Claudette Soares tem duas máximas que ela gosta de expressar no palco e entre amigos. Uma delas, diante dos desafios da profissão de cantora, a qual escolheu há 80 anos, é: “Minha maior vingança é estar viva”. A outra, uma reflexão sobre o tempo: “O mundo é ruim para quem não sabe esperar”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Claudette soube esperar. Completou 90 anos cantando, em um show recente, em São Paulo. Cercada de amigos no palco e na plateia, cantou por quase três horas. Cantou com Alaíde Costa, Maria Alcina, Daniel Gonzaga, Izzy Gordon, Rafael Cortez, entre outros. “Não penso em idade. É algo natural. Nunca me preocupei com isso. Só achei que jamais cantaria depois dos 50 anos. Pensei que não fosse ter voz. O tempo passou e eu não vi”. Ao lado de Alaíde Costa, levou a bossa nova para São Paulo, ainda no início dos anos 60, quando foi a grande atração de bares como A Baiúca e Juão Sebastião (Marcelo Castello Branco/Divulgação) A cantora atribui a vitalidade à própria profissão. “Trabalhamos sempre muito a cabeça para aprender arranjos, decorar as letras. Imagina entrar em um lugar e dar canja com o Hermeto (Paschoal)”, diz, sobre o multi-instrumentista, mestre do improviso, que morreu em setembro. Momento certo Claudette começou a carreira na Rádio Nacional, no programa de Renato Murce. Nos primeiros anos, foi chamada de Princesinha do Baião. Mas sua voz se encaixou mesmo na bossa nova, da qual, ao lado da amiga Alaíde Costa, que fará 90 anos mês que vem, é a única cantora remanescente. Aliás, ao lado da amiga Alaíde, Claudette foi a responsável por trazer a bossa para São Paulo, no início dos anos 1960. Foi a grande atração de bares como A Baiúca e Juão Sebastião, na região central de São Paulo. Na noite da Capital, cantou não apenas com Hermeto, mas com Eumir Deodato, Pedrinho Mattar e Amilton Godoy. Com o então jovem Cesar Camargo Mariano, encontrou a parceria perfeita para fazer sua bossa jazz. “Eu nasci no momento certo. Se eu fosse uma cantora jovem agora, eu estaria sem nenhuma esperança musicalmente. Não temos muita coisa. Convivi com as pessoas certas, ganhei um ouvido que, qualquer acorde que o músico der, eu entro”. Multifacetada Claudette não ficou só na bossa. Ou melhor, só no banquinho e violão, para os quais não tem muita paciência. Jorge Ben Jor confiou a ela o samba rock. Músicas como O Cravo Brigou com a Rosa e Que Maravilha!, que ela lançou. Em setembro, ela se apresentou no festival The Town, em São Paulo, acompanhada por orquestra. Quando ouviu o arranjo feito para O Barquinho, pediu desculpas ao maestro. “Está muito meigo. Não sou assim. Ele entendeu e mudou. Foi a música mais aplaudida da apresentação”. A grande virada para o sucesso foi quando Roberto Carlos lhe entregou De Tanto Amor, em 1971. A gravação de Claudette ficou mais de um ano nas paradas de sucesso. Àquela altura, a bossa nova já estava em baixa. Mesmo assim, a acusaram de traição. “Quando o Roberto virou o rei, todo mundo queria música dele”, resume. O futuro Claudette foge da resposta sobre o que espera daqui para frente. Acaba confessando: diz que prefere não fazer planos. “Quero que seja como foi até agora. Nunca pensei que fosse sobreviver, nunca fui atrás de gravadora. A vida me deu muita sorte. Vou saber a hora de parar. Sempre sabemos”. Novo álbum Para o próximo ano, Claudette prepara um álbum com músicas inéditas. Com produção assinada por Marcus Preto e do maestro Thiago Big Rabello, no trabalho ela gravará veteranos como Marcos Valle, de quem ela eternizou, nos anos 1970, Os Grilos; também haverá Ronaldo Bastos, Arnaldo Antunes e Nando Reis, e jovens como Zé Manoel e Tim Bernardes, além da parceria entre Roberto Menescal, outro remanescente da turma da bossa nova, e do jovem Joaquim. A bossa Esse Escurinho e Você foi apresentada no show dos 90 anos. “É a Claudette dos anos 1960. Com balanço. A bossa jazz é meu país”, afirma ela.