Entre o humor e a emoção, Yrla Braga vive um dos momentos mais marcantes da carreira. Integrando o elenco de Coração Acelerado, novela das 7 da TV Globo, a atriz e humorista celebra uma fase de reencontros — com o palco, com os sonhos e consigo mesma. Em conversa franca, Yrla relembra o impacto da morte da mãe, sua maior incentivadora na arte, e fala sobre a síndrome de impostora, a recuperação após um AVC aos 29 anos e a forma como a comédia se tornou ferramenta de cura. Com leveza e sinceridade, ela também comenta a construção da divertida Rosinha. Você contou que a morte da sua mãe, que era sua maior incentivadora na arte, fez com que atuar deixasse de ser um sonho possível e virasse até uma dor. O que foi mais difícil neste período de luto e o que te ajudou a reencontrar sentido no palco? Minha mãe sempre construiu em mim muitas histórias e vontade de viver muitas histórias. Ela não era artista, era professora, então criava mundos muito bonitos. Para eu largar a chupeta, por exemplo, ela inventou uma história em que o preço de uma bolsa que eu queria muito era justamente a minha chupeta. E eu entreguei. Depois me arrependi, mas já era tarde (risos). Ela sempre transformava momentos difíceis em memórias bonitas. Minha mãe criou uma espécie de barreira para as coisas ruins não chegarem em mim e no meu irmão. Quando essa barreira se desfez, parecia que todas as coisas horríveis do mundo começaram a nos atingir. Isso me fez muito mal, principalmente no teatro, porque ela foi a pessoa que mais acreditou em mim, mesmo sabendo do meu trauma de infância com palco. Quando resolvi atuar, ela nunca demonstrou dúvida, mesmo morrendo de medo de eu me frustrar. Sem ela, me senti completamente exposta e frágil. Parecia que o principal aplauso que eu queria não estava mais ali. Foi muito doloroso. Mas ela dizia que, se você for picado pelo bichinho da educação ou da arte, é para o resto da vida. E eu fui picada por esse bichinho. Tinha voltado para os bastidores, escrevendo, produzindo, trabalhando na coxia, mas ainda não tinha subido no palco. Quando subi de novo, senti tão forte a presença da minha mãe que pensei: “é aqui o meu lugar”. Acho que é aqui que mais me aproximo dela. Seu primeiro stand-up foi inspirado na relação com a sua mãe e no processo de perda. Em que momento você percebeu que transformar essa dor em humor também estava ajudando outras pessoas a lidar com os próprios lutos? Percebi primeiro na terapia. Minha psicóloga falou que eu usava a comédia para me curar e talvez estivesse fazendo isso por outras pessoas também. Eu duvidei muito, porque tenho síndrome da impostora. Mas depois do show, as pessoas começaram a vir falar comigo. Diziam que estavam vivendo processos parecidos e que conseguiam se sentir acolhidas ao ver alguém fazendo piada sobre aquilo. Percebi ainda mais quando pessoas de outros estados começaram a me mandar mensagens dizendo que era bom ver uma versão leve da dor que elas estavam vivendo de forma triste. Aos 29 anos, você sofreu um AVC e chegou a ouvir dos médicos que “um fio de cabelo” separou você da morte. Depois de passar por isso, o que mudou na sua forma de enxergar as oportunidades? A primeira coisa que pensei foi: “daqui a pouco eu posso morrer”. Então decidi largar meu emprego e correr atrás do que me fazia feliz. Se não desse certo, pelo menos eu teria tentado. Quando perdi minha mãe, passei a enxergar a finitude do outro, mas não a minha. Depois do meu AVC, percebi que precisava viver por mim também, realizar minhas vontades e me dedicar mais aos meus projetos. Passei a ter menos vergonha, menos filtro e mais coragem de aproveitar as oportunidades da vida. Você já disse que realmente acreditava que “seu tempo tinha passado” e que a televisão tinha deixado de fazer parte dos seus planos. Hoje, vivendo uma novela da TV Globo, o que diria para aquela Yrla? Eu falaria: “você é doida, reage, bota um cropped” (risos). Pegaria aquela Yrla pelos ombros e diria: “não desiste, acredita mais em você, para de se diminuir e de achar que não dá tempo”. E ainda preciso fazer isso comigo hoje. Quando a produtora de elenco me ligou para falar do papel, perguntei se eles tinham certeza de que não estavam confundindo meu nome. Então ainda preciso de uma sacolejada. Mas tenho olhado para mim com mais carinho e segurança. Para aquela Yrla de antes, eu diria: “perdeu tempo demais, mas ainda dá tempo”. O encontro com o Paulo Vieira aconteceu nesse momento de retomada da sua vida e da carreira e parece que foi um divisor de águas para você. Foi muito marcante encontrar o Paulo Vieira justamente em Barra do Garças, minha cidade. Ele conhecia tudo dali, já tinha passado férias lá, e fiquei pensando como talvez a gente tivesse brincado nos mesmos lugares sem saber. Mas o que mais me marcou foi perceber o tamanho da generosidade dele. Depois da entrevista, ele perguntou por que eu ainda não tinha ido para São Paulo e disse que eu estava perdendo tempo. Me passou o número pessoal dele, falou até o horário em que eu podia mandar mensagem. Achei que fosse contato da produção, mas era dele mesmo. Ele respondeu na hora e me ajudou muito em São Paulo, me indicando para vários clubes de comédia. Além de um grande artista, ele é uma pessoa extremamente gentil. Em Coração Acelerado, a Rosinha mistura ingenuidade, humor, espontaneidade e uma certa ambição divertida, além de abrir espaço para improvisos. O quanto dessa leveza tem a ver com a sua personalidade? A Rosinha me encanta mais a cada capítulo. Ela ainda vai surpreender muito, porque tem uma força e uma coragem que me impressionam. Também gosto do fato de ela reconhecer os próprios erros e pedir desculpas. Acho isso muito bonito. Sou assim também. Às vezes sou meio esquentada, mas depois reflito, peço desculpas e tento consertar. Terapia ajuda muito nisso (risos). A Rosinha é leve, emocionada e deslumbrada com a vida, e eu também sou. Acho bonito demonstrar afeto, dizer que ama, admirar as pessoas sem vergonha. Nem eu nem a Rosinha temos vergonha de sermos emocionadas. Você costuma dizer que a comédia ainda é tratada como “o primo pobre” da dramaturgia, mesmo sendo tão popular e necessária. Por que fazer rir pode ser uma forma profunda de emocionar e provocar reflexão? Desde o teatro eu batia muito nessa tecla. A comédia sempre era necessária nos festivais, mas raramente recebia o mesmo reconhecimento porque diziam que faltava profundidade. Só que fazer rir é uma das tarefas mais difíceis e sofisticadas da arte. Exige precisão, ritmo, observação do comportamento humano e muita sensibilidade. Muitas vezes o riso nasce justamente do reconhecimento das nossas contradições, medos e inseguranças. Durante muito tempo, entretenimento foi confundido com superficialidade. Mas grandes comédias conseguem falar sobre preconceito, desigualdade, luto, amor e fracasso de forma muito poderosa. O humor desarma as pessoas e abre espaço para a reflexão. Muitas vezes uma piada consegue dizer o que um discurso sério não alcança. No meu caso, rir foi uma forma de resistência, cura e reconexão com a vida. Fazer alguém rir e, ao mesmo tempo, se reconhecer naquilo é uma das formas de arte em que mais acredito. Depois de viver tantas reviravoltas — o luto pela sua mãe, a pausa na carreira, o AVC e agora a estreia em uma novela da Globo —, qual é o tipo de sonho que você voltou a se permitir ter? Agora estou sonhando de verdade. Brinquei esses dias com a Kamila Amorim sobre o Tomás Aquino estar indo para a festa do Oscar e falei: “não tem como a gente não sonhar com isso também”. Eu não sonhava estar onde estou hoje e agora quero me permitir sonhar alto. Quero correr atrás desses sonhos também, porque sei que nada cai no colo. Mas hoje me permito acreditar em possibilidades que a Yrla de anos atrás acharia completamente impossíveis.