Rafael Motta no estúdio onde realizou a narração: o livro é tocante (Vanessa Rodrigues/AT) Um clássico, uma voz. Após o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, viralizar no ano passado com os comentários de uma influencer norte-americana, o jornalista Rafael Motta, editor de Cidades em A Tribuna, teve a ideia de realizar a sua própria contribuição para a divulgação obra: narrá-la e publicá-la em seu canal no YouTube. “Valorizamos a Literatura estrangeira e esquecemos de obras nossas. Memórias Póstumas é um livro com linguagem bem-humorada, menos rebuscada, muito à frente da época”, analisa Rafael. Publicada originalmente em capítulos na Revista Brasileira (atual Revista da Academia Brasileira de Letras), entre março e dezembro de 1880, a história virou livro no ano seguinte. Desde então, vem sendo reafirmada como um clássico absoluto da Literatura Brasileira – reconhecida também internacionalmente. O desejo de Rafael com a narração é aquele primordial de todo audiolivro: que a obra esteja ao alcance de quem tem alguma dificuldade de leitura – mas não só. “Às vezes, tem alguém que já leu e diz: ‘queria ouvir essa história’, como um conto narrado”. Ou seja, oferecer também uma outra forma de se aproximar da história. Capítulo em reticências Com experiência no rádio, gravar o Memórias Póstumas foi além da leitura em si: Rafael interpretou a história. “Não reli a obra para gravá-la. Fui me deixando levar pelo livro”. Entre a gravação, realizada em uma cabine montada em sua casa especialmente para registros em áudio, e a edição, foram consumidos dois meses. Não foi um trabalho simples: Machado usa no livro citações em latim e francês. Para não correr riscos, Rafael foi pesquisar a pronúncia exata das frases. Se alguns capítulos deram trabalho extra, outros foram mais fáceis. Um deles, aliás, fácil demais. “Um capítulo chamado ‘De como não me tornei ministro de estado’ é composto por reticências, não existe”, sorri Rafael. “Eu gravei então: ‘aqui o autor fica em silêncio porque não havia o que dizer’. É uma ironia do Machado”. O resultado são oito horas de gravação, com os 160 capítulos do livro divididos em 46 vídeos. “Nenhum deles com mais de 15 minutos; o maior tem 14”. Concluído esse trabalho, será que vêm outros audiolivros por aí? “Não sei... eu nunca sei”, sorri. A única certeza: “Quero fazer algo que me toque”. Lições e o futuro Uma grande obra literária é sempre vasta em significados – sejam os que inspiram a mente, sejam os que sussurram ao coração. Para Rafael, dois momentos de Memórias são especialmente notáveis nesse sentido: justamente o início e o fim. “No fim, a frase ‘não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado de nossa miséria’ é tocante”. Aliás, no final, o autor enfatiza a ‘vida de negativas’ do personagem, que começa promissora, com dinheiro, posição e inteligência, mas que não consegue se realizar. “A corrente da vida vence o gênio humano”, resume Rafael. Então, já morto, o personagem Brás Cubas (que não é o fundador de Santos) repassa o que foi sua existência – e deixa uma lição a nós, que ainda estamos vivos. “A gente luta, briga, discute com os outros por coisas que não têm importância... e então chega o dia: o que eu fiz da minha vida?”, encerra Rafael.