Livro retrata a vida e a obra de Ariano Suassuna (Divulgação e Reprodução/X) Se a vida é um teatro, todos somos artistas. Talvez Ariano Suassuna tenha sido mais um artista da vida – e só assim construiu sua obra única. Portanto, vida e obra se confundem em sua trajetória, que acaba de ganhar o livro Ariano Suassuna no Teatro da Vida (Editora CRV), organizada pelo doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Anderson da Silva Almeida. A obra é lançada no ano em que se completam 10 anos da morte de Ariano e no contexto dos 60 anos do golpe de 1964. Além disso, também chega ao mundo com o filme O Auto da Compadecida 2 nos cinemas. Segundo o organizador, o livro representa a realização de um desejo de conhecer mais profundamente a atuação de um grande intelectual no período da ditadura e o movimento cultural por ele criado, o Movimento Armorial, que reverberou principalmente no Nordeste. Foi uma tentativa de se construir o que Suassuna chamou de “cultura erudita brasileira”, com inspiração na chamada cultura popular e nas raízes ibéricas e árabes, principalmente. “Como pesquisador da ditadura, percebi a ausência de estudos sobre a atuação de Ariano naquele período. Temos obras que abordam o Movimento Armorial, mas sem conectar com o contexto político. Ariano esteve muito presente nos debates políticos dos anos 1960-1970, principalmente em Recife, e já era muito conhecido pelo prêmio conquistado pelo Auto da Compadecida, em 1956”, ressalta Anderson. Mergulho nas raízes Ariano Suassuna foi multifacetado: um nome das letras, do teatro, da política, das inspirações no cordel e na xilografia. Contudo, a obra se volta especialmente para sua contribuição ao teatro popular brasileiro. O livro mergulha nos primórdios do dramaturgo, ressaltando eventos que foram primordiais para a formação do futuro escritor. A origem aristocrática e a convivência com as camadas populares na pequena cidade de Taperoá, na Paraíba, inspiraram grande parte das peças de Suassuna. O assassinato de seu pai, João Suassuna, ao enfrentar o grupo político do antigo aliado, João Pessoa, cujo assassinato marcou a política nacional, também teve um impacto profundo na trajetória de Ariano. Organizado ao longo dos últimos três anos, o livro opta por trabalhar com autores que já tinham alguma ligação com Suassuna, seja por meio de pesquisas maduras ou com alguma experiência mais aprofundada. Estrutura O livro está dividido em duas partes. Na primeira, o leitor encontrará um perfil mais biográfico e de atuação política, em diálogo com a história social (o contexto) e questões que envolviam o universo da cultura e sua relação com o Estado. Na segunda parte, os textos abordam as influências na obra de Ariano e a construção de sua dramaturgia. “Há um caráter híbrido, que tenta dialogar com leitores e leitoras para além do público universitário. Esse é o nosso grande desejo: sair da bolha acadêmica”, frisa o organizador. Além de incluir dois capítulos do próprio Anderson da Silva Almeida, o livro reúne textos de pesquisadores de todo o País, destacando inclusive movimentos controversos de Suassuna, como sua participação no Conselho Federal de Cultura, após o golpe de 1964. Sem buscar sacralizar a figura do escritor, a coletânea mostra as contradições e ambivalências que formam Ariano: uma mistura entre o popular e o erudito, o sagrado e o profano, o clássico e o moderno, a poesia e o romance. O livro também explora sua inicial visão monarquista e sua conversão para uma visão de esquerda do mundo. A título de exemplo, o pesquisador Dimas Brasileiro Veras tensiona a trajetória política de Suassuna, provocando: seria Ariano melhor identificado como “um extremista de centro” ou “um monarquista de esquerda”? Contrastes Sem ignorar os mais diversos lados do escritor, a obra inclui também episódios pouco conhecidos do autor, tais como a “briga” de Ariano com os tropicalistas pernambucanos, em um episódio no qual houve até socos desferidos. A obra também aborda sua relação complexa com as culturas de massa e sua implicância com símbolos incorporados da cultura norte-americana. Em geral, a proposta apresentada pelo organizador indica que, mesmo sendo visto por alguns críticos como conservador e teimoso, Ariano reviu posições políticas ao longo de sua vida e não se furtou a mudar, reorientando seu destino, reconhecendo erros, equívocos e fracassos. Ariano construiu uma narração na qual cabem as coisas mais diferentes e opostas – o brilhante e o monstruoso, o grotesco e o terrível, o trágico e o ridículo, a emoção e a bufonaria, como escreveu certa vez o autor de Taperoá.