(Alexsander Ferraz/AT) Nascido José Jesuíta Barbosa Neto, em Salgueiro, no sertão de Pernambuco, em 26 de junho de 1991, este canceriano de 33 anos é tímido à primeira vista. Mas, em instantes, Jesuíta Barbosa se ambienta, sorri com um carisma sem igual e encara você com os seus expressivos olhos verdes, ávido por saber do outro tanto quanto o outro dele. É uma troca. Assim foi o bate-papo do ator com a Reportagem na última quarta-feira, durante a abertura da mostra “A cena e a vida: atuação no cinema brasileiro contemporâneo”, do projeto Cinebudega, que segue até 23 de julho no Sesc Santos. Um dos nomes mais notáveis e versáteis de sua geração, com uma voz doce e sotaque marcante de Pernambuco, ele falou sobre carreira, a oportunidade de interpretar o cantor Ney Matogrosso no filme Homem com H e suas duas maiores paixões, teatro e cinema. Você já que queria ser ator desde menino? Eu entendi que, talvez, gostasse de uma reprodução do que é real. Aos 16 anos, comecei a fazer teatro em Fortaleza (CE) e, aos 17, ingressei no curso de licenciatura em Teatro no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. O teatro entrou com gosto na minha vida. É o que gosto de fazer. Eu tenho essa formação de base e, nesse meio de caminho, surgiram o cinema e a televisão. E a paixão pelo cinema? Fazendo teatro, eu me interessei pelo audiovisual e pude fazer um filme com o Hilton Lacerda. Ele me orientou da melhor forma e fez Tatuagem (2013), que foi o meu primeiro filme. Você estreou na TV na série Amores Roubados em 2014. A TV foi um marco na sua carreira? Eu fiz TV com muito respeito à criação da cena por ter feito teatro e cinema. A televisão tem importância mesmo, mas fico feliz de ter feito obras mais próximas do cinema. Homem com H, de Esmir Filho, é um sucesso. Como foi interpretar Ney Matogrosso? O filme é vibrante, emocionante e sua atuação recebeu elogios. Eu sabia que seria um desafio, mas muito prazeroso. O Ney, dentro dessa grande arte que ele consegue traduzir tão bem, existe um mistério, mas também um espaço. Eu queria acessar esse espaço dessa personagem, recriar uma possibilidade de pensamento, de questionamento e de mistério. Como você se preparou para interpretar o Ney? Foram quase três meses e várias frentes, com ensaios de dança, de voz, de prosódia, de shows. É a melhor coisa para quem atua. Como você se sentiu com o Ney Matogrosso no set de filmagens? Esse filme foi uma das experiências mais transformadoras, do meu respeito por fazer cinema, de dividir um set com várias pessoas. Dessa vez, era mais especial porque o Ney estava ali. Eu queria pegar a energia dele, transmutar isso e queria que fosse registrado. Ouvir a voz dele no set e ao mesmo tempo fazer uma cena de uma pessoa que está ali do lado, eu tive tanto medo quanto coragem. É o seu papel favorito? Eu não tenho um papel favorito, não. Mas, as experiências que eu tive dentro dessa persona, do Ney... hoje eu canto e a minha voz chega num lugar mais alto do que antes, minha postura melhorou. Eu me impressiono com as coisas que ficaram em mim. Eu tento ficar com as coisas boas das personagens que faço. O Ney é uma referência de saúde, de dignidade, um cara ético com o trabalho dele, extremamente criativo e eu quero levar isso dele. O que você gostaria de fazer que ainda não fez? Eu gostaria de encenar um texto do cearense Rafael Martins. Você se transforma em cena. A gente não vê o Jesuíta, mas um personagem. Cada trabalho seu é uma persona única. Como você faz isso? Depende do projeto, às vezes é preciso mais fisicalidade, ou mais entendimento psicológico ou filosófico, ou ele é mais literário. Depende do projeto, da leitura do roteiro que é fundamental, do contato com o diretor. O que ainda falta no cinema brasileiro? A gente faz um trabalho bom, mas precisamos muito de bons roteiristas, de boas histórias e de formação de público. Eu fico feliz de poder ter um filme esse ano em cartaz. No dia 28, você estreará na peça Sonho Elétrico. Como será esse novo trabalho? É uma peça da Companhia Brasileira, dirigida pelo Márcio Abreu. Eu interpreto um vocalista de uma banda de rock que é atingido por um raio na cabeça e entra em coma. A história é sobre essa possibilidade de morte ou vida, de não entender se vai voltar ou não. É, também, uma crítica social sobre como a gente vive. Estará em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.