Bonekinha Iraniana é um dos principais nomes do funk da Baixada; Vanessinha MC começou em 1994 e é pioneira do gênero na região (Arquivo Pessoal) “A gente leva a vida no sorriso, como dizia Mc Boladão, mesmo passando sufoco”, afirma a funkeira Danielle Menezes. Conhecida como Dany do Morrão, a moradora do Morro Santa Maria, em Santos, diz que as dificuldades e a pouca visibilidade são uma realidade comum enfrentada por mulheres que atuam no cenário musical da região. Comemorado hoje, em Santos, o Dia do Funk coloca em pauta o preconceito e a falta de espaço feminino em um gênero musical que ainda é marginalizado no País. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ainda assim, segue enfrentando os preconceitos social, racial e, especialmente, de gênero. Dany do Morrão é exemplo de como a carreira no funk pode ser desafiadora para as mulheres: mesmo com quase 30 anos no segmento, precisa equilibrar as contas como vendedora, usando seu dom para criar rimas e vender títulos e capitalização. “O funk feminino, infelizmente, não tem o espaço que merecia ter, a não ser que seja do jeito que a mídia quer, dançando e mostrando o corpo”. Com a música Mercenária Quer Dinheiro, em 2006, Dany viveu o auge. A composição, interpretada por Mc Mascote no grupo Furacão 2000, foi parar em rádios internacionais. Porém, por ser mulher, encontrou resistência como compositora. O funk regional A influência do funk carioca na região ganhou uma nova sonoridade com os artistas locais. Conhecido como ‘funk de relato’, é popularmente chamado de ‘proibidão’. “A Baixada é um celeiro do funk. Com a nova geração, o funk está muito forte”, avalia Vanessinha Mc. Antes conhecida como Mc Vanessa Dreck, começou a carreira em 1994. Pioneira do gênero, integrou o grupo Dreck e Bisnaga e as Quatro Pitchulinhas. Assim como Dany do Morrão, Vanessa descobriu o amor pelo funk na infância. A marginalização do funk, de acordo com Vanessa, distorce a visão sobre as cantoras. Por mais que não estivesse em seus planos trabalhar profissionalmente com o funk, encontrou na música uma maneira de se expressar. “Meus pais não queriam que eu cantasse, precisei bater o pé para continuar e me encontrar no funk”. Os novos Beats Bonekinha Iraquiana, nome artístico de Letícia Colares, 23 anos, faz parte de uma leva de DJs que trabalham com funk experimental. No caso de Letícia, o subgênero conhecido como ‘bruxaria’, que nasceu em São Paulo um pouco antes da pandemia. “Criei uma afinidade com os beats da bruxaria, algo que ainda não havia em Santos. Passei a tocar nas festas até chegar a grandes shows e festivais”. O subgênero reflete uma realidade recorrente no funk: o machismo. “Como mulher, muitos homens não acreditavam no meu potencial, no meu conhecimento sobre como tocar ou mixar”. Estar em um ambiente predominantemente masculino criou uma conexão forte entre a artista e suas fãs femininas. “A música tem esse poder, dar a oportunidade para que outras meninas se inspirem”. Bonekinha Iraquiana se tornou um dos principais nomes do funk regional, participando de grandes festivais, como Rock The Mountain, a festa Submundo. O Dia do Funk A proposta de oficializar o 10 de abril como Dia do Funk em Santos foi da vereadora Débora Camilo (PSOL). “Temos que garantir a legitimidade do funk e permitir que ele se espalhe por toda a cidade”, defende Débora. Segundo ela, o reconhecimento estimula o diálogo entre os poderes públicos, a sociedade e a cultura. “Lutamos para que o Dia do Funk represente um maior investimento público na arte produzida nas periferias da cidade”. O 10 de abril foi escolhido por remeter ao assassinato de Felipe Wellington da Silva Cruz, o MC Felipe Boladão, em 2010. Ele estava com seu DJ, Felipe da Silva Gomes, quando foi alvejado na Vila Glória, em Praia Grande, por um homem de moto. *Reportagem feita como parte do Projeto Laboratório de Notícias A Tribuna – Unisantos, sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes