Maria Valéria Rezende: "Eu queria poder pendurar na capa dos livros o nome de todo mundo que me deu aquelas histórias, pois eu não sou a autora sozinha” (Adriano Franco/Divulgação) Ela publicou o primeiro livro aos 59 anos. Mas Maria Valéria Rezende nasceu na Literatura: sobrinha-bisneta do poeta Vicente de Carvalho e sobrinha da poetisa e cronista de A Tribuna Maria José Aranha de Rezende, “não via muita graça em ficar em casa escrevendo”, como diz. Formou-se em Pedagogia e entrou para a Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho. Porém, o que fez quase a vida inteira foi se embrenhar pelos sertões do Brasil, como educadora popular. Hoje, aos 83 anos, a escritora santista radicada em João Pessoa (PB) acaba de lançar Recapitulações (Editora 34, R\$ 54,00), seu nono livro, entre romances, contos e crônicas, em que a autora reescreve parte de obras clássicas ou inclui escritores como personagens. Além de falar da nova obra, nesta entrevista Maria reflete sobre a Literatura e o País que hoje temos. De onde veio a ideia para Recapitulações e por que essas histórias e autores foram escolhidos? Eu faço parte do Clube do Conto da Paraíba, que todo sábado se reúne com a atribuição de escrever um conto. Esses contos foram escritos assim nos últimos 20 anos. De repente, me dei conta de que tinha vários deles mexendo com escritores: fazendo deles personagens ou desmentindo o que haviam escrito. Percebi que dava um livro divertido, com uma unidade diferente. A senhora publicou o primeiro livro, Vasto Mundo, aos 59 anos, em 2001. Por que tão tarde? Foi uma opção não ter sido escritora. Nasci em uma família de escritores. Sou sobrinha-bisneta do poeta Vicente de Carvalho, sobrinha da Maria José Aranha de Rezende. Na família da minha mãe também tinha escritores. Um tio-avô, redator do Senado, se divertia escrevendo contos e peças. Ele mandava imprimir e distribuía para todo mundo. Quando eu era criança, achava que escrever livro era algo que todo mundo um dia ia fazer na vida. Então por que escrever só aos 59 anos? Foi por acaso. Minha avó não se conformava de eu não querer escrever, porque ela achava que eu escrevia bem. Quando vim morar na Paraíba, todo mês mandava uma carta: ‘querida vovó, estou aqui em frente à minha janela, vendo passar fulano’. Aí, inventava a história de fulano. Eu vivia em um povoado, não tinha salário, vivia da troca de serviços e bens. Quando viajava a trabalho, não tinha dinheiro para comprar um presentinho a ninguém. Então pegava as histórias que escrevia para minha avó, fazia cópias com papel carbono, capinha, pintava com carvão, urucum e dava de presente. Uma vez, em São Paulo, numa reunião em que estava o Frei Betto, me dei conta que era aniversário dele. Peguei o conto que tinha levado para minha irmã e dei a ele. Tempos depois, um editor me ligou: o Frei Betto tinha passado o conto para ele. O editor ficou insistindo que queria ver o que eu tinha mais. Acabei aceitando: juntei tudo o que tinha feito para minha avó e saiu a primeira edição de Vasto Mundo. Peguei gosto. Estava chegando aos 60 anos, ficava difícil continuar pelo sertão como educadora popular. A senhora foi freira, ligada à Teologia da Libertação, e sempre se posicionou como ‘do lado dos pobres’. Como foi a experiência com a educação popular? Foi a descoberta da riqueza de conhecimentos do povo. Inspirada pelo Paulo Freire, minha principal ferramenta de trabalho sempre foi a pergunta: sobre a vida e os problemas que as pessoas estavam vivendo. Quando elas têm a oportunidade de dizer, é possível refletir sobre aquilo. Ouvia a história, pegava e recontava em outro lugar: é assim também para vocês? Ouvia histórias do povo o tempo todo, aprendi um vocabulário fantástico. Tem gente que acha que o povo não sabe falar. Pergunta ao intelectual para dizer nomes de ferramentas. Ele vai citar martelo, serrote, alicate e chave de fenda; o trabalhador vai dizer dezenas. Não existe hierarquia de saberes, eles são apenas diferentes. A troca de saberes, que propõe o Paulo Freire, foi a prática da minha vida. A maioria dos meus livros sai daí. Eu queria poder pendurar na capa dos livros o nome de todo mundo que me deu aquelas histórias, pois eu não sou a autora sozinha. “Se diz que brasileiro não lê. O certo seria: brasileiro não tem acesso ao livro”, diz Maria Valéria (Reprodução/Facebook) Tem algo da vivência no sertão de que a senhora se recorda em especial? Que a emocionou? É tanta coisa. Uma delas foi a descoberta dos repentistas. Eles fazem versos com métrica e rima rica, de improviso. Me deixaram fascinada. Quando começo a escrever, gosto de ler em voz alta, mas não para a parede. Então arrumo uma vítima. No meu primeiro romance, O Voo da Guará Vermelha, quando tinha lido umas quatro páginas, a pessoa disse: ‘não sabia que você estava escrevendo cordel’. Aí me dei conta: estava escrevendo em heptassílabos, a métrica mais comum do cordel, que entranha na gente. Sendo cristã, como a senhora vê o avanço do cristianismo, especialmente o neopentecostal, na política partidária? Depende. Tenho a impressão que há coisas chamadas igrejas que, na verdade, não são igrejas, são empresas que ficam milionárias. Mas eu tenho vários amigos pastores de igrejas protestantes, evangélicas, que são pastores de verdade. Essas têm uma posição mais a favor das causas populares. Outras se intitulam igrejas, acumulam fortunas incríveis. Um dos homens mais ricos do Brasil é dono de uma igreja. Eu até seria a favor que se suspendesse a isenção de imposto das igrejas, porque faria uma limpeza. Muito se fala que o Brasil vive uma crise da leitura. Como você vê? Não tenho certeza disso. Talvez porque eu viva na Paraíba e a última pesquisa de leitura no Brasil descobriu que João Pessoa tem 64% da população leitora. Aqui, tem festas literárias em tudo que é cidadezinha do interior. São no meio da rua, a população inteira participa. Toda semana eu tenho uma live com clube de leitura pelo Brasil. Se diz que brasileiro não lê, quando o certo seria: brasileiro não tem acesso a livro. O livro está muito caro. Se a pessoa depende de comprar o livro para ler, não vai ler. Eu mesma fico chateada com o preço dos meus livros, mas a editora é que põe o preço. Eu vou comprando da editora e vendendo por aí, com desconto, porque a maioria dos municípios não tem livraria. Volto com meu carrinho sempre vazio (risos). Viver de Literatura é possível? Deve ser possível a quem for escolhido pelo mercado para ser best-seller. É uma coisa meio estranha. Eu, por exemplo, sempre pergunto para os meus amigos: se entrar numa livraria, pergunta se tem livro meu. Muitas vezes não tem. A distribuição de livro é muito estranha no Brasil. O direito autoral é 10% do preço de capa. Como se a gente fosse um garçom de um restaurante grande, mas sem salário, só com a gorjeta que o freguês deixa. A senhora é criadora do Mulherio das Letras. O que o movimento conquistou? Uma coisa o Mulherio conquistou: hoje você não vai convencer mulher nenhuma que mulher não pode escrever por ser mulher. Não há mulher que ache que não tem capacidade ou o direito de escrever. Agora, acho que a Literatura é sempre sintomática do que se está vivendo. Uma coisa que me impressiona é a crise da maternidade, que foi o grande pretexto que se utilizou durante séculos para manter as mulheres presas em casa. Aquilo de ser mãe é levar a vida do filho e basta. Isso está em crise. Então, há uma enorme quantidade de livros de mulheres sobre a crise da maternidade. Conflitos de uma filha com mãe e de mãe com filha. Por outro lado, tem uma grande quantidade de livros escritos por homens que contam histórias de decadência masculina. O mundo hoje é melhor ou pior do que aquele em que a senhora nasceu? Há muita coisa melhor e pior. Por exemplo, meu pai era médico e passava hora e meia em cada consulta. Ele repetia ‘não há doença, há doentes’. Papai conversava com todos, sobre suas vidas. Hoje, está difícil encontrar um médico que sequer olhe para a gente. Eles fazem três perguntas, ficam olhando para o computador, mandam fazer milhões de exames e nem conversam. Para que serve a literatura? Cada um de nós vê o mundo de um ângulo, aquele da experiência pessoal. Só que o mundo é muito mais complexo do que o ângulo que me é dado ver. Ao ler, eu me aproprio de outros ângulos de visão da vida. A pessoa que lê, à medida que vai alargando o seu mundo, torna-se muito mais compreensível com os outros. Aos 83 anos, qual o seu maior sonho hoje? É acabar os quatro romances que estão pela metade (risos). Tem quatro produtores de cinema tentando financiamento para filmar meus livros. Eu estou louca para ver isso. Gostava muito de cinema, sobretudo de fazer cinema. Como educadora, eu trabalhava muito com uma Super 8, depois o VHS.