E o vento vai levando tudo embora. Nem tudo. Neste domingo (11) completaram-se 30 anos da morte de Renato Manfredini Júnior. Renato Russo, porém, está além do vento, além do tempo: ele vive, por exemplo, na primeira frase deste texto, pinçada da canção Vento no Litoral, de 1991. Aliás, ao lado de Dado Villas-Boas (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria), o vocalista e líder da banda Legião Urbana vive em muitas outras letras e canções, nos corações de milhões de pessoas que cresceram com a música da Legião – hoje eterna. Uma dessas pessoas é João Barone. Baterista de Os Paralamas do Sucesso, na verdade ele cresceu ao lado das músicas da Legião. “Eu vi o Renato antes da fama, quando a galera de Brasília ia para o Rio e ficava hospedada na casa do Bi (Ribeiro, baixista dos Paralamas)”. Barone recorda os ensaios na “casa da vovó Ondina”, de Bi Ribeiro (que renderia a canção Vovó Ondina É Gente Fina, dos Paralamas). Quando terminavam, iam todos para uma das lanchonetes da antiga rede Gordon, no Rio de Janeiro, para noitada de hambúrguer e milk shake. "A gente nem tomava cerveja na época", sorri Barone. "Ficávamos lá, fazendo planos de conquistar o mundo". O mundo de Renato era bem vasto. O próprio Herbert Vianna, guitarrista e vocalista dos Paralamas, já distinguia a inteligência e a erudição de Renato Russo, como recorda Barone. "Ele discutia Filosofia com o Herbert, com o Hermano (irmão do Herbert). Era Schopenhauer, Kant... a elite filosófica, sociológica". João Barone, baterista de Os Paralamas do Sucesso, conheceu Renato antes da fama (Reprodução) Plano de comoção Apesar de Barone vislumbrar em Renato desde o princípio um "plano de causar comoção", de atingir as pessoas com sua música, o sucesso avassalador foi um fardo para o vocalista da Legião Urbana. “A gente viu o fenômeno da Legião acontecer diante de nossos olhos (...) e eu comecei a ver o Renato como o cara em conflito, essa coisa do alto nível de pensamento, com a popularidade que ele nunca imaginou ter com aquele discurso”. Um discurso cristalizado em canções como Geração Coca-Cola, Índios e Que País É Este?, que "apontam o dedo na cara da sociedade". Renato temeu o messianismo envolvendo o nome da Legião nessa época. Em junho de 1988, em um show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, o público invadiu o palco e houve um quebra-quebra generalizado, com saldo de 400 feridos. "A partir daí, tentou botar água na fervura, começou a falar do é preciso amar as pessoas, tentou aproveitar essa unanimidade dele para passar uma mensagem construtiva, quase uma autoajuda, no bom sentido". Sexualidade e fascismo Explica a grande fúria do mundo: outro ponto de conflito para Renato era sua sexualidade. Como todo mundo, desejava ser aceito como é. "Depois ele assumiu, de forma ousada, numa época em que havia muito preconceito". Barone relembra ainda uma entrevista de Renato à MTV, em março de 1994, em que criticava e alertava para o retorno da simpatia ao fascismo no mundo – ou seja, 30 anos atrás. "É terrível ter que reconhecer isso como uma profecia do Renato sobre o que estamos vivendo. Infelizmente, ele nos deixou. Renato faz muita falta". Para Julinho Bittencourt, Renato Russo e a Legião Urbana têm uma força incontestável (Alexsander Ferraz/AT) Uma obra singular no rock dos anos 80 "Eles (Legião Urbana) têm uma das obras mais singulares daquele período (anos 80)", acredita o jornalista, músico e colunista de A Tribuna Julinho Bittencourt, que confessa ter demorado para gostar da música do Legião Urbana. Apenas quando morou em Brasília, em dois períodos, entre 2004 e 2016, foi se "apaixonar pela música do Legião e do Renato". A 'conversão' ocorreu por obra de amigos locais e pela própria geografia da cidade: a vastidão sem prédios, o céu enorme. "Eu entendi, me remete às melodias melancólicas, às letras extensas são muito tocantes", analisa. "É muito de quem está questionando a própria vida o tempo inteiro, lutando contra o derrotismo, esperando o que há de melhor". Para Julinho, as letras são "maravilhosas", tanto do ponto de vista social como pessoal, "sempre se colocando nelas". Inclusive, classifica Vento no Litoral como uma das canções de amor mais belas da música brasileira. Poeta ou músico? Pela qualidade do que escrevia, Renato Russo é visto por muitos mais como letrista, um poeta, do que como músico. Julinho refuta esse 'enquadramento'. Embora sejam assinadas por todos da banda, as canções têm uma marca. "Não quero cometer a injustiça de que o Bonfá e o Dado não fizeram (as músicas), mas mesmo em parceria, as canções têm uma assinatura indisfarçável do Renato", avalia. E acrescenta: "Falam isso do Bob Dylan, mas você imagina o que seria das letras dele sem suas melodias?". A Legião Urbana tem uma força incontestável. Se Renato estivesse vivo, Julinho acredita que o grupo estaria até hoje lotando estádios pelo Brasil. "Pode haver bandas que até toquem melhor, mas eles, no todo, são a banda mais interessante da década de 1980". Vida Renato Russo nasceu em 27 de março de 1960, no Rio, onde morou até os seis anos. Filho de um economista, mudou-se para Nova Iorque, para onde o pai foi transferido, pelo Banco do Brasil. De volta ao País, em 1973 a família se fixou em Brasília. Foi lá que Renato passou a adolescência e começou a flertar com a música, influenciado pelo punk, em paralelo ao curso de Jornalismo na Universidade Federal de Brasília. Em 1978 conheceu Fê Lemos, com quem começou a banda Aborto Elétrico, tendo logo após Flávio Lemos no baixo, e Ico Ouro Preto, irmão de Dinho. Quando começaram a ganhar certa fama em Brasília, Renato e Fê brigaram e a banda se separou. Tempos depois, com Marcelo Bonfá (bateria), Renato Rocha (baixo) e Dado Villa-Lobos (guitarra) formou a Legião Urbana, que seguiu com essa formação até 1989, quando Renato Rocha saiu. Até 1997, foram oito álbuns de estúdio e três ao vivo. Em 2020, haviam vendido 30 milhões de álbuns. No final de 1990, durante um período de internação para desintoxicação, foi confirmado que Renato Russo estava com o vírus HIV. Ele morreu em 11 de outubro de 1996, no Rio, por complicações da aids, aos 36 anos. Deixou o filho Giuliano Manfredini, adotado pelo músico anos antes.