Nascida e formada em Santos, Victoria Ariante, de 33 anos, viu o amor pela arte nascer ainda na infância (Júlio Arakack/ Divulgação) Nascida e formada em Santos, Victoria Ariante, de 33 anos, viu o amor pela arte nascer ainda na infância, entre aulas de música, teatro e dança em instituições da cidade. Hoje, a artista, que estreou como diretora em Se Essa Lua Fosse Minha, dirige simultaneamente o espetáculo infantil Pororoca, em cartaz nos Sescs de São Paulo, e o monólogo musical Donatello, com temporada no Teatro Glaucio Gill, no Rio. Nessa entrevista, ela fala um pouco da sua trajetória nos 15 anos de carreira e do seu início em Santos. Você estreou como diretora em Se Essa Lua Fosse Minha e agora encara dois trabalhos simultâneos em São Paulo e no Rio. O que mais a atrai nesse novo lugar de criadora por trás da cena? Costumo dizer que criar um espetáculo é como criar um universo. Me atrai muito poder inventar cada pedaço de uma nova história, perceber uma dramaturgia ganhando movimento e imaginar o que pode combinar com tudo isso: cenário, figurino, iluminação, trilha sonora e por aí vai. É claro que todos esses elementos não são pensados só por mim, mas poder colocar um pouco da minha visão de mundo e do que acredito em uma obra é também uma maneira de existir. Sempre exercitei minha imaginação desde criança e, em um processo criativo, sobretudo de um espetáculo, não há nada melhor do que dar espaço e liberdade para imaginar. Depois, ao longo dos ensaios, o exercício é de experimentações e adequações ao que pode ser mais interessante para aquele trabalho especificamente. Quando vejo um espetáculo estrear, é como também ver esse trabalho, tão artesanal, revelado através de quem está no palco. E o mais interessante de tudo isso é que essa maneira de ver o mundo acaba por ser compartilhada com diversas pessoas que nos assistem. É como dar um presente a alguém. E isso me inspira. Em Pororoca e Donatello você dialoga com públicos muito distintos: crianças e adultos. Como é equilibrar essas linguagens tão diferentes no processo criativo? Minha premissa ao fazer teatro para crianças é a de que o espetáculo é uma experiência que deve ser compartilhada com todos os presentes, incluindo os adultos. Então, de certo modo, acabo por conceber uma peça com classificação indicativa livre enquanto estou criando. Como tenho uma crença genuína na importância desse teatro, também acredito que a criança tem plena capacidade de fruir o espetáculo com seu repertório, suas experiências e suas memórias compreendidas até aqui, e isto deve ser respeitado desde o primeiro momento do processo criativo. Nesse sentido, é preciso dar à criança – e ao adulto – o espaço para que assimile à sua maneira e crie com sua própria imaginação aquilo que está apreciando do espetáculo. Ao mesmo tempo, é importante que haja um direcionamento e, para tal, há componentes de ordem prática que são fundamentais diante do público-alvo, como o tempo de duração, a escolha de elementos visuais e até mesmo a dimensão textual, que pode variar diante dos processos. A parceria com o ator Vitor Rocha é um fio que atravessa sua trajetória como coreógrafa e agora diretora. O que essa troca acrescenta na sua evolução artística? O fazer teatral é um trabalho árduo, mas delicado. É também um trabalho em que as parcerias são fundamentais para o crescimento de uma obra. Como os processos costumam ser longos, intensos e exaustivos, encontrar pessoas que nos inspiram e nos respeitam é um componente importante. Minha parceria com o Vitor tem esses elementos muito estabelecidos. Acredito na dramaturgia que ele escreve, sou muito inspirada pelos seus textos e fazer algo em que acreditamos nos faz mergulhar no desconhecido com a certeza de que aquilo faz sentido em nós. Também trocamos muitas referências e outras inspirações artísticas, então conseguimos construir bases sólidas para nossos trabalhos. Como dançarina, atriz e diretora, você transita entre diferentes áreas. O que sente que a dança e a música ainda trazem de essencial para o seu olhar como diretora? Acredito que, como artistas, somos profundamente inspirados por aquilo que consumimos, pelas pessoas que encontramos no caminho, pelos trajetos que fazemos e que vão deixando marcas em nós. A dança, a música e o corpo são elementos que, desde sempre, fizeram parte da minha experiência artística. É claro que ainda quero fazer muitos trabalhos e me desafiar em muitas propostas, mas sinto que esses elementos são indissociáveis da minha criação. O teatro musical tem a premissa de que a música e a dança expressam aquilo que a palavra, por si só, não dá conta de expressar. Acho que o movimento e a música são importantes aliados para a concepção de um espetáculo, podem instigar e acessar lugares que as palavras acabam por falhar e até mesmo dar espaço para que o público acolha a obra pela via da sensibilidade. Você nasceu em Santos e hoje atua em grandes palcos do país. De que forma acredita que a cidade influenciou sua formação artística? Passei metade da minha vida em Santos. Descobri a arte na cidade e também tive contato com pessoas que viviam da arte, o que me fez crer que era possível ser artista como profissão. Grande parte da minha formação artística foi em instituições santistas, e isto foi fundamental para constituir as bases do meu trabalho, não só tecnicamente, mas também no sentido de ter tais mestres como inspirações. Quando volta para Santos, o que gosta de fazer? Tem algum lugar da cidade que sempre revisita? Poder olhar o mar é, sem dúvidas, uma das minhas maiores saudades. Quando estou em Santos, gosto de andar ou correr na orla e parar na Ponta da Praia para contemplar o mar e pisar na areia. Também gosto de ir à Pinacoteca Benedito Calixto e ao Super Centro, no Boqueirão, que, sem dúvidas, é também um lugar de muita memória afetiva. Foi em Santos que você teve o despertar para a arte? Qual foi o primeiro contato marcante com o teatro ou a dança por aqui? Algumas instituições foram definidoras para a minha formação: o Conservatório Musical Lavignac e a Escola de Ballet Lúcia Millás. No Conservatório, ainda com 5 anos, tínhamos vivências que uniam a música e o teatro. Comecei, então, a fazer aulas de balé, dança contemporânea, sapateado e por aí se seguiu. Também fiz aulas na Escola Livre de Teatro de Santos, que na época tinha esse nome, e no Núcleo de Teatro do Colégio Jean Piaget, onde estudei e tive a experiência de participar de diversos festivais de teatro da cidade. Foi em Santos que descobri a arte e, também em Santos, que escolhi fazer disso o meu ofício. Gostaria de trazer algum espetáculo seu para Santos? Que significado teria dividir seu trabalho com o público da sua cidade natal? Gostaria de trazer todos os meus espetáculos para a cidade! No ano passado, estive no Teatro Municipal com um espetáculo musical e foi bastante especial. Várias pessoas queridas estiveram presentes, incluindo muitos alunos (dei aulas em alguns lugares em Santos por vários anos). É bastante significativo voltar à minha cidade natal, em lugares onde estive como aluna ou até mesmo assistindo profissionais e, de repente, perceber que hoje sou eu quem pisa nesse palco. É como uma resposta indicando que os caminhos estão sendo bem trilhados e que, de alguma maneira, todo o esforço valeu a pena. Mas, principalmente, sinto que é um meio de devolver um pouco à cidade aquilo que ela me deu: é como partir, mas sabendo que há sempre para onde voltar e partilhar um pouco mais.