A bioimpedância é cada vez mais popular, mas é comum que muitas pessoas ainda não saibam a função desse exame (Divulgação / Freepik) Há anos, a visita ao médico ou nutricionista terminava com o mesmo ritual: a medição da altura e o peso, seguidos do cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC). A fórmula, simples e universal, parecia dar a resposta definitiva: você está em um peso ideal, acima do peso, ou obeso. Mas para atletas, fisiculturistas e até mesmo para pessoas que praticam atividade física regularmente, o resultado muitas vezes soa como uma injustiça. O atleta com músculos definidos e baixo percentual de gordura pode ser classificado como "obeso" pela métrica do IMC, enquanto uma pessoa com peso ideal, mas com acúmulo de gordura e pouca massa muscular, recebe um veredito de "saudável". Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A comunidade científica e os profissionais de saúde já questionavam a validade do IMC há algum tempo. Mas um estudo recente, publicado no renomado periódico Journal of Applied Physiology, veio para reforçar as críticas e elevar a bioimpedância ao status de ferramenta superior para a avaliação da composição corporal. A pesquisa, que analisou a saúde de mais de 1.200 indivíduos, concluiu que a bioimpedância é significativamente mais precisa para prever riscos metabólicos, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, do que o IMC. A revolução na forma de avaliar a nossa saúde começou, e a balança que só mede o peso e o IMC está com os dias contados. A história por trás da balança: O que é o IMC? O IMC é uma medida de proporção criada no século XIX pelo matemático belga Adolphe Quetelet. A fórmula é simples: peso (kg) dividido pela altura (m) ao quadrado. A ideia por trás do IMC é que ele serve como um indicador do acúmulo de gordura corporal. O resultado é categorizado da seguinte forma: Abaixo do peso: < 18,5 Peso ideal: 18,5 a 24,9 Sobrepeso: 25 a 29,9 Obesidade: > 30 O maior benefício do IMC é sua praticidade e baixo custo. "O IMC é uma ferramenta rápida e acessível para avaliações populacionais em larga escala", explica a endocrinologista Dra. Juliana Ribeiro. "Para estudos epidemiológicos, por exemplo, o IMC é útil para ter uma ideia geral da obesidade em uma população. O problema é usá-lo como única métrica para a saúde individual." O grande calcanhar de Aquiles do IMC é a sua incapacidade de diferenciar a massa magra (músculos, ossos, órgãos) da massa gorda (gordura). Uma pessoa com massa muscular densa e desenvolvida pode ter o mesmo peso e altura de uma pessoa sedentária com um alto percentual de gordura. O IMC vai classificar ambos da mesma forma, mas o risco à saúde deles é completamente diferente. O primeiro é um indivíduo saudável, enquanto o segundo pode ter um risco elevado de desenvolver problemas crônicos. O futuro da avaliação corporal: Como funciona a bioimpedância? A bioimpedância (BIA) é uma tecnologia que oferece uma análise muito mais detalhada da composição corporal. O aparelho, que pode ser uma balança com sensores ou equipamentos mais avançados, emite uma corrente elétrica de baixa intensidade e alta frequência que passa pelo corpo. O princípio é que a corrente viaja mais rápido através dos tecidos com alto teor de água (como músculos) e encontra maior resistência nos tecidos com pouca água (como a gordura). "A bioimpedância, ao medir a resistência e a reatância do corpo, nos dá uma estimativa precisa de quanto do nosso peso é músculo, gordura, água e até mesmo osso", afirma o Dr. Lucas Ferreira, pesquisador em fisiologia do exercício e um dos autores do estudo. "É um método muito superior porque nos permite entender a composição real do corpo. Um paciente que parece magro e tem um IMC normal pode ter um percentual de gordura elevado, uma condição que chamamos de 'falso magro'. A bioimpedância detecta isso, e nos permite intervir antes que a gordura visceral cause problemas." A tecnologia da bioimpedância, no entanto, também tem suas limitações. A precisão do resultado pode ser influenciada por fatores como a hidratação do indivíduo, a alimentação pré-exame e a temperatura do ambiente. Por isso, os profissionais de saúde orientam os pacientes a seguirem um protocolo rigoroso antes da medição (como não comer, beber água ou praticar exercício físico algumas horas antes). O Estudo que mudou o jogo A pesquisa que serviu de base para essa reportagem foi ambiciosa. Foram analisados dados de centenas de pessoas de diferentes perfis, idades e hábitos. Os participantes foram submetidos a exames de bioimpedância e tiveram seus dados de IMC registrados. Ao mesmo tempo, os pesquisadores analisaram marcadores de saúde metabólica, como glicemia, pressão arterial e perfil lipídico. As conclusões do estudo foram categóricas: a bioimpedância se mostrou um preditor mais preciso e confiável de risco metabólico. Pessoas com alto percentual de gordura, mesmo com IMC na faixa ideal, apresentavam marcadores de risco elevados. Por outro lado, indivíduos com IMC de sobrepeso ou obesidade, mas com massa muscular bem desenvolvida e baixo percentual de gordura, tinham indicadores de saúde melhores do que seus pares com o mesmo IMC, mas com menos músculo. "O estudo reforça o que já sabíamos na prática: o peso da balança é uma informação incompleta. O que realmente importa para a saúde é a qualidade desse peso", explica o Dr. Lucas. "Ter um alto percentual de massa muscular está associado a uma melhor sensibilidade à insulina e a um menor risco de doenças crônicas, enquanto o excesso de gordura, principalmente a visceral, é o que realmente nos coloca em perigo." Casos práticos: A prova de que o IMC pode falhar Para ilustrar a falha do IMC, vamos analisar dois casos hipotéticos. Caso 1: O Atleta João João, um levantador de peso de 30 anos, mede 1,75 m e pesa 95 kg. Seu IMC é de 31,02, o que o classifica como "obeso". No entanto, sua bioimpedância revela que seu percentual de gordura é de apenas 12%, um número que o coloca na faixa de "atleta". Seus exames de sangue são perfeitos, e sua saúde é excelente. O IMC, nesse caso, falhou completamente em dar um diagnóstico preciso. Caso 2: A Falsa Magra Maria Maria, uma mulher de 40 anos, mede 1,60 m e pesa 60 kg. Seu IMC é de 23,43, o que a coloca na faixa de "peso ideal". Ela não pratica exercícios e sua dieta é baseada em alimentos ultraprocessados. A bioimpedância revela que seu percentual de gordura é de 38% – um número considerado alto e que a coloca em risco de síndrome metabólica. A análise do IMC, nesse caso, deu uma falsa sensação de segurança. O que tudo isso significa para você? A reportagem não é um ataque ao IMC, mas um alerta para a necessidade de avaliações mais completas. A principal mensagem é: o peso na balança é apenas um número. O que realmente importa é o que ele representa em termos de composição corporal. Dicas para o leitor: Use o IMC como um indicador inicial, não uma sentença: Se o seu IMC está na faixa de sobrepeso ou obesidade, use isso como um sinal para procurar ajuda profissional. Procure a bioimpedância: Se você pratica exercícios físicos regularmente ou se preocupa com a sua composição corporal, a bioimpedância é a ferramenta mais completa para monitorar seu progresso e entender sua saúde de forma mais profunda. Foco na saúde, não no peso: O verdadeiro objetivo de um plano de saúde e bem-estar não é apenas perder peso, mas sim ganhar massa muscular e perder gordura. A bioimpedância mostra esse progresso, motivando e orientando melhor. Consulte um profissional: Um nutricionista ou um educador físico pode interpretar os resultados da bioimpedância e criar um plano de ação (dieta e exercício) focado em melhorar a sua composição corporal. A busca por uma vida mais saudável precisa de métricas que realmente reflitam o estado do nosso corpo. O IMC cumpriu sua função histórica, mas a bioimpedância é o futuro. É hora de ir além do que a balança diz e olhar para dentro, para entender o que realmente significa ser saudável.