Uma empresa conhecida durante anos principalmente por fabricar placas de vídeo para computadores e videogames conseguiu algo que, há pouco tempo, pareceria improvável: transformar-se em uma das maiores companhias do planeta e disputar com gigantes como a Apple o título de empresa mais valiosa do mundo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A protagonista dessa transformação é a Nvidia. A companhia se tornou uma das maiores beneficiadas pela explosão da inteligência artificial (IA), graças à enorme procura por seus processadores utilizados para treinar e executar modelos de IA. A ascensão colocou a fabricante de chips no mesmo patamar da Apple, empresa que revolucionou os mercados de computadores, smartphones e dispositivos eletrônicos e ocupou durante anos o posto de companhia de maior valor de mercado do planeta. Em agosto de 2026, as duas permanecem entre as empresas de maior valor na Bolsa de Valores, embora a liderança possa mudar rapidamente de acordo com a cotação das ações. Levantamento atualizado neste mês coloca a Nvidia na primeira posição mundial em valor de mercado. Mas como uma fabricante de chips conseguiu chegar tão longe? De videogames para a inteligência artificial A história da Nvidia começou em 1993. Fundada por Jensen Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem, a empresa apostou no desenvolvimento de tecnologias para processamento gráfico. Durante muito tempo, a marca ficou especialmente conhecida entre jogadores de videogame e usuários de computadores de alto desempenho por suas GPUs, as unidades de processamento gráfico. Esses componentes foram inicialmente desenvolvidos para realizar uma enorme quantidade de cálculos simultaneamente e produzir gráficos complexos rapidamente. Foi justamente essa capacidade de processamento paralelo que, anos depois, se tornaria extremamente valiosa para outra finalidade: a inteligência artificial. Modelos de IA precisam realizar quantidades gigantescas de cálculos durante o treinamento e funcionamento. As GPUs se mostraram especialmente eficientes nessa tarefa. A Nvidia ainda construiu ao redor dos chips um ecossistema de software e ferramentas que facilitou sua utilização por pesquisadores, desenvolvedores e empresas. Quando a inteligência artificial generativa ganhou força mundial, a empresa já estava em uma posição privilegiada. ChatGPT ajudou a provocar uma corrida O lançamento do ChatGPT, no fim de 2022, tornou a inteligência artificial generativa conhecida por milhões de pessoas e desencadeou uma corrida entre algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo. Companhias passaram a investir bilhões de dólares em data centers e infraestrutura necessária para desenvolver e oferecer ferramentas de IA. Nesse cenário, os chips da Nvidia se transformaram em componentes estratégicos. A empresa passou a fornecer tecnologia para uma indústria em plena expansão. Atualmente, gigantes da tecnologia investem pesadamente na construção de infraestrutura para IA, alimentando a demanda por processadores especializados. A importância conquistada pela Nvidia pode ser percebida inclusive pela dimensão dos projetos atuais. Em agosto de 2026, a empresa anunciou uma iniciativa com grandes instituições financeiras para mobilizar até US\$ 500 bilhões em capital de terceiros destinado à infraestrutura de computação para inteligência artificial. Nvidia virou símbolo do 'boom' da IA O mercado financeiro respondeu rapidamente ao crescimento da inteligência artificial. As ações da Nvidia dispararam conforme investidores passaram a apostar que a companhia seria uma das principais beneficiadas pelos investimentos mundiais em IA. Em junho de 2025, por exemplo, a empresa já havia retomado a liderança entre as companhias mais valiosas do planeta, alcançando aproximadamente US\$ 3,86 trilhões em valor de mercado no fechamento daquele mês, segundo levantamento da Reuters. Desde então, a disputa pelo topo passou a refletir também uma mudança importante no setor de tecnologia: empresas responsáveis pela infraestrutura necessária para a inteligência artificial ganharam protagonismo semelhante ao das gigantes que vendem produtos diretamente aos consumidores. Apple segue gigante, mas precisou acelerar na IA Se a Nvidia representa a infraestrutura por trás da revolução da inteligência artificial, a Apple possui uma estratégia bastante diferente. A companhia construiu seu império principalmente com produtos como iPhone, Mac, iPad, Apple Watch e serviços digitais. Além disso, controla um enorme ecossistema de hardware e software utilizado por centenas de milhões de consumidores. Durante a primeira fase da corrida da IA generativa, porém, investidores e analistas questionaram se a empresa estaria ficando atrás de concorrentes. A Apple passou então a ampliar sua aposta na chamada Apple Intelligence. Em junho deste ano, durante a WWDC26, a companhia apresentou uma nova geração do sistema e anunciou a Siri AI, reformulação de sua tradicional assistente virtual. Segundo a própria empresa, a nova Siri consegue compreender contexto pessoal, informações exibidas na tela e realizar interações mais complexas. A estratégia mostra uma diferença importante entre as duas rivais. Enquanto a Nvidia ganha dinheiro fornecendo parte da infraestrutura necessária para construir e executar sistemas de inteligência artificial, a Apple pode utilizar a IA para tornar seus próprios aparelhos e serviços mais atraentes e incentivar consumidores a permanecerem dentro de seu ecossistema. Dados dos usuários podem ser vantagem da Apple Um dos principais trunfos da Apple está justamente na quantidade de informações existentes nos dispositivos dos consumidores. Mensagens, fotos, compromissos, documentos e outras informações podem permitir que sistemas de inteligência artificial ofereçam respostas muito mais personalizadas. A própria Siri AI anunciada pela companhia foi projetada para utilizar contexto pessoal e localizar informações relevantes em mensagens, e-mails e fotos. Ao mesmo tempo, isso representa um desafio. A Apple construiu parte de sua estratégia de marketing em torno da proteção da privacidade dos usuários. Assim, precisa explorar as possibilidades da inteligência artificial sem comprometer essa promessa. Nvidia também enfrenta riscos Apesar da valorização extraordinária, a Nvidia não está livre de desafios. Um deles é justamente saber durante quanto tempo empresas continuarão investindo somas gigantescas em infraestrutura de inteligência artificial. Além disso, a fabricante enfrenta concorrentes no mercado de semicondutores e clientes que também desenvolvem chips próprios. Questões geopolíticas representam outro risco. As restrições norte-americanas à exportação de chips avançados para a China têm afetado a atuação das fabricantes de semicondutores. Em maio deste ano, por exemplo, os Estados Unidos autorizaram determinadas empresas chinesas a comprar chips H200 da Nvidia, mas as entregas ainda enfrentavam obstáculos. Ainda assim, o mercado de chips voltados à inteligência artificial permanece amplamente associado à Nvidia. A Reuters destacou neste ano que a companhia continua dominando esse segmento, embora rivais estejam tentando conquistar espaço. Disputa também simboliza duas visões da inteligência artificial A briga entre Nvidia e Apple pelo posto de empresa mais valiosa do mundo vai além da cotação diária das ações. Ela coloca frente a frente dois modelos diferentes de ganhar dinheiro com a revolução da inteligência artificial. De um lado está a Nvidia, fornecendo os chips, sistemas e infraestrutura necessários para que empresas construam seus modelos e serviços. Do outro está a Apple, dona de um gigantesco ecossistema de dispositivos e consumidores no qual a inteligência artificial pode ser incorporada. A disputa acontece justamente quando investidores começam a analisar com mais atenção se os bilhões de dólares destinados à infraestrutura de IA conseguirão gerar retornos compatíveis com os investimentos. Por isso, o título de empresa mais valiosa pode continuar mudando de mãos. Mais importante do que saber quem ocupa a primeira posição em determinado pregão é entender como a inteligência artificial conseguiu alterar, em poucos anos, a hierarquia das maiores companhias de tecnologia do planeta. Mudança de comando na Apple A disputa também acontece em um momento histórico para a Apple. Tim Cook deixará o cargo de CEO em 1º de setembro de 2026, depois de 15 anos no comando, e passará a ocupar a função de Executive Chairman do conselho diretor. O sucessor será John Ternus, atual vice-presidente sênior de Engenharia de Hardware. A mudança foi anunciada oficialmente pela empresa em abril. Ternus, portanto, assumirá uma Apple que continua entre as empresas mais valiosas do planeta, mas que enfrenta um desafio decisivo: provar que pode transformar sua enorme base de usuários e dispositivos em uma vantagem competitiva na era da inteligência artificial. Do outro lado está Jensen Huang, que transformou uma fabricante de chips gráficos fundada há mais de três décadas em uma das empresas que passaram a definir os rumos da economia da IA. A batalha pelo topo do mercado mostra, assim, como a inteligência artificial mudou não apenas os produtos que as empresas oferecem, mas também quem Wall Street acredita que poderá dominar a próxima fase da indústria de tecnologia.