"Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro, eu sempre me persegui”, diz o poeta (Alexsander Ferraz/ AT) “Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.” A citação da obra Um Sopro de Vida, de Clarice Lispector, talvez seja o resumo, ou umbigo desse mundo chamado Valdir Alvarenga: para além de ser poeta, ele dá vida à poesia. “Sou apaixonado pelas nuvens, ficava perto delas, ali tive contato com a poesia: acreditava em saci-pererê, andava no mato”. Ou essa memória mais profunda de sua primeira meninice, no Morro da Penha, em Santos, não é poesia pura? “Via lá de cima a Zona Noroeste, o cais, os navios, a estrada de ferro do Porto. Essa visão bem santista”. A poesia real entrou em seu convívio pela música. Um dos irmãos mais velhos – Valdir é o caçula de quatro filhos – costumava escrever em um caderno, que Valdir mantém até hoje, as letras de roqueiros da época, como Neil Sedaka e Paul Anka. Já o pai punha na vitrola os 78 rotações de Luiz Gonzaga, por exemplo. “Meu pai gostava de música brasileira”, enfatiza. Não por acaso, o poeta se chama Valdir, uma homenagem do pai a Valdir Azevedo. “Ele também gostava do Jacó do Bandolim. Ainda bem que ele preferiu o Valdir!”, sorri. Outro episódio no morro envolveu persuasão e escolhas. Certo dia, o cunhado, marido da irmã do pequeno Valdir, chegou com uma pipa feita com o símbolo do Santos. “Foi o primeiro escudo de time que vi na vida”. Todo feliz, foi empinar a pipa no cruzeiro, o ponto mais alto do morro. Três moleques grandões se aproximaram. Sem cerimônia, pegaram a pipa e a fizeram em pedaços. Sem a pipa, restou a Valdir voltar chorando pra casa. “Meu pai, nascido em 1910, que era corintiano roxo, malandro, no dia seguinte me deu uma camisa do Corinthians”. Pronto: Valdir estava convertido. Mudança O irmão mais velho, aquele das letras de rock no caderno, também gostava de pescar. Costumava sair para o mar lá pelos lados da Praia das Vacas, em São Vicente. Com frequência, levava Valdir. Certo dia, estava de saída para a pescaria, chamou o irmão. Mas a mãe interveio. “Ela não deixou eu ir”. O irmão nunca mais voltou. Tinha 22 anos. Valdir, 13. Abalada, a família deixou o morro. Encontrou um casarão imenso na Rua Marquês de Herval, no Valongo, não muito longe da Penha. “De repente, estava morando do lado da estrada de ferro que eu via tão pequenininha lá de cima. Era imensa, conseguia tocá-la”. O pai não teve muito tempo para curtir a casa. Desgostoso com a morte do filho, o ex-estivador, que mesmo aposentado frequentava o restaurante no Porto para comer bife e batata frita, e levava Valdir, sofreu um infarto fulminante. A terceira morte nesse período foi a do cunhado que anos antes tentara fazê-lo torcer para o Santos com a pipa. “A morte me perseguiu nesse período. A vida é engraçada: meu primeiro emprego na Prefeitura seria no Cemitério do Saboó”. Mas ainda vai chão. Antes disso, o cemitério teria outra função na vida de Valdir: apresentar-lhe a literatura. Duas faces, uma moeda Cecília Meirelles, Fernando Pessoa, Herman Hesse, Kafka. “Fiquei alucinado”, recorda. Tudo da Biblioteca Volante que uma vez por semana parava em frente ao Cemitério do Saboó. Aos 15 anos, junto com a leitura, começou a escrita. A mesma que já sentia nas nuvens e nos astros. Do cunhado, herdou um dicionário. “Era o meu brinquedo”. Escrevia poesias em cadernos – inspirado nos cadernos de letras do irmão. Esses cadernos foram ficando famosos. Emprestava-os para as mocinhas do bairro, que gostavam e estimulavam: escreva mais. “Muitos anos depois, encontrei uma dessas moças, já uma senhora com filhos. Ela ainda tinha um desses caderninhos”. Se encontrou a leitura e a escrita, nos anos 70, na Marquês de Herval, Valdir também aprendeu “a ser malandro”. Nessas, passava de escola em escola: Martins Fontes, Canadá, Primo Ferreira. Do Tarquínio Silva foi expulso, por mandar o diretor à m... No Mário Alcântara, literalmente, deu samba. A escola organizou um festival e os três alunos com os melhores sambas ganhariam uma nota dez. “Fiquei em terceiro. E nem sabia dançar ou sambar”. Eis um dos versos: “Não me negue seu sorriso / Não me negue seu olhar / Eu preciso nessa ilusão acreditar / A vida é uma agonia / Quando não se tem um grande amor / Ah, minha querida / Venha me trazer o seu calor”, declama e sorri. Outras Naturezas e Movimentos Transformação. É como descreve a mudança para a Rua Cunha Moreira. Embrenhado pela escrita, Valdir entrou na faculdade de Letras. Mas pulava de um trabalho a outro. Quando estava prestes a ser efetivado na Cosipa, fugiu e arrumou emprego em um posto de gasolina. “Não queria passar a vida ali. Minha família queria me internar”, ri. No posto também pouco durou. Aqui vale lembrar a citação de Clarice no início deste texto: a Valdir repugnava o que lhe parecesse uma prisão. Pela liberdade, foi a Brasília em 1975, visitar uma colônia da macrobiótica. “Tinha um restaurante na Rua Amador Bueno, eu trabalhava lá em troca de comer um arroz integral”, justifica o pendor macrobiótico daquela época. Em Brasília, acordava, tomava suco de nabo e ia ajudar na horta. Conheceu um casal de astrólogos santistas. Queriam que ficasse por lá de vez. “Só voltei por causa de minha mãe, que era viúva”. De volta a Santos, em 1981, topou com a Feira de Literatura Independente, coordenada pelo jornalista e hoje secretário-executivo de Justiça e Cidadania do Estado, Raul Christiano, que também era um dos editores da revista literária Picaré. Tornou-se assíduo na revista, fosse com seus textos ou pela militância artística nos eventos e movimentos criados a partir do núcleo da Picaré. Foi nessa efervescência que lançou seu primeiro livro, Plenilúnio, em 1982. Mas por falar em militância, Valdir também a tinha na política: era filiado à ala jovem do então PMDB. Inclusive, estava no histórico comício pelas Diretas Já, em janeiro de 1984, na Praça da Sé, em São Paulo. Varal, Adote e Praça Eis que chegou a hora: Valdir entrou na Prefeitura pela porta do Cemitério do Saboó. “Sabiam que eu era escritor, me colocaram para registrar os óbitos”. Uma vez, com apenas dois meses no cemitério, chegaram dois enterros ao mesmo tempo. Valdir trocou-os de lado: mandou um para a cova do outro. “A sorte é que o encarregado percebeu. Da janela, vi ambos voltando e se cruzando”. Era um aviso: melhor lidar com a vida do que com a morte. Depois de uma passagem pela Secretaria de Educação, Valdir aportou na Cultura. Estava, enfim, em seu habitat. Foi coordenador da Concha Acústica no governo Oswaldo Justo (1985–1988). Organizava as atrações musicais dos sábados e domingos. Voltou para as salas e gabinetes como escriturário. Até que lhe encomendaram um projeto literário. Valdir pegou poemas de Paulo Leminski e Torquato Neto, por exemplo, escreveu-os em grandes cartazes e os pendurou em varais feitos com barbantes presos em ripas de madeira. A primeira edição foi na Praça Mauá. “Primeiro, as pessoas nem viam. De repente, começavam a parar e copiar”. O movimento não passou despercebido no palácio da Prefeitura, em frente. “A Telma (de Souza, então prefeita) perguntou: ‘o que é aquilo lá?’. Ela desceu e leu um por um”. Estava criado o Varal de Poesia. Valdir até inventou um slogan: “vem pra praça, que a poesia é de graça”. “Foi um sucesso. Fomos para os bairros. A CSTC (antiga empresa de ônibus da Cidade) pedia para levar lá; chegamos até a ir no Humaitá (em São Vicente)”. Certo dia, Valdir Alvarenga ficou indignado ao ver pessoal da Secretaria jogando no lixo limpo livros doados. Sem ninguém saber, resgatou-os e os guardou em um armário. “Minha chefe encontrou os livros e perguntou: ‘o que é isso aqui?’”. Surgiu um novo projeto: o Adote um Livro. Era simples e existe até hoje: um display com os livros para que se levasse pra casa, sem precisar devolver. Logo depois, apareceu ainda o Praça da Leitura: levavam-se aos bairros barraca, mesa, cadeira, jornais e revistas para quem quisesse ler. O atual projeto Leia Santos, que a cada semana está em um bairro diferente, é uma mistura do Adote um Livro e do Praça da Leitura. Vida Tantas coisas se passaram. “Minha vida foi toda tarde: casei tarde, comecei a trabalhar com 25 anos”. É casado com Irene Estrela Bulhões. Com ela e Luiz Antonio Canuto, editam hoje a Revista Mirante, criada a partir da Picaré, em 1982. O ‘mirante’ do nome é significativo: remete ao alto do morro de sua infância. “São 42 anos sem patrocínio. Não faço pra ganhar dinheiro, mas até que temos assinantes”. Hoje, trabalha na Biblioteca do CEU das Artes, no Castelo. O maior sonho? “Me manter vivo. Não tenho (sonho). Vivo muito cada momento”. Para, pensa: “Ano que vem me aposento. Tenho o desejo de fazer outro Varal de Poesia na Praça Mauá”. Dois dias depois de conceder esta entrevista, Valdir Alvarenga sofreu um AVC. Ele está internado na UTI da Santa Casa de Santos. Cada frase escrita aqui é uma oração por Valdir.