um assunto é “absorver a mensagem enquanto você se diverte”. A experiência proporcionada pela Lei Paulo Gustavo possibilitou que Bruno abrisse os olhos para “como realmente funciona o mundo do audiovisual”. Ele, que em sua adolescência pensou na história “aleatoriamente, inspirado num episódio de um desenho chamado Apenas um Show”, resume a importância que o curta-metragem tem em sua vida: “Eu me tornei adulto fazendo A Sete Palmos de Santos”. Santos se torna celeiro de talentos O fomento da indústria audiovisual na região resultou, em dezembro de 2015, na nomeação de Santos como Cidade Criativa da Unesco no campo do Cinema, tornando-se a única do Brasil – e uma das oito no mundo – a receber esse selo por sustentar uma infraestrutura que envolve festivais, salas públicas e formação de novos profissionais. Luiza, Bruno e Matheus são frutos dessas iniciativas. Todos são ex-estudantes da Fábrica Audiovisual, série de oficinas gratuitas oferecidas pela Prefeitura de Santos a quem se interessa por aprender cinema. “Eu não tinha recursos financeiros e tudo que eu aprendi foi com o que estava gratuito à minha disposição”, diz a diretora. Luiza Borges se sente realizada, Bruno Cidrin elogia ferramentas e Matheus Akio mudou de carreira (Divulgação) Com os recentes reconhecimentos do cinema nacional em premiações mundiais como o Oscar, o Globo de Ouro e o Festival de Cannes, temos “uma prova de que o nosso cinema é um ótimo cinema”, diz Bruno. “Isso se não for o melhor”. Para Luiza, porém, o brasileiro “ainda desvaloriza muito a cultura. Acha que não precisa de tanto investimento, que é uma coisa que está em segundo lugar. Mas a cultura forma pessoas. É ela que dá forma à sociedade”. Hoje, Bruno aconselha “se você tem alguma ideia, precisa dar muito valor para isso e focar nela”, pois, para ele, “daqui para frente, a gente só espera cada vez mais ir ao cinema para ver os filmes nacionais”. REPORTAGEM FEITA COMO PARTE DO PROJETO LABORATÓRIO DE NOTÍCIAS A TRIBUNA - UNISANTOS SOB SUPERVISÃO DA PROFESSORA LIDIANE DINIZ E DO DIRETOR DE CONTEÚDO DO GRUPO TRIBUNA, ALEXANDRE LOPES.