Em uma das edições, alunos da 5ª série da UME Demóstenes Britto receberam José Roberto Torero (Sílvio Luiz/AT) Era uma vez uma árvore em uma biblioteca. Mesmo sendo uma pintura na parede, em uma manhã essa árvore deu frutos. Assim foi o encontro entre o escritor José Roberto Torero e os alunos da 5ª série da UME Antônio Demósteles Britto, como o encerramento do projeto Porto Literatura (veja mais ao lado) na escola. Em tempo: a biblioteca, e sobretudo a árvore, são reais. “Ajuda bastante a formar leitores. A escola que faz (esse tipo de trabalho) já sai na frente”, comenta Torero, que está acostumado com essa dinâmica, especialmente na Capital. “As escolas municipais na Zona Leste (de São Paulo) são ótimas”, afirma. Ótimas também são as crianças. Torero lembra uma das perguntas mais inusitadas deles: qual foi o seu maior fracasso? “Sensacional. Geralmente, se pergunta qual o maior êxito”. Durante pouco mais de uma hora, Torero conheceu seus pequenos leitores. Que não ficaram atrás nas perguntas cheias de imaginação e anseio de futuro. Por exemplo: escrever é fácil ou difícil? “É como jogar futebol: é fácil e difícil. Mas, como no futebol, tem que treinar”. E por que escrever? “Porque é muito parecido com brincar”. O encontro foi a ‘cereja do bolo’ de um trabalho da obra Árvores, de Torero, com os alunos. Após a leitura, os estudantes expuseram em desenhos as interpretações da história. “É muito importante para pegar o gosto pela leitura”, afirma a diretora da UME, Nalu Tobias. Para a supervisora de ensino Denize De Simone Ferreira Miranda, a presença do autor dá mais significado à leitura. “Quando você lê, o autor está longe. A presença é uma ratificação (da leitura)”. “Os futuros” “Nunca conheci um escritor antes”, encantou-se Giovanna Souza Torres, de 11 anos, após o encontro. Ela diz que gosta de ler e enumera: leu uns 11 livros este ano. O melhor? Diário de Uma Garota Nada Popular, de Renee Rachel Russell. Quando crescer, quer ser psicóloga. “Porque gosto de conversar, ver o lado positivo das coisas”. Guilherme Monteiro de Souza, também de 11 anos, achou o encontro com Torero muito interessante. Mas não pensa em ser escritor: quer ser mesmo é jogador de futebol e atuar na ponta esquerda. “Meu pai fala que eu devo jogar no Corinthians. Mas eu quero jogar com meu amigo, no Palmeiras”. Já Davi Anderson, outro dos alunos com 11 anos, não pensa tanto em futebol: ao contrário, quer ser escritor quando crescer. “Tem muita atitude (profissão)”. Para ele, conhecer o autor “aumentou o encanto” pela leitura. Também com 11 anos, Mariana Silva Bredariolli se considera uma leitora. Este ano, já foram 14 livros. A preferência é pela série Harry Potter. “Foi uma experiência legal conhecer o autor”, disse, sobre o encontro. E sobre o futuro, pretende ser advogada criminal. “Gosto de solucionar problemas”. Então não seria melhor ser policial? “Minha mãe me deu essa ideia de advogado criminal. É mais legal”. Kendra Pereira, 11 anos, gosta mais ou menos de ler. “Depende do livro”. De Árvores, trabalhado no projeto, ela gostou. “Achei bem feito”. Ela não quer ser escritora, mas “empresária de negócios” ou cantora. De que estilo? “Gosto de música animada e funk. Mas não pode ter palavrão”. Ah, bom. Torero: ajuda a formar leitores (Sílvio Luiz/AT) O projeto Inspirado no projeto Adote um Autor, de Porto Alegre, o Porto de Literatura foi responsável pela doação de 850 títulos, em 14 escolas municipais de Santos. Mas, ao contrário da inspiração porto-alegrense, que abre uma seleção para autores de todo o País, o Porto de Literatura se concentrou em escritores santistas. Desta edição, participaram 13. “É uma oportunidade dos autores contemporâneos serem conhecidos”, afirma Vanessa Ratton, idealizadora do projeto e colunista de A Tribuna. Foram três meses de projeto, de setembro a novembro, com as doações de livros e trabalhos em sala sempre culminando com a visita dos escritores, para um bate-papo. “As crianças perceberem que o autor existe, que elas podem ter contato, conversar com ele, que é da cidade dela”, afirma Vanessa. O patrocínio desta primeira edição é da Autoridade Portuária de Santos. Para o ano que vem, Vanessa espera ampliar o alcance. “Desejamos atender muito mais. Só em Santos, são 54 escolas com bibliotecas, às quais eu gostaria de levar novos livros”.