A obra também aborda questões como a saúde mental de um familiar, o luto, as desilusões amorosas etc. (Divulgação) Uma obra literária tem sempre muitas camadas, e cada leitor se encanta com uma ou mais delas. A minha experiência de leitura de Deus Adora Besouros, de Chris Ritchie — um romance de formação voltado ao público jovem — me conquistou pela originalidade na descrição da mente de um personagem atípico. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Da infância à vida adulta, o jovem biólogo Mercredien nos revela como percebe o mundo. Por meio das poucas pessoas com quem se relaciona — todas mulheres, que dão nome aos 14 capítulos (com exceção do pai e de um professor) — acompanhamos suas reflexões sobre identidade, amor e sexualidade. A obra também aborda questões como a saúde mental de um familiar, o luto, as desilusões amorosas, a dor e as pequenas e grandes alegrias da vida. Mercredien é, de certo modo, um Dom Quixote contemporâneo. A autora, a santista Chris Ritchie, trata de temas complexos; portanto, não é uma leitura rápida ou fácil. É preciso suspender o tempo para entrar no ritmo do livro, que instiga a curiosidade para completar o arco da história, mas não se apressa — caminha em passos ora lentos, ora ligeiros — e nos convida a demorar em sua profunda leveza ao tratar de temas que provocam estranhamento e questionamentos. Chris é escritora, poeta, romancista, tradutora, professora e editora. Já foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, o que se reflete em um texto maduro e bem elaborado. Há também a questão da violência no Brasil, numa passagem que marca a vida adulta do protagonista, embora não seja o tema central da obra. Deus Adora Besouros faz refletir sobre como é difícil para mentes atípicas — mesmo as mais brilhantes — se relacionarem com pessoas típicas. Esse é um dos pontos centrais da história: o que realmente fazemos para colaborar com pessoas incomuns e facilitar a convivência? Que empatia temos por elas? O quanto conhecemos sobre a forma como sentem, amam, estudam, trabalham e percebem o mundo? A maneira como Mercredien se descobre a partir da interpretação de três obras clássicas — Flicts, de Ziraldo; Odisseia, de Homero; e A Metamorfose, de Kafka — também pode gerar transformações no leitor. E fica a reflexão: o que as cores poderiam ter feito para que Flicts não precisasse ir viver na Lua para pertencer? E nós — o que podemos fazer para que a inclusão aconteça, de fato, na prática? Serviço: Deus Adora Besouros, de Chris Ritchie, Editora Livro que Marca, R\$ 70,00