O Sesc-SP completa neste domingo (13) 80 anos com uma trajetória marcada pela atuação nas áreas de cultura, educação, saúde, esporte e cidadania. Nesta entrevista, o diretor regional, Luiz Deoclecio Massaro Galina, fala sobre o legado da instituição, sua capacidade de acompanhar as transformações da sociedade e os desafios para as próximas décadas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ao completar 80 anos, qual o senhor considera ser a principal contribuição do Sesc São Paulo para a sociedade paulista, e o que explica a capacidade da instituição de permanecer relevante por tantas décadas? O Sesc e sua trajetória longeva são fruto da mentalidade empresarial socialmente comprometida. Desde 1946, seus representantes se envolvem ativamente com um projeto ambicioso para o país e o Estado. Promover o desenvolvimento sociocultural e educacional dos trabalhadores e trabalhadoras paulistas, assim como de suas famílias e da comunidade em geral, pressupõe um trabalho feito em rede, de maneira planejada, inventiva e capilarizada, por profissionais que trabalham no Sesc e que, ao longo de suas trajetórias na instituição, têm a chance de seguir se aperfeiçoando e, assim, contribuir para o incremento da atividade plural que realizamos, com foco nas pessoas atendidas. Manter a relevância do tipo de ação construída pelo Sesc durante essas décadas depende da capacidade das nossas equipes de ler e traduzir as realidades de modo crítico e propositivo, respondendo aos desafios e oportunidades apresentados pelas diferentes porções e territórios do estado. O Sesc nasceu voltado ao bem-estar dos trabalhadores do comércio, mas acabou se tornando também uma referência para toda a sociedade. Como manejar a missão original de atender o comerciário com esse papel cada vez mais amplo nas áreas de cultura, educação, saúde, esporte e cidadania? Entendemos que a atuação em prol dos direitos e da melhoria das condições de vida das pessoas comerciárias corresponde a um propósito que não deve estar apartado da comunidade como um todo, ainda que o nosso público prioritário desfrute de benefícios que lhes são reservados. Em nossos centros de cultura e lazer, bem como nas iniciativas extramuros, procuramos fomentar uma espécie de círculo virtuoso em que o usufruto qualificado do tempo livre é concebido como fator de transformação individual e coletiva, o que coloca a ação do Sesc em um patamar que extrapola o atendimento exclusivo aos trabalhadores do comércio. Nessa coexistência entre distintos segmentos sociais, a cultura, a educação, a saúde, o esporte e a cidadania são cultivados como áreas de desenvolvimento humano interligadas, trabalhadas em favor de um sujeito integral, com demandas e capacidades que se alimentam mutuamente. Em um país marcado por desigualdades sociais e de acesso à cultura, como o Sesc mede o impacto que produz na formação cultural, na qualidade de vida e nas oportunidades oferecidas às pessoas? Há indicadores para essa aferição? O trabalho de democratizar o acesso a oportunidades e bens culturais, em uma realidade social assimétrica, somente pode ter êxito quando exercido por profissionais cientes de sua responsabilidade e ciosos de seu papel. O Sesc prioriza em sua composição funcional a capacitação permanente dos quadros, inclusive no que se refere às formas de ampliar e intensificar os efeitos da ação sociocultural e educativa na vida das pessoas. A mensuração disso se processa por diferentes vias. Da perspectiva quantitativa, as métricas produzidas e processadas permitem-nos avaliar diferentes dimensões do acesso, como os perfis do público atendido, o alcance numérico das atividades e o cumprimento de metas que respondem a critérios inclusivos. Do ponto de vista qualitativo, é notório que a aferição se depara com aspectos subjetivos, ainda mais quando a ênfase se encontra nos processos pedagógicos não formais. Nesse caso, são os métodos de observação ativa, mantidos e aperfeiçoados pelas equipes, que trazem à tona as naturezas de participação e suas reais consequências. Parte significativa das pessoas que frequentam nossas unidades o faz com assiduidade, transitando por variados programas. A convivência estendida com essas pessoas permite testemunhar, no dia a dia, algo dos impactos em suas trajetórias de vida. O Sesc sempre trabalhou com a ideia de formação para além da educação formal. Em tempos de inteligência artificial, excesso de informação e profundas mudanças nas relações de trabalho, o que significa “educar” para o Sesc em 2026? O simples fato de alguém estar num centro de cultura e lazer do Sesc, e podemos tomar como exemplo a unidade de Santos, se reverte em uma ampla gama de possibilidades de práticas e bens a serem fruídos. Diante de um leque de atividades e serviços que abrangem os âmbitos do cuidado, da convivência, do movimento corporal e das descobertas estéticas, a pessoa frequentadora se vê com o trunfo de poder desenhar suas próprias trilhas formativas, com base no princípio da educação permanente, vigente por todos os ciclos da vida. Aqui, ganha relevância a ideia de “autoformação”, uma vez que não se trata de estipular o que exatamente alguém deve vivenciar e aprender, e de que modo, mas de proporcionar opções que, não raro, surpreendem quem se depara com elas. Neste momento histórico, em que a economia da atenção ordenada por algoritmos dificulta a presencialidade, a concentração e a escuta ao outro, a ação do Sesc funciona como um convite para que as experiências sejam vividas de maneira mais consciente e plena. Compreendemos, por outro lado, que a inteligência artificial tende a ser incorporada em nossos processos de trabalho, na medida em que ela ajuda a equacionar aquilo que compete a essa ferramenta, e não no sentido de substituir a sensibilidade e a capacidade reflexiva e executiva de nossas equipes. O envelhecimento da população, as novas configurações familiares e as mudanças no perfil dos trabalhadores do comércio criam demandas diferentes das existentes há algumas décadas. Como o Sesc está se preparando para essa transformação social e demográfica? O Sesc, em certa medida, saiu na frente na questão etária, ao ter criado, há mais de seis décadas, o Trabalho Social com Pessoas Idosas, que fomenta o protagonismo dos sujeitos com mais 60 anos. No que diz respeito às famílias, a permeabilidade do Sesc às demandas socioculturais emergentes fez com que a instituição acompanhasse e desse respaldo à pluralização das configurações familiares, por defender o valor da diversidade e por entender que os arranjos não normativos resultam da autonomia e da autodeterminação das pessoas, o que deve ser reconhecido como aspecto legítimo, a ser reconhecido e respeitado. Também a mudança no perfil de quem atua no comércio, com os altos índices de informalidade e do trabalho por aplicativo, encontra no Sesc um aliado, visto a nossa política de portas abertas, acolhedora de todas as pessoas que procuram alçar sua qualidade de vida. O Sesc, portanto, mais do que se preparar, experimenta permanente o desafio de lidar com as transformações sociais e demográficas. Quem frequenta nossos espaços percebe o quanto a diversidade, em seus vários marcadores, constitui dimensão central do trabalho que fazemos. Nos primeiros 80 anos, a marca Sesc se consolidou com forte viés social, cultural e de acesso a esses bens de qualidade para todos. Qual deve ser a grande agenda do Sesc São Paulo para as próximas décadas? E nessa missão, quais o senhor diria que são os principais desafios/preocupações da instituição? O Sesc é o que é, hoje, em virtude da sintonia fina mantida com os momentos históricos com que dialogou e dialoga de maneira arrojada e corajosa. Como dito no início, a instituição é fruto de um projeto ambicioso para o país, da parte do empresariado, em declarado contraponto ao nosso “complexo de vira-lata”, na expressão difundida pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. No presente e no futuro, ao menos três dilemas civilizacionais nos convocam a pensar e a propor caminhos. O primeiro tem a ver com a polarização perniciosa da sociedade brasileira, diante da qual o Sesc pode contribuir para o aperfeiçoamento dos canais de mediação, em que todos os espectros da população – desde que respeitados os direitos humanos de todas as pessoas e os preceitos democráticos e republicanos – possam ter voz e capacidade de influir na realidade. O segundo corresponde à urgência de se combater a exclusão social, o racismo e a violência contra a mulher, com o Sesc atuando como tecnologia propositiva e, também, como caixa de ressonância para pleitos que, com razão, exigem justiça social. Por fim, o problema do aquecimento global, que como demonstra a ciência resulta da ação humana e de seu uso desequilibrado de recursos naturais. O desafio, nesse quesito, será transpor a fronteira da sustentabilidade, que prezamos no Sesc, na direção de uma efetiva responsabilidade socioambiental. Os desafios, sem dúvida, são enormes, e têm no Sesc um agente cúmplice de transformação, como demonstra nossa história de 80 anos.