Gabriela Almeida de Oliveira, de 39 anos, coleciona piercings desde os 19 (Alexsander Ferraz/AT) “Perfuração na pele para uso de tachas ou enfeites, orifício criado por essa perfuração e enfeite ou tacha que se usa nesse orifício”. Assim é definido no dicionário o que é piercing. Não existe um momento certo para sua origem - há relatos de uso por maias e astecas, com finalidade religiosa. Fato é que, por expressão pessoal, estética, cultura ou até de rebeldia, eles seguem em alta entre jovens e adultos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o caso da servidora pública Gabriela Almeida de Oliveira, de 39 anos. Desde os 19 ela coleciona piercings - já tem quatro, sendo três nas orelhas e um no umbigo. E afirma que a opção pelas peças foi boa para sua autoestima. “Acho que fica sensual, Eu tive que esperar ficar maior de idade, porque minha mãe não deixava colocar antes”, conta. Uma outra razão, menos comum, também foi relatada por ela. “Quando adolescente, queria saber a sensação da dor também. Fazia sem anestesia”. E se uma filha quisesse colocar piercing também? Gabriela seria a primeira a apoiar. “Acho que é uma coisa que, se a pessoa se sente bem, tem que ser conversado e liberar”, prega a servidora pública. Experiência e tendência Piercer de um estúdio no Gonzaga, em Santos, Alexandre Moretto tem mais de 20 anos lidando com piercing. E ele se diz feliz em ver o preconceito diminuir com o artefato ao longo dos anos. “Quando comecei, há 21 anos, o piercing ainda era muito ligado à rebeldia, a um certo estigma. Era comum as pessoas associarem a algo negativo. Hoje é totalmente diferente e se tornou uma forma de expressão pessoal. Está em todas as idades, gêneros e estilos. Tem gente que fura pela estética, outros pelo significado emocional. E é cada vez mais aceito no ambiente profissional, familiar, tudo isso foi uma grande mudança”, afirma. Segundo ele, há uma procura muito grande por piercings na orelha, especialmente os que permitem montar composições. “É quase como uma curadoria de joias. O septo e a narina continuam populares também, mas a tendência é buscar algo mais delicado e personalizado”. Moretto entende que as redes sociais tiveram um papel enorme na difusão do uso do piercing. “Elas normalizaram o uso do piercing, especialmente entre os jovens. Ver artistas, influenciadores, e até médicos com piercings ajuda a quebrar preconceitos. Além disso, o Instagram, por exemplo, virou uma vitrine para mostrar o trabalho profissional”. O piercer acrescenta que o adereço, para muita gente, é uma forma de marcar quem se é, de se afirmar. “Às vezes é uma escolha estética, mas muitas vezes é de identidade, de liberdade — e isso, por si só, pode ser político. Quando uma pessoa rompe com padrões ou afirma sua autonomia sobre o próprio corpo, isso carrega um significado além do visual”, argumenta, lembrando o começo de carreira. “Tinha lugares em que as pessoas olhavam torto, faziam comentários. Era como se o piercing falasse mais alto do que a pessoa. Mas ao longo do tempo isso mudou bastante, embora ainda existam ambientes mais conservadores. O importante é que hoje há mais espaço para conversar, e o respeito está crescendo. Atendo desde jovens, até mulheres de 50, 60 anos querendo colocar o primeiro piercing. Mas o que une todo mundo é o desejo de se expressar de forma única.Muita gente chega já com referência nas redes, mas também tem quem procure por uma experiência mais simbólica, quase ritual. O perfil mais comum é: alguém buscando ser fiel a si mesmo. Estar há 21 anos nesse ofício é a prova de que o piercing não é moda. É expressão, identidade e compromisso”.