Vivemos em um tempo em que descansar parece um erro moral. O silêncio é visto como preguiça, e o ócio, essa antiga virtude dos pensadores, foi condenado como pecado. Se alguém pergunta “o que você tem feito?”, e você responde “nada”, o ar ao redor se torna denso, constrangedor. Como se o nada fosse uma ofensa. Como se existir, por si só, não fosse o bastante. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A sociedade nos treinou para sermos úteis, como se a vida fosse uma linha de produção. Cada um carrega o seu crachá invisível, com metas silenciosas: ganhar mais, ser promovido, ser admirado, postar o suficiente. A alma virou currículo, o corpo virou vitrine. Como diria Byung-Chul Han, somos exploradores e explorados de nós mesmos, o sujeito do desempenho, que se chicoteia sorrindo. Nietzsche já dizia que o homem moderno perdeu a capacidade de simplesmente ser. Tornou-se um animal que corre porque esqueceu de onde vem e para onde vai. E o pior: acredita que precisa justificar a própria existência. “De que serve o homem que não serve para nada?”, perguntaria o coro social, sem perceber que é justamente esse “nada” que nos devolve a essência. Fernando Pessoa confessava: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Não disse que tinha metas, nem prazos, nem cronogramas. Sonhos, inúteis, etéreos, vagos. E ainda assim, é justamente essa inutilidade que o torna eterno. Há uma beleza em não servir para coisa alguma, em apenas existir, como um rio que corre sem destino, uma estrela que brilha sem propósito. Mas crescemos ouvindo que não basta ser bom, é preciso ser o melhor. Que a felicidade é uma planilha, e o fracasso, qualquer desvio do roteiro. Não ter um carro é um sinal de fracasso. Morar de aluguel, um lembrete de que ainda não “chegamos lá”. E onde é “lá”? Ninguém sabe. A humanidade segue em marcha, ofegante, em direção a um abismo com Wi-Fi. Clarice Lispector escreveu que “liberdade é pouco; o que eu desejo ainda não tem nome”. Talvez o que falte nomear seja justamente essa vida sem utilidade, sem obrigação de ser produtiva, sem a necessidade de provar valor. A liberdade de ser ineficiente, de ser contraditório, de não estar à altura de nada, nem de si mesmo. Camus falava do absurdo: a consciência de que a vida não tem sentido, e ainda assim, o ato de vivê-la intensamente. Ser inútil é uma forma de revolta. É recusar a engrenagem que mede o ser humano por resultados. É afirmar, com alguma ternura e uma certa teimosia, que respirar já é um feito extraordinário. O problema é que desaprender a ser útil exige coragem. Há um medo silencioso de se tornar invisível, de não caber mais em nenhum molde. Somos viciados na validação alheia, como quem precisa de aplausos para existir. Mas talvez o segredo esteja em se permitir o fracasso, a pausa, o vazio. Achar beleza no tédio, grandeza no anonimato. Afinal, o sol não brilha para ser visto. O mar não serve para produzir. As flores não têm currículo. A natureza existe e isso basta. Talvez devêssemos reaprender com ela o verbo mais simples e esquecido: ser. Porque a utilidade é uma forma de prisão. E só quem se permite a inutilidade descobre, enfim, o sabor da liberdade. *Alessando José Padin Ferreira é escritor, professor universitário e jornalista.