O jornalista e pesquisador Fabricio Mazocco selecionou 50 ‘causos’ do rock brazuca, desde os anos 50 até hoje (Divulgação) Senta que lá vem história. E do rock. Comemorado no Brasil na próxima segunda-feira, um dos gêneros mais populares do planeta acaba de ganhar o livro Esse Tal de Rock’n’Roll – 50 Histórias Essenciais do Rock Brasileiro, do jornalista e pesquisador Fabricio Mazocco. “Sabe aquela coisa de contar causo? Essa foi a minha ideia. Sou do Interior de São Paulo, de sentar na praça e contar histórias. Se você pegar do capítulo um ao 50, vai ter uma ideia da história do rock brasileiro, mas em histórias”, resume Fabricio. O livro também tem história. E ela começou ainda na infância de Fabiano, um fã declarado de rock. “Quando tinha oito, nove anos, estava estourando o rock dos anos 80”, recorda. “Ligava o rádio, tocava Blitz; ligava a tevê, tocava Barão (Vermelho)”. Ninguém passa incólume ao que se lê e ouve na pré-adolescência, Fabricio levaria essa referência para o resto da vida. Mas foi nos anos 90, já estudante de Jornalismo, que se aprofundou na literatura sobre rock – que hoje perfaz uma biblioteca de uns 200 livros ‘roqueiros’, incluindo as biografias de Caetano Veloso e Alceu Valença... mas, pera: roqueiros?! “Caetano, da Tropicália... o disco de 1975 do Alceu é um dos maiores que nós temos de rock (Vivo!, registro ao vivo do show Vou Danado pra Catende). Belchior era fã dos Beatles, Lô Borges, o Clube da Esquina... tudo isso dialoga com o rock, o progressista, o rural, lá dos anos 70”, explica, sem esconder o entusiasmo. Pesquisa e lacuna Jornalista, com doutorado em Ciência Política, Fabricio resolveu aplicar os conhecimentos da pesquisa na sua paixão: o rock. Em 2019, lançou Contrapontos, a biografia do guitarrista Augusto Licks, ex-Engenheiro do Hawaii, em parceria com Silvia Remaso. A ideia para o livro, que apresenta 50 histórias do rock nacional em todos os tempos, surgiu de uma lacuna observada por Fabricio. “Há muitos livros, alguns contando histórias do rock, mas de uma maneira acadêmica, relatorial. Eu sentia falta de contar umas histórias curtas do rock, numa linguagem mais solta”. Um dos editores, Luiz André Alzer (que, aliás, é também coautor de A Vida Até Parece uma Festa, biografia dos Titãs, e do Almanaque dos Anos 80) pediu para que Fabricio reunisse as histórias para o livro. “Só de pensar, levantei umas 400 histórias”, ri. Depois de dar uma ‘enxugada’ no material e ampliar o escopo – afinal, o rock no Brasil não se resume aos anos 80... – chegou às 50 histórias narradas no livro. A primeira voz, samba-canção Fabricio garimpou no fundo do tempo. Conta, por exemplo, do nascimento do rock no País. Foi em 1955, quando a cantora Nora Ney, já conhecida por seus boleros e sambas-canção, gravou o Rock Around the Clock, de Bill Halley e seus Cometas. “A canção entraria no filme Sementes da Violência (Blackboard Jungle, com Glenn Ford), no Brasil, com o nome Ronda das Horas, mas cantada em inglês”, conta. “Escolheram ela porque já era famosa e sabia muito bem o inglês”. O rock só foi ‘debutar’ em português dois anos depois, em 1957, na voz de outro artista já consagrado: Cauby Peixoto, então com 26 anos, gravou Rock’n’Roll em Copacabana, composto por Miguel Gustavo Werneck de Souza Martins. Estrutura Um problema – o ‘bom problema’, diga-se – é a riqueza de histórias envolvendo alguns personagens. “Se eu pegar só Rita Lee e Raul (Seixas), dá um livro inteiro, cada um. Se for o Tim Maia, são três volumes”. Assim, concentrou as forças no que é mais relevante ou pitoresco de cada um. No caso da Rita Lee, há dois episódios: o da saída dos Mutantes, em 1972, e o da prisão da cantora, em 1976, sob acusação de porte de maconha – Rita foi veemente ao afirmar que a acusação fora plantada, porque estava grávida de três meses do primeiro filho, Beto Lee, e não estava envolvida com drogas. “Eu não tive a pretensão de contar a história do rock nacional. Porém, há ali um pouco da história. Se alguém conhece bem a história do rock nacional, terá alguma novidade; se não conhece, também”, resume Fabrício. Serviço: Esse Tal de Rock’n’Roll - 50 Histórias Essenciais do Rock Brasileiro, de Fabricio Mazocco. Editora Máquina de Livros. R\$ 74,90. Disponível no site. Punk Rock Uma das histórias que Fabricio mais gostou de escrever foi sobre o movimento do punk paulista, do início da década de 80. “Diferente do punk de Brasília, em que todos eram filhos de diplomata, de professores universitários, ali você tinha um rock feito por um pessoal que, de dia trabalhava em fábrica, e à noite fazia punk rock”, descreve. Entre os ‘causos’, e diferente dos abastados punkeiros de Brasília, cujos os pais traziam discos e instrumentos para os filhos, o acesso às novidades era mais árduo. “O Clemente (das bandas Plebe Rude e Inocentes) conhecia um cara em Santos, no Porto, que recebia os discos de contrabando da Inglaterra e passava pra ele”. ‘Raul Lennon’ O encontro de Raul Seixas e Paulo Coelho com John Lennon é uma das maiores lendas do rock brasileiro. Segundo Fabricio, Raul e Paulo inventaram a história quando moraram um período na Big Apple, em 1974. Os dois chegaram a escrever um texto sobre o encontro e enviar para a imprensa brasileira. “O máximo que os dois conseguiram foi chegar na porta do Dakota (edifício onde morava o ex-Beatle) e perguntar: ‘O John Lennon está?’ para receber a resposta do porteiro: ‘Não”. Qual é o dia? O Dia Mundial do Rock no Brasil é celebrado segunda-feira, 13 de julho, data em que ocorreu o festival beneficente Live Aid, organizado por Phil Collins, em 1985. A consolidação da data no calendário foi uma iniciativa de emissoras de rádio paulistanas, na década de 90. Ou seja, pouco ou nada a ver com o rock brazuca. Para Fabricio, 24 de outubro ou 30 de janeiro (respectivamente, as datas em que Nora Ney gravou o primeiro rock, ainda em inglês, e a que Cauby Peixoto inaugurou em disco o rock feito no Brasil) seriam datas mais condizentes com o gênero no País.