Maquiagem, segundo Bianca, é um pretexto, pois prende até o final do vídeo, mas o principal é a conversa (Divulgação) Um dia, Felippe Souza descobriu Bianca DellaFancy e o seu mundo mudou. Com quase 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais, comanda o podcast Quanto Vale Essa História?, está à frente do quadro DellaMake e protagoniza a websérie Dando Duro. Bianca também foi capa da revista Vogue e desfilou por várias marcas em edições da São Paulo Fashion Week. Pelo sucesso digital, Bianca levou Felippe para a Globo: em 2024, os dois estrelaram na novela Renascer, interpretando os personagens Janaína e Jorge, respectivamente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Felippe e Bianca nasceram em Santos. Ele, há 35 anos. Ela, há 11. “A Bianca é uma intenção de mim. Nada daquilo que Bianca faz ou pensa é diferente do que o Felippe faz ou pensa. Ela é uma extensão de mim, mas acessa lugares e pessoas que não cabem a mim, que eu nem me sentiria bem. Ela é outro corpo, mas a mesma alma: Felippe numa potência elevada”. Tudo começou enquanto Felippe trabalhava como diretor de arte em uma agência de publicidade, ainda em Santos. Com um grupo de amigos, gostava de assistir a um programa sobre drag queens norte-americanas. Certo dia, surgiu a ideia: “Vamos nos montar uma vez para curtir uma festa em São Paulo”. Como já trabalhava com arte, a maquiagem fez sucesso, muita gente incentivou: faça mais vezes. “Comecei a me montar por diversão, vontade de viver alguma coisa diversa do que estava vivendo”. Bianca havia nascido. “Comecei a tocar em festas, virei DJ. Tudo em São Paulo, mas ainda morando e trabalhando em Santos”. Mudança de vida Esse novo mundo que se abriu também lhe mostrou o quanto não estava mais feliz, fosse no trabalho ou em aspectos mais amplos de sua vida. “Estava cumprindo funções robotizadas. Também senti necessidade de sair da casa dos meus pais, de ter minha independência. Mas senti que não conseguiria isso em Santos”. Subiu a Serra. Com o dinheiro da rescisão na agência, alugou um quartinho e comprou uma câmera: o objetivo era ter um canal no YouTube. “Comecei a profissionalizar a drag”. Mas como o seguro morreu de velho, Felippe também enviou currículos para agências de publicidade, na área em que tinha experiência. “Não consegui nenhum trabalho. Para mim, foi um sinal: não era para tentar mais aquilo”. Sete anos depois, o que era um sinal virou comprovação. O quadro DellaMake, em que Bianca recebe personalidades e conversa sobre a vida – de ambos –, enquanto lhes faz maquiagem, foi o começo de tudo e é sucesso absoluto. “Já tinha o Instagram, postava fotos da Bianca, mas sentia falta das pessoas me ouvirem, me conhecerem de fato”, recorda. “Foi quando bolei o quadro: a maquiagem é um pretexto, ela segura as pessoas até o final dos vídeos, pois querem ver o resultado. Mas não é o principal: eu conduzo a conversa sobre o que quero passar de mim e do meu convidado”. Orgulho e preconceito Quando se mudou para a Capital, Felippe sempre procurou endereços que o acolhessem da maneira como se recordava de Santos e do seu bairro por aqui, o Marapé. Assim, adotou a calmaria do Ipiranga, do Belém e hoje está em Panamby, na Zona Sul, bairro incrustado no Morumbi. “Acho que (Santos) me deu uma outra forma de funcionar, diferente da correria de todo mundo em São Paulo, pouco se importando com quem está do lado. Quem nasceu em Santos tem outro ritmo, mais leve. É a praia: uma outra forma de ver o mundo”. Porém, também foi em Santos que encontrou o preconceito. “Gente passava de carro gritando coisas, agredindo”. A covardia desrespeito preconceituoso começou a produzir efeito inverso: em vez de intimidar, encorajou Felippe, que assumiu gestualmente a sua forma de ser e estar no mundo. “Minha drag veio também com esse sentimento de estar cansado de sair na rua e ouvir graça. Fui para o extremo da feminilidade”. A afirmação surtiu efeito e criou uma reviravolta. Já não era tão hostilizado por demonstrar a sua sexualidade. “Os covardes se manifestam quando veem o medo. Mas quando se deparam com alguém confiante e percebem que não vão conseguir constranger, até podem gritar algo, mas é muito menos”. Sobre os pais “Minha mãe sempre foi muito tranquila, receptiva, maravilhosa. Meu pai teve dificuldades. Durante muitos anos, nossa relação foi difícil. Ele teve dificuldade de entender que eu não seria o protótipo daquilo que imaginou ao me conceber. Eu me dei o direito de ser o homem que queria ser” “Saí de casa também para me afastar de qualquer amarra que tentassem me colocar. Felizmente, hoje, ele (o pai) se regenerou de todo o preconceito. Meus pais me acolhem e torcem por mim” “Eles cresceram muito por minha causa e vice-versa, por causa da criação deles: nunca me faltou nada, eles foram pais fantásticos, e presentes”