Uma das vozes mais inusitadas – e potentes – da música brasileira, o contratenor Edson Cordeiro estará em Santos, neste sábado (1°), para se apresentar nos 19 anos do projeto Chorinho no Aquário. Edson, que já cantou de música clássica a disco music, faz no palco homenagem a Carmem Miranda. Aliás, a versatilidade talvez seja a principal característica do cantor de 59 anos, nascido em Santo André, que foi descobrindo na arte ainda o seu caminho de vida. Nesta entrevista, ele recorda o início da carreira, a opção que teve de fazer pela música – Edson atuava mais como ator, tendo inclusive participado das montagens de Hair, em 1988, dirigida por Antônio Abujamra, e de O Doente Imaginário, por Cacá Rosset, um ano depois. Também fala da luta pela afirmação LGBTQIA+, que sempre transcorreu de forma natural, em meio ou por causa da sua expressão artística. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como você descobriu a arte? Quando percebeu que a música e o palco o atraíam? Minha mãe entrou na Igreja Evangélica quando eu tinha uns seis anos. Havia muita música, muito louvor. Despertou um certo encantamento com a música dentro da igreja. Mas eu nunca pensei que seria uma carreira, um trabalho. Muito pelo contrário: dentro da igreja não se estimula a ideia de fazer isso como um trabalho, afinal, louvor é litúrgico. Mas foi uma oportunidade de descobrir que eu gostava muito de cantar. Depois, adolescente, a minha ideia era ser ator, como fui e sou. Eu achava que iria cantar no teatro, mas não que seria um cantor solo. No final dos anos 80, trabalhei no Grupo Anchieta, do Cacá Rosset e, nessa época, meu empresário falou: ‘você tem que decidir o que você quer, fazer teatro ou cantar’. A sua voz única já não chamava a atenção desde pequeno, na sua família? Mais ou menos. Na verdade, o fato de eu gostar de cantar, representar e dançar, às vezes incomodava todo mundo ao redor. Eu tenho três irmãs, todas brincavam, eu era até meio rejeitado pela voz muito aguda. Nunca foi algo estimulado pela minha família. Quando eu saí da igreja e falei que iria cantar profissionalmente, minhas irmãs ficaram com medo do que poderia acontecer na minha vida. Numa família religiosa, isso não era bem visto. Você teve um evento traumático lá, que te fez largar a igreja. O quanto mexeu com você para a vida? Sofri abuso quando tinha 13, 14 anos. Foi algo realmente terrível. Nunca mais fui o mesmo. O que mudou foi minha forma de não depositar toda minha confiança nas pessoas. E o cuidado que eu tenho com a ideia de ter gurus, pessoas que me guiem espiritualmente, isso está completamente fora da minha vida. Mas o fato de eu ser ateu, hoje, está mais ligado ao meu desenvolvimento intelectual, pelos livros que eu li, por várias coisas que entraram na minha vida após a igreja. Esse pastor (o abuso) foi o momento em que eu cortei a religião, num momento perigoso da vida, da adolescência, em que se faz tudo de maneira passional. E a religião estava indo por esse caminho de fundamentalismo. Nesse sentido, foi então uma ‘libertação’ o mal que ocorreu? Foi, sim. Mas eu preferiria que as libertações fossem de maneira mais tranquila. Os traumas, as violências, testam nosso limite. O meu limite é meu corpo. Fui no limite para poder dizer: ‘daqui ninguém passa’. São os momentos de violência que às vezes te fazem pensar ‘tenho que mudar, antes que seja tarde’. No momento em que você optou pela música, no fim dos anos 80, ainda não haviam se consolidado os grandes musicais no País. Teria sido diferente a sua carreira? Havia teatro com música. Mas eu trago o teatro sempre comigo. Esse show, por exemplo (da Carmem Miranda), é teatro de revista. Eu estudo a personagem, a pessoa, como se fosse uma peça. Há algum tempo, eu fui gravar uma música do Noel Rosa, Tipo Zero. Eu li a biografia inteira dele. Eu me aproximo da música pelo teatro. Você é um ator que canta ou um cantor que atua? Sou tão bom ator, que eu convenço as pessoas de que canto (risos). Isso é brincadeira. Mas você canta absolutamente tudo. Uma característica sua é a versatilidade. Você gosta de quê? O que costuma escutar? Sou muito encantado pelas cantoras. Acho que porque eu tenho uma família muito feminina, três irmãs, uma mãe maravilhosa, e eu sempre achei que à mulher foi dado o direito de expressar emoção. Na parte masculina da minha família sempre foi assim de ‘homem não chora’, não se mostra vulnerável. Quando ouço uma mulher cantando, me chega muito mais à alma. Clara Nunes, Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, sou muito fã das mulheres, mesmo sendo homossexual. Por que o show sobre Carmem Miranda? Pelos 70 anos da morte dela, em 2025? Muitas coisas. Eu nasci no mesmo dia que ela (9 de fevereiro). Eu conheci o repertório dela quando era criança, pela Maria Alcina, que é outra cantora de que gosto muito. A gente é meio um arquivo, tem sempre que apresentar o outro que veio antes. E Maria Alcina fez isso, a mim, com Carmem. Fui atrás de quem ela era e sou absolutamente apaixonado. Edson, que já cantou de música clássica a disco music, faz no palco homenagem a Carmem Miranda (Marcelo Castelo Branco/Divulgação) Como você avalia a importância da Carmem Miranda na música brasileira? Considera que ela tenha sido colocada de lado? Até eu sou colocado às vezes nessa situação: ‘ah, ele foi pra Alemanha (onde morou por quase 20 anos) porque ninguém o valorizava aqui no Brasil’. Esse lamento não vem de mim. Acho o mesmo com Carmem Miranda, que saiu do Brasil para cantar em Hollywood, foi fazer filmes, ela era a maior vendedora de discos do País. Ela não foi para ser reconhecida, foi potencializar ainda mais. Ninguém chegou tão longe até hoje quanto ela. Você colocou bailarinos seminus no palco, nos anos 90, durante o projeto clubbing (de dance music), numa época em que isso não era usual. De onde veio a ideia? Foi um movimento de afirmação, de visibilidade LGBTQIA+? Nunca fui uma pessoa que esteve no armário... sempre falei abertamente sobre sexualidade. Na época, a gente estava no auge das dançarinas ‘disso e daquilo’. Aí eu tive a ideia: ‘por que é sempre a mulher que tem de se expor?. É sempre esse presente para o homem. Quem manda na tevê, nas gravadoras? São homens. Eles acham que tem de ser entretenimento só para eles’. Então pensei em fazer algo do ponto de vista feminino e gay, no sentido de fazer algo que fizesse com que a mulher ficasse contente de ver um homem bonito. Que o homem se expusesse para a mulher. Quando comecei a fazer isso na tevê, os câmeras não sabiam como me focalizar (risos). Eles eram cantores que dançavam. A produção foi feita pelos melhores da música eletrônica da época, fiz tudo com muito bom gosto. Eu acho que o erótico é arte, se bem feito. E um bom entretenimento. Então foi isso: vamos entreter as amigas. Lá se vão 30 anos. Como você as questões LGBTQIA+ hoje? Houve avanços? Acho que a nova geração de artistas, políticos, ativistas é muito mais preparada que a minha. Mas se vê uma força positiva, de libertação, vem uma onda muito forte contrária. Na parada gay de Berlim houve um atentado. Quando fiquei sabendo, me assustou muito. Quer dizer, você dá três passos à frente, vem e te empurram para trás de novo. Claro que se desenvolveu muito. Eu ando no centro de São Paulo, vejo casais de mãos dadas, mas não dá pra achar que já se chegou lá. Por isso que quando as pessoas vêm com ‘ah, é muito mimimi’, tem que responder ‘é porque você não vive na pele’. Você já chegou a sofrer preconceito, rejeição ou violência? Sim, de várias formas. Até na Alemanha, eu e o Oliver (Schrank-Bieber, escritor de livros infantis e ilustrador, casado com Edson há 16 anos) fomos vítimas de homofobia. O Oliver levou uma pedrada na cabeça em Viena. E a Alemanha está passando por um momento muito difícil com o retorno do Nazismo à política. A gente vive assim ainda, ‘será que eu tô provocando alguém?’. Então, a gente nunca baixa a guarda. Você recentemente se pronunciou sobre etarismo. Como a idade chegou pra você? A gente tem que se adaptar em qualquer profissão. Tem que saber envelhecer. Eu nunca fui o galã, nunca usei minha sensualidade para adicionar ao meu trabalho – acho bonito quem faz isso, tem quem faça muito bem. Eu sempre fui o ‘ah, ele é aquele que canta’. Às vezes nem sabem meu nome, mas sabem que eu canto (risos). Tenho responsabilidade de cuidar desse instrumento, a voz, que está sujeito às mudanças da vida. A gente tem que entender para não comprometer a performance. Se adaptar, para mostrar a mudança, em vez de decadência. Houve um período em que você cantou na rua... Foi lindo! A rua foi importantíssima. Era uma época em que eu tentava cantar em banda, achavam estranho. Ensaiava uma vez, não me chamavam mais. Eu trabalhava no McDonald’s na Rua São Bento, em São Paulo, via os músicos tocando e fui lá, cantar a capela. Foi a primeira vez que eu senti a minha voz parando a ruas, as pessoas diminuindo o passo e até pagavam para ouvir. Senti que poderia dar certo, que eu não estava ficando louco. Como você as questões da Inteligência Artificial na música? Sendo bem honesto, não sou uma pessoa tecnológica. Sou casado com um escritor e ilustrador de livros e eu sou cantor. Duas das profissões mais antigas do mundo. Quanto mais as coisas se plastificam... acho que vão restar algumas pessoas fazendo coisas muito antigas, como subir num palco e comunicar. Essa criação, a emoção que o palco dá, que acontece há milênios, ninguém vai tirar de mim, é a única coisa que eu sei fazer. Que existam alguns que queiram ver alguém cantando, suando, errando e acertando... porque tudo que é muito certinho, polido, é chato. A arte é isso: o risco, o que também não deu certo. Você morou muito tempo na Europa. Sentiu choque cultural, seja quando foi ou ao voltar? Não. Sempre preservei em mim o caos de ser brasileiro. Sempre levei para onde fui. Porque também vivo em um mundo chamado música, é o que eu tinha a oferecer aos alemães. Cantei seis anos com uma banda de jazz alemã e eles viam certas brasilidades atávicas, na minha música, que eu mesmo não conseguia perceber. Acabei me vendo melhor como brasileiro pelos olhos deles. Agora, tem muito brasileiro que não se adapta porque fica procurando a si mesmo nos outros. Qual a diferença entre o público brasileiro e o alemão? O alemão vem para assistir ao show; o brasileiro vem fazer o show (risos). Quais seus planos no Brasil? Tem algum álbum engatilhado? Tem. O Zeca Baleiro vai produzir um disco com o repertório da Carmem Miranda. E fui convidado pra fazer uma peça de teatro, ano que vem, talvez eu faça. Qual teu maior sonho? É cantar para um país mais alegre. Um país que mereça a alegria que o faz tão famoso pelo mundo. Que ninguém destrua isso da gente.