[[legacy_image_103778]] Alguém sabe quem é António Emílio Leite Couto? Ainda que a resposta seja negativa, não há motivo para acanhamento: durante muito tempo, nem ele próprio soube. Mas se escrevermos Mia Couto, moçambicano com mais de 30 livros publicados e um punhado de prêmios literários conquistados (entre eles, o Camões), já se sabe de quem se fala: um dos maiores escritores da Língua Portuguesa. Mia acaba de lançar no Brasil O Mapeador de Ausências (Companhia das Letras), um de seus livros mais autobiográficos, em que revisita memórias de infância e a devastação da guerra de independência do país (1964-1974). Nesta entrevista exclusiva, Mia fala sobre o seu caminho literário, pavimentado por Guimarães Rosa, sobre o fenômeno do negacionismo e um futuro pós pandemia. Biólogo por formação e atuante também nessa área – é diretor de uma empresa que avalia impactos ambientais – vê a Biologia por um prisma holístico, de relações interdependentes entre os seres e a terra. Da mesma forma vive a Literatura, especialmente a poesia: pela interdependência das palavras, criam-se novos sentidos, muitas vezes para a vida.Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! O seu pai, Fernando Couto, era jornalista e poeta. O quanto que a sua Literatura veio de berço? Meu pai deixou uma impressão de ausência. Ele estava sempre em casa, mas tinha uma forma tão delicada e gentil de estar, de existir, que parecia não ter peso. Ele vivia de uma forma poética, com pouco contato com a realidade. Só agora nós percebemos que essa ausência era falsa, pois ele criou as bússolas, os faróis. Através dessa leveza, nos chamou a atenção ao mais importante: a história das pessoas anônimas. A origem do seu apelido tem a ver com o ‘miar’, dos gatos. Como é essa história? Vivíamos em uma casa colonial, com varanda. Nessa varanda, minha mãe deixava comida, água, e os gatos da rua vinham à noite. Eu vivia com esses gatos, havia fotos d’eu dormindo, comendo com eles. Minha mãe começou a pensar que não era somente porque eu gostasse de gatos, mas que eu não sabia qual era a fronteira entre ser humano e um bicho. Eles contam que, quando tinha uns 3 anos, eu declarei que me chamaria Mia, em homenagem a esses gatos. Fizeram piada no início, mas aceitaram, me deram direito a me rebatizar. Ficou sendo assim, eu próprio já não sabia que tinha outro nome. Só quando fui à universidade, é que topei com o nome oficial. Você escreveu os primeiros poemas aos 14 anos. Aos 17, em 1972, você largou tudo para lutar na guerra pela independência. Esse ‘largar tudo por um ideal’ não deixa de ser um ato lírico, não? O dia em que me ofereci para integrar as fileiras, fui levado a um bar suburbano, à noite. Era uma casa às escuras, com uns 30 homens, negros e mais velhos. Eu era o único jovem e branco. Havia uma mesa com três homens que escolhiam quem iria ingressar na Frente de Libertação de Moçambique. E havia uma coisa chamada ‘narração do sofrimento’. Cada pessoa se adiantava junto à mesa e fazia sua narração. Bom, não éramos ricos, mas meu pai era jornalista, eu era filho de gente privilegiada. Pensei: ‘tenho que inventar um sofrimento grave’. Mas quando chegou o momento de me apresentar, não consegui dizer nada. Uma das pessoas à mesa perguntou: ‘és o jovem que publicou uns poemas no jornal?’. Eu confirmei. E ele: ‘Pode entrar, precisamos de poesia’. Você é biólogo por formação. De que forma a Biologia influi na sua Literatura? Há mais de uma Biologia. A que eu sigo é holística, quer recuperar aquele sentimento de uma visão orgânica do mundo e não organicista. Durante um tempo não houve espaço para essa Biologia. Hoje, ela vem sendo recuperada, pois se não entendermos a Terra como uma entidade viva, teremos problemas. A Biologia que sugere ser preciso estudar relações, e não entidades separadas, é muito próxima da poesia, procura apanhar em flagrante os diálogos silenciosos da natureza. García Márquez (escritor colombiano) disse que ler A Metamorfose, de Kafka, foi uma revelação. Para você, quem ou quais autores foram revelação? Guimarães Rosa foi uma revelação. Percebi em Luandino Vieira, escritor de Angola que esteve 14 anos em uma prisão do governo colonial fascista, em Cabo Verde. Um dia, na cadeia, ele recebeu o Grande Sertão. O chefe da polícia, que controlava os livros, chamou os colegas: ‘esse livro está tão mal escrito, não tem problema de entrar’. Luandino percebeu o quanto aquela linguagem era próxima da oralidade dos angolanos e começou a usar em sua própria Literatura. Mais tarde o conheci, perguntei onde tinha que buscar isso. ‘Tens que ir atrás de um João, que é brasileiro’ (risos). Na sua ficção, há personagens que sonham realidades para seguir vivendo. Você acha que nós perdemos a capacidade de sonhar? Acho que não. Mas é difícil falar da espécie humana em uma essência, ela tem circunstâncias. Sonhar, contar histórias, é absolutamente vital para nós. Por isso, o sonho é olhado com suspeita, porque não se governa. É um diálogo com qualquer coisa que não sabemos o que é. Como você imagina que o mundo sairá da pandemia? O grande desafio é olhar sem medo, mas com verdade, que isto que chamamos de humanidade não existe como a gente pensa. Há várias sociedades vivendo em tempos e condições diferentes. O que nos une é o pior, um sistema econômico, ou de mercado, que olha para o mundo como qualquer coisa que produz, que tem que ser rentável, olhado como recurso. Acho extraordinário que se chame as coisas vivas, montanhas, rios, etc, como recursos. Não se pode aceitar essa situação em nome de algo que não existe, a humanidade, pois não são as pessoas todas culpadas por esse grande desastre ecológico: o responsável por isso é essa maneira de produzir riqueza. A pandemia evidenciou ainda mais as fake news e o negacionismo. Como você enxerga isso? A surpresa é perceber o quanto esse negacionismo estava espalhado e não sabíamos. O mais simples é sempre culpar o outro. Mas, o mais importante, é questionarmo-nos, os que querem uma atitude progressista, mais igualitária, mais justa, perguntar onde falhamos. Muitas vezes, a ciência deixou de aceitar que é busca, que não tem a resposta definitiva, que não está criando leis para o mundo, mas está em conversas com o mundo para ver como se ajustam as coisas. Na pandemia, aconteceu da ciência perceber que não percebia. E muitas vezes não assumia isso com toda a verdade. Mapeador de Ausências é dos seus livros mais autobiográficos. Onde termina o real e começa a ficção? Percebi que esse passado que eu queria buscar existia em histórias. E não eram histórias minhas. Superavam o quadro familiar. Percebi que podia contar essa história de minha infância e adolescência, justamente porque me apago ali: chega-se ao fim, mas não estou lá. Eu bato a porta, mas quem sai do outro lado é um outro tempo, o desmoronar do período da administração colonial. O Brasil conhece pouco a África, que é um de seus pilares. Um país que se desconhece pode encontrar o seu lugar no mundo? Desde que comecei a ir ao Brasil, há uns 30 anos, há um desencontro dos brasileiros consigo mesmos, que tinha uma certa graça: pensava que era uma vantagem um país não ter um retrato já definido e, portanto, não ter moldura. Mas eu romantizei um Brasil que não existe. Meu pai nunca esteve aí, mas amava o País, passou pra nós a ideia de que o Brasil existia por causa de Drummond, Clarice Lispector, João Cabral; depois com a música, Chico Buarque, que nos traziam uma língua com a qual a gente sonhou. Foi difícil começar a perceber que o Brasil era várias outras coisas. E chegamos a um país polarizado. Nada se compara a uma guerra civil como a vivida em Moçambique, mas, às vezes, parece que falta pouco para as pessoas se agredirem por aqui. Uma guerra não começa com tiros, mas quando se desumaniza o outro: portanto, estamos autorizados a eliminá-lo. Essa operação, no Brasil, está feita, está-se legitimando a agressão contra o outro. Noto que essa fábrica do ódio está centrada, hoje, em quem está no poder. Mas é preciso também olhar para nós próprios: o quanto nós somos responsáveis pelo que está acontecendo? É preciso coragem para buscar a nossa própria falha, dos que querem defender a democracia. Uma tiragem normal de livros no Brasil, hoje, é de mil exemplares. Vivemos uma crise de leitura? Quem lê sempre foi uma minoria. Talvez seja uma marca de nascença da própria palavra: ler vem do latim, elegere, de escolher. O grave é deixar de ler no sentido de deixar de escolher, de avaliar o mundo e tomar as próprias decisões com algum fundamento. O que me dá muito sofrimento é a forma como deixamos de ler o outro, de ler o rosto, de estarmos completos, inteiros, pra saber quem chega. Mas estamos a olhar para uma tela. Para que serve, qual a função da Literatura? É vital para encontrarmos um sentido no caos em que vivemos. Quando contava histórias aos meus filhos, tinha que repetir igualzinho as mesmas, senão eles reclamavam ‘não é assim!’. Há essa necessidade de dar um sentido, criar esse espaço de segurança. A Literatura não nasceu no livro, começa nesse primeiro prazer, vital, de ouvir histórias e depois contá-las.