Edson: paixão pela obra do russo (Tatiana Chiari/Divulgação) O enredo: um conto que teve de esperar 160 anos por seu final. Ou melhor: um final possível, como diz o autor. Não é qualquer conto, mas O Crocodilo, obra inacabada de um dos maiores mestres da literatura universal: Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Publicado em 1865 sem o desfecho, volta às livrarias do País com um final proposto pelo neurocirurgião Edson Amâncio, um estudioso apaixonado da obra do escritor russo. “O Boris Schnaiderman, que é um dos principais tradutores do russo, fez a versão em português e traduziu as anotações que o Dostoiévski havia feito, na eventualidade de continuar o conto”, recorda Edson. “Ele escreveu ainda: ‘essas observações só fariam sentido para ele (Dostoiévski), mas quem sabe não inspiram alguém a continuar esse conto?’”. Edson foi ‘mordido’ e ‘engolido’ pelo tal crocodilo. Em seu final, ele utiliza os fragmentos traduzidos, as ‘pistas’ deixadas por Dostoiévski e mais. “Mas não vou dar spoiler”, ri. O conto com o final foi traduzido para o francês. A diretora do Museu Dostoiévski, em São Petersburgo, na Rússia, teve acesso ao texto e intimou Edson: “No jubileu de Dostoiévski, você será convidado para fazer aqui uma leitura pública”. “Morrendo de medo, mas na maior cara de pau, fiz a leitura para umas 200 pessoas, com tradução simultânea do francês para o russo”. Tudo isso ocorreu em 1996. Terminado o frisson, à época, Edson encerrou o material na gaveta. “Até que o editor falou: ‘sei que você tem esse material aí, procura’. Sabe onde estava? Em um disquete! Nem tinha mais como acessar em casa”, sorri. Quase 30 anos depois, veio à luz para o público O Crocodilo, de Dostoiévski, com o final de Edson Amâncio, pela Abarca Editorial (R\$ 65,00, www.abarcaeditorial.com). Profundidade da obra A história de O Crocodilo é inusitada: um homem é engolido por um crocodilo que está exposto em uma famosa galeria de São Petersburgo. Mas ele continua vivo, entrando em conflitos com a esposa, os amigos e a imprensa. “Nos diários dele, conta que escreveu essa história como uma brincadeira, um pastiche de Gógol (Nikolai, 1809-1852), que escrevera O Nariz, sobre um sujeito que abre o pão e encontra um nariz lá dentro”, diz Edson. Porém, a brincadeira sem maiores aspirações foi interpretada como uma crítica ao escritor e filósofo Nikolai Tchernichevski, desafeto político de Dostoiévski, o que foi repudiado pelo escritor. “Na verdade, ele faz uma crítica à burguesia recém-nascida na Rússia”, analisa Edson. Tal interpretação da crítica talvez tenha ocorrido pelo olhar que havia sobre a obra de Dostoiévski: de que era taciturna, complexa, psicológica – o que é refutado por Edson. “Ele negava tudo isso. Fiava-se muito no dia a dia, nos jornais. Ele se dizia realista”. E vai além: “Os Demônios, por exemplo, é um livro terrível, mas você não consegue ler sem dar muita risada”. Esposa e amante Nascido em Sacramento (MG), Edson teve o primeiro encontro com Dostoiévski na biblioteca pública da cidade natal. Certo dia, aos 14 anos, caiu-lhe nas mãos A Recordação da Casa dos Mortos. A Literatura em geral, e Dostoiévski em particular, tornaram-se parte intrínseca de sua vida – assim como a Medicina. Como o próprio Edson já afiançou, ele toma para si a máxima de outro médico e escritor, o também russo Anton Tchekhov: “a Medicina é minha esposa, a Literatura, amante”. Nessa ‘vida dupla’, já salvou muitas vidas, fosse pela destreza com o bisturi ou com as palavras: se as cirurgias são incontáveis, os livros somam nove. Entre eles, Meu Dostoiévski, O Homem que Fazia Chover e Outras Histórias Inventadas pela Mente, Diário de um Médico Louco e Experiências de Quase Morte (EQMs): Ciência, Mente e Cérebro.