“Ao contar minha vida, acredito que posso ajudar outros autistas”, diz Tarso (Divulgação e Gabriela Ferreira/Divulgação) Escrever uma autobiografia aos 44 anos? Era o que estava fora dos planos de Tarso Ramos. “Sempre pensei que antes dos 80 anos não havia razão para escrever minha autobiografia”. Mas, ao perceber que sua vida poderia ser um exemplo e inspirar outras vidas, nasceu Não Sou Autista (Ed. Clube de Autores, R\$ 50,00, neste link). Tarso, que é músico profissional e hoje mora em Portugal, teve o diagnóstico aos 44 anos, após suspeitas que se estenderam por mais de uma década. Nesta entrevista, ele fala sobre o livro, a sua arte e a convivência com o autismo. Como você descobriu que era autista? Eu sou conhecido na família como ‘o chorão’, porque do zero ao primeiro ano de vida consta que eu só chorava. Depois, continuei sendo uma criança insegura, assustada e nervosa. Aos 32 anos, minha mãe disse: “eu não queria morrer sem saber por que você chorava tanto”. Então fui à internet pesquisar e encontrei um vídeo sobre autismo. Me reconheci de imediato com a descrição e com o exemplo do comportamento das crianças no vídeo. Então recorri a um teste on-line, o Aspie Quiz. O resultado foi ‘você é muito provavelmente Asperger’ (Síndrome de Asperger era como o autismo nível 1 era chamado). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como suspeitou? Você enfrentou alguma dificuldade específica? Até 32 anos, nunca suspeitei. Ninguém tinha as informações que temos hoje. Nem mesmo os médicos. Meus pais, e até minha professora, percebiam que eu era diferente, mas nunca pensaram em autismo. Após o autodiagnóstico, ainda vivi mais 12 anos, digamos, ‘sem ser autista’. Resolvi, a princípio, não procurar um diagnóstico formal. Pensei: “cheguei até aqui, então posso continuar minha vida”. Mas, aos 44 anos, devido a muitas dificuldades de adaptação ao meu novo trabalho e algumas baixas médicas por burnout, busquei ajuda psiquiátrica e fui diagnosticado. De onde veio a ideia de escrever uma biografia tão prematura? Sempre pensei que antes dos 80 não havia razão para escrever minha autobiografia. Mas, ao contar a minha vida do zero ao diagnóstico, aos 44 anos, posso ajudar pessoas que são autistas, mas não sabem, a desconfiar e, talvez, encontrarem uma resposta mais cedo do que eu. Também penso que pode ser um bom livro para os autistas diagnosticados, pois poderão se reconhecer em algumas situações e até se perdoarem de reações que tiveram, devido ao fato de serem autistas. O diagnóstico o afetou de alguma forma? Me trouxe mais defesas para estar em um mundo no qual não sei transitar. Não me coloco mais em situações que podem me levar a crises: raramente me hospedo na casa de outra pessoa; evito conversas; não convido pessoas para virem à minha casa. Como se envolveu com a música? Muitos autistas têm talento para as artes, principalmente música. Isso ocorre porque nosso cérebro gosta de padrões, e a música é feita de padrões. Aos 2 ou 3 anos, comecei a tocar um miniteclado em casa. Aos 5 anos, já tirava melodias de ouvido. Só fui estudar aos 9 anos para compreender aquilo que já fazia intuitivamente. Você mudou para Portugal por causa da música ou foi e depois se estabeleceu na profissão? Eu sempre quis viver uma experiência fora do Brasil. Depois que me casei e tive minha filha, achei que era o momento certo. Fomos em 2018 para eu fazer uma Especialização em Criação e Produção Musical e já sabíamos que não voltaríamos. Comecei a dar aulas particulares, depois me tornei professor de piano em um clube da minha região. Apresentei trabalhos teóricos e recitais em congressos de universidades, como a Cardiff University (País de Gales), New York University (Estados Unidos) e, mesmo aqui, em Portugal, na World Academy. O que diria a outras pessoas com autismo? Que somos apenas diferentes. Nada além disso. Nossa vida é mais difícil? Como o mundo foi feito por e para os neurotípicos, sim: encontraremos mais dificuldades, mas, ainda assim, nossa vida pode ser muito boa. Alguns psicólogos, como Tony Attwood e Marlo Payne, afirmam que o autismo é um dom, e até mesmo o futuro. Eles falam baseados em características que nos trazem vantagens, como o hiperfoco, a inclinação para dizer a verdade, alta capacidade para sistematizar o conhecimento e um pensamento ‘fora da caixa’. Segundo eles, podemos ser úteis para criar uma sociedade mais justa e criativa. Qual seu maior sonho? É ajudar minha filha a ter uma vida plena. O nascimento dela, onze anos atrás, foi um grande motivador para eu buscar uma nova vida fora do meu país. Aqui, estou conseguindo dar a ela muitas coisas que eu não conseguiria no Brasil: uma excelente educação em escola pública, ótimo atendimento em saúde, uma vida sem grandes preocupações com a violência urbana e viagens nacionais e internacionais.