"Hoje, o Brasil exporta mão de obra. O Motorhead e o Metallica, por exemplo, tinham quase toda sua equipe daqui”, afirma Fabiana Lian (Divulgação) Ela foi a responsável por colocar David Bowie em um táxi no Rio de Janeiro. Nada pessoal, pelo contrário: mas quando se trabalha na produção de shows, os imprevistos às vezes surgem do nada e exigem solução. Com 30 anos de experiência, Fabiana Lian já trabalhou com nomes que vão de Iron Maiden a Madonna; de Lady Gaga a Metallica. A experiência resultou na On Stage Lab, escola que ajuda a quem quer entrar no ramo a ter um caminho, digamos, mais suave. Fabiana estará hoje, às 18 horas, na Realejo Livros (Av. Marechal Deodoro 2, Gonzaga) para lançar Enquanto Você Toca - Biografia Coletiva do Showbusiness (Editora Plataforma 9, R\$ 98,00), livro que reúne textos de 30 profissionais dos bastidores da música sobre suas experiências, escrito com a produtora e jornalista Juliana Negri. Você é cantora. Como foi parar do outro lado do balcão? Fui cantora de um grupo chamado Mawaca. Também cantava jazz e tinha um trabalho também com Vladimir Safatle, que na época era estudante de Filosofia. Era aquela vida dura, né? De músico ‘guigueiro’ (de show em show), até que um amigo perguntou se eu queria trabalhar de intérprete de banda. ‘Ah, meu inglês não dá’, eu disse. Então me colocou de assistente de produção. Era 1995, o Monster of Rock. No fim, meu inglês dava pra isso, meu segundo trabalho já foi como intérprete do David Bowie. Quando percebi, já tinha parado de cantar. Deixei de ser assistente para ser coordenadora artística ou gerente de turnê. Fiz shows pelo Brasil e América Latina. Dessa experiência nasceu uma escola... Aprendi levando bronca, os gringos chegavam aqui gritando, falando que a gente era selvagem. Nesse primeiro Monsters of Rock, no Pacaembu, tem uma história que ilustra as relações de poder. Eu estava na sala de produção, entra o diretor do Alice Cooper urrando que a máquina de fumaça não tinha chegado, que ele ia cancelar o show. Apavorada, fui traduzir para a produção daqui. que falou ‘tá bom. Mas pede pra ele se responsabilizar de avisar o público’. O cara obviamente não cancelou. As relações de poder eram tensas, porque eles sabiam muito, e a gente, pouco. Isso mudou? A gente construiu muitos profissionais que também aprenderam na prática. Hoje, o Brasil exporta mão de obra. O Motorhead e o Metallica, por exemplo, tinham quase toda sua equipe daqui. O brasileiro é bom de crise: a gente tem jogo de cintura e é bom de aprender com os erros. Quais são os pontos principais para uma produção se atentar, que você ensina na escola? A gente sabe que um artista precisa divulgar o seu show no lugar certo. Que ele deve estar em segurança. O palco da Taylor Swift será muito diferente daquele da Rosa Passos, mas em todos é preciso rigor técnico. Como está o Brasil em relação às casas de show? Aqui em Santos, há acomodação para cinco mil pessoas ou menos de mil. Faltam casas médias, para 1,5 mil ou 2 mil pessoas. É um ponto nevrálgico. A gente tem uma produção artística rica e variada, mas não tem locais de show para tudo o que produz. Pior: a gente não enxerga isso como um ativo. Vou contar uma história: fui a uma conferência em Londres, de uma mulher que cuidava de um projeto chamado Music Venue Trust (Fundo para Casa de Shows). Por exemplo, fizeram uma pesquisa e descobriram que muitas casas de show fechavam porque a conta de energia era alta. Então o fundo foi lá e pagou a conta. Falta essa ideia de indústria cultural aqui. Por que hoje o mundo está assistindo Dorama, lotando estádio para ver show de k-pop e aprendendo coreano? Falta um projeto de nação para sermos uma potência cultural. Existe diferença entre os públicos? Do pop, do rock, do jazz, do metal? Sempre que eu trabalho, eu gosto de dar uma olhada na plateia. Os adolescentes, o público de pop, é muito apaixonado, capaz de fazer loucuras. Uma vez, uma fã do Hanson se escondeu no carrinho do garçom que ia levar o serviço de quarto, no hotel. Curiosamente, o fã de metal é muito confiável e tranquilo. E com os artistas? Alguma situação inusitada? Uma vez eu trabalhei com o Ringo Starr. Nossa maior tensão era ele comer na hora certa, que ele pediu, antes de entrar no palco. E aí o microondas resolveu não funcionar. No final deu certo. Só atrasou o show 10 minutos. Ele levou na esportiva. Com o David Bowie também teve perrengue? Teve uma falha de comunicação, estava com ele e a equipe no Galeão e as vans não chegaram. Tive que colocar todo mundo em quatro táxis e alugar uma kombi para a bagagem. Algum caso de pedido absurdo? Todo artista têm uma lista chamada rider, com as necessidades para o show, da parte técnica ao camarim. Alguns colocam coisas a mais só pra ver se o produtor está lendo. Teve aquele caso clássico da Lady Gaga, que pediu duas lhamas. Tem pedidos que a gente até negocia, um que pediu vinho de US\$ 15 mil. Aí não dá. Cada artista tem uma peculiaridade. Não costumo achar frescura, porque eles tentam estar o mais próximo possível de casa. O que você tira dessa trajetória? Até de maneira pessoal? Às vezes, você dormiu mal, brigou, teve problemas no caminho, mas quando você ouve o primeiro acorde e todo o público reage, você lembra a razão de estar ali, ajudar a proporcionar esses momentos.