Quando se fala em carne bovina, a maioria das pessoas pensa em cortes como contrafilé, alcatra ou picanha. Mas, na contramão da preferência popular, há partes do boi que muitos consumidores torcem o nariz como fígado, coração e língua. O que poucos sabem é que essas carnes, muitas vezes vistas como “de segunda”, podem ser ainda mais nutritivas do que o bife tradicional servido no dia a dia. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Cortes subestimados, nutrientes em excesso Segundo nutricionistas, as chamadas vísceras (ou miúdos) são fonte concentrada de nutrientes essenciais. O fígado, por exemplo, é considerado uma das carnes mais densas nutricionalmente do planeta. Uma pequena porção de 100 gramas pode fornecer múltiplos da necessidade diária de vitaminas e minerais. “O fígado é um verdadeiro suplemento natural. Ele concentra ferro, vitamina A, vitamina B12 e ácido fólico em níveis muito superiores a cortes tradicionais como alcatra ou coxão mole”, explica a nutricionista funcional Patrícia Nogueira. O que cada corte oferece ao organismo? Fígado bovino Riquíssimo em vitamina A, que fortalece visão, pele e imunidade. Altos níveis de vitamina B12 e ferro heme, fundamentais para prevenir anemia. Contém colina, importante para memória e saúde cerebral. Coração bovino Excelente fonte de coenzima Q10, que ajuda no funcionamento cardiovascular. Fornece boas quantidades de proteína magra. Rico em zinco e selênio, minerais antioxidantes que combatem o envelhecimento precoce. Língua bovina Rica em vitamina B12 e gorduras boas, que fornecem energia ao corpo. Boa fonte de zinco, mineral ligado à saúde da pele e à imunidade. Possui textura macia, o que facilita o consumo em pratos tradicionais. Comparação com o bife tradicional Enquanto 100g de alcatra fornecem cerca de: 21g de proteína 2,5mg de ferro 2mcg de vitamina B12 O mesmo peso de fígado bovino oferece: 27g de proteína 6,2mg de ferro Mais de 70mcg de vitamina B12 Ou seja, apenas uma porção de fígado já ultrapassa várias vezes a recomendação diária de vitamina B12, nutriente essencial para a saúde do sistema nervoso e da formação de células sanguíneas. Por que, então, essas carnes são rejeitadas? O consumo de miúdos caiu ao longo das últimas décadas, principalmente por fatores culturais. Muitos associam esses cortes a tempos de escassez ou a pratos populares, enquanto cortes como filé mignon e picanha foram alçados ao status de “nobres”. Além disso, o sabor mais intenso e a textura característica desses cortes acabam afastando consumidores acostumados a carnes magras e de preparo rápido. Benefícios para o bolso e para o planeta Além de nutritivos, fígado, coração e língua costumam ser mais baratos que cortes tradicionais. Em tempos de inflação alimentar, podem representar uma forma de manter a qualidade nutricional da dieta gastando menos. Do ponto de vista ambiental, valorizar todas as partes do animal também faz parte do movimento nose-to-tail eating, que busca reduzir o desperdício e tornar o consumo de carne mais sustentável. Há contraindicações? Apesar dos benefícios, nutricionistas alertam que o consumo deve ser equilibrado. O fígado, por exemplo, é extremamente rico em vitamina A. Em excesso, pode causar hipervitaminose, especialmente em crianças e gestantes. Já pessoas com colesterol alto devem moderar o consumo de vísceras, que costumam ter mais gordura saturada. Como consumir de forma saborosa Fígado: grelhado com cebola, em patês ou em moelas. Coração: muito usado em churrascos, pode ser grelhado em espetinhos. Língua: tradicional no preparo cozido, com molhos ou até desfiada em ensopados. Receitas de família e preparos regionais são excelentes portas de entrada para redescobrir esses cortes.