Best-seller iniciou a Coleção Feminismos Plurais e recebe edição ampliada pela Editora Rosa dos Tempos (Alexsander Ferraz/AT) Antes de se tornar uma das vozes mais influentes do pensamento contemporâneo, Djamila Ribeiro já carregava na própria certidão de nascimento uma história de afirmação e pertencimento. Quando o estivador santista Joaquim José Ribeiro dos Santos escolheu o nome da filha após ler um exemplar do jornal do movimento negro Jornegro, talvez não imaginasse que aquele gesto atravessaria décadas e ganharia novos significados. Djamila, palavra de origem suaíli que significa beleza, se tornaria também sinônimo de pensamento crítico, produção intelectual e luta por igualdade racial. Foi também essa trajetória que a filósofa e escritora revisitou, na última quinta-feira, em Santos durante o lançamento da edição revista e ampliada de seu primeiro livro, Lugar de Fala, obra que ajudou a transformar o debate público brasileiro sobre raça, representatividade e desigualdades sociais. “Eu não esperava que fosse um livro e uma expressão que acabariam ficando tão comuns no vocabulário brasileiro. Claro que isso também trouxe simplificações, mas, para um trabalho acadêmico, é algo que me deixa muito feliz”, afirmou. Ampliada Publicada originalmente em 2017, a obra se tornou uma referência no letramento racial e popularizou um conceito que ultrapassou os muros da universidade para ocupar as redes sociais, os meios de comunicação e as conversas do cotidiano. Agora, quase dez anos depois, retorna às livrarias em uma versão mais ampla. “Esse livro não é apenas uma revisão pontual. Ele tem quatro capítulos inéditos, quadruplicou de tamanho e acompanha todas as mudanças que ocorreram desde a primeira publicação.” A autora ressalta que a nova edição também reflete as experiências acumuladas nos últimos anos como pesquisadora e professora em universidades brasileiras e norte-americanas. “Eu tive a possibilidade de dar aula fora do Brasil, conhecer pesquisadoras de outros países e trago muito desse conhecimento e experiências.” Mais do que atualizar dados e referências, a edição procura recuperar a complexidade de um conceito que, segundo Djamila, muitas vezes acabou simplificado no debate público. “Todo mundo pode falar sobre tudo, mas a gente vai falar de lugares diferentes e isso proporciona uma multiplicidade de visões sobre o mesmo tema.” Ela reforça que lugar de fala nunca significou impedir alguém de se posicionar sobre determinados assuntos. “Um homem pode e deve falar sobre a situação das mulheres. O lugar social influencia, mas não define. O impacto da sua fala vai ser diferente, e compreender isso é importante.” Transformações Djamila ainda destacou as transformações provocadas pela coleção Feminismos Plurais, criada e coordenada por ela e da qual Lugar de Fala foi o primeiro título. “O livro abre uma coleção que eu coordeno, a Feminismos Plurais, e que publicou vários autores negros. O mercado editorial começou a olhar para isso”. Ao mesmo tempo, ela observa que esse avanço trouxe novos desafios. “As grandes editoras também começaram a publicar sem muito critério e, muitas vezes, as pessoas passaram a colocar autores negros em caixinhas, como se só pudessem falar sobre determinados temas. É importante entender que nós falamos sobre vários assuntos, várias reflexões, e não apenas sobre questões raciais.” Filha de um estivador do Porto de Santos, Djamila relembrou o papel decisivo da família na construção dessa visão de mundo. “Meu pai era um trabalhador braçal, extremamente politizado, crítico e inteligentíssimo, e sabia que a educação era o caminho.” Foi ele quem incentivou os filhos a frequentarem bibliotecas, teatros e a desenvolverem desde cedo uma leitura crítica da sociedade. “Desde cedo ele dizia para a gente: vocês precisam conhecer a história de vocês e precisam saber que a educação é o caminho.” Alzira Rufino Outra influência fundamental veio da Casa de Cultura da Mulher Negra, em Santos, fundada por Alzira Rufino (1949-2023) e considerada pela escritora um marco em sua formação. “Foi ali pela primeira vez que eu vi uma casa coordenada por mulheres negras pautando temas tão importantes para a sociedade.” Ela lembra especialmente da biblioteca da instituição, onde conheceu a obra de Carolina Maria de Jesus. “Quando cheguei à Casa de Cultura, fui à biblioteca e descobri quem era Carolina Maria de Jesus. Aquilo foi muito importante para mim. Alzira abriu muitos caminhos para mulheres da minha geração. Essas figuras tornam a nossa caminhada menos difícil.” Ao olhar para os avanços da última década, a autora destaca a ampliação da representatividade negra na mídia, na educação e no mercado editorial, ainda que reconheça os desafios que permanecem. “Hoje, temos muito mais representação. Tivemos avanços importantes, mas estamos falando de um país que teve quase quatro séculos de escravidão. Ainda existe um longo caminho pela frente.” Ao falar às jovens negras, a mensagem continua sendo a mesma ensinada pelo pai e pelas mulheres que a antecederam. “É importante conhecer a história das pessoas que pavimentaram o caminho para nós. Só consegui chegar onde cheguei por conta da educação. A gente precisa lutar para que ela seja cada vez mais democrática.”